domingo, novembro 04, 2012

Os bananas do poder…a refundação… e o Km 27 da maratona

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  Há alguns dias, na Assembleia da República, todos os deputados da coligação parlamentar (PSD/CDS), juntamente com o governo e convidados dos partidos, encheram os quase 250 lugares do hemiciclo para realizarem uma jornada de trabalho político conjunto. Tratou-se de um mise-en-scène para novo encontro em S. Bento, com finalidade de aprovar o veredicto final de uma “fatwa” governamental sobre o povo português.

Nesse primeiro encontro dos “g2 da nossa desgraça” (obviamente com minúsculas, pois de minúsculos se fala), algumas declarações produzidas pelos bananas ali presentes, elucidou-nos essencialmente do que nos espera. Um desses bananas falou da "refundação" do programa de ajustamento (?!...e já cá estava alguém do FMI a tratar dessa marosca, mas só o silêncio deles conhecia tal facto); o maior banana dissertava sobre uma corrida de maratona e do quilómetro 27 (raio de número que, “noves fora”, dá o valor dos bananas - zero); outro sublinhou que o governo tem "rações de combate" para mais uma legislatura (que se cuide, pois qualquer dia os militares mostram-lhe os dentes e a ração de combate será esse próprio banana); alguém salientou a necessidade de serem "referências" (que raio de exemplos!…), pois sem isso, "dificilmente os portugueses aceitarão sacrifícios". Enfim, foi o encontro da treta, do “engana e papa meninos”.

(imagem da net)

“Convidaram” o PS, para “refundação” do memorando, ou seja, para uma reforma do Estado (social, claro) cujo sufoco, já está muito acima dos limites suportáveis.
Nos discursos inflamados dos actuais governantes, grita-se aos quatro ventos que o PS foi quem chamou a “troika”. No entanto não explicam, no mesmo tom, o que, e quem precipitou essa assinatura. Parecem lançar ao esquecimento que eles próprios assinaram esse memorando, prevendo até que seriam eleitos nas legislativas que se seguiram. Foi um acto de três partidos e não de um só, como pretendem deixar transparecer. No entanto, não explicam o que todos sabemos, ou seja, que a gestão desse memorando tem sido apenas a dois, tendo o terceiro assinante sido “absolutamente” afastado para fora da “casinha”. Não tem qualquer interferência na “desarrumação” dessa “casinha”, estando cá fora, juntamente com todos os que foram marginalizados. Mas agora, os “g2 da desarrumação”, vendo a “casinha” cada vez mais desarrumada, preparavam uma cilada ao terceiro assinante (que não remexeu um tareco durante este período de vigência do desfigurado” memorando”) convidando-o a “refundar” um programa que permitisse “(des)arrumar” muito mais a “casinha”, mas sem que entrassem lá para dentro, entenda-se. Bem, isto seria uma forma de os conotar e corresponsabilizar com novas “(des)arrumações”, para que pudessem continuar a ter um bode expiatório, num futuro próximo, já que as mudanças de timoneiro se adivinham. Denota também uma real incapacidade de governar a casinha “a dois”, embora já tenha lá dentro alguns “troikanos” a gerir soberania alheia. Razão para apelidar estes g2 de autêntico fiasco e traidores da nossa Pátria, entregando o ouro ao bandido, e tentando arrastar o terceiro assinante do memorando para conivência neste derradeiro acto de alta traição e extermínio da Pátria.
Eufemisticamente direi que não se tratou de convite, mas de uma armadilha. Ainda bem que os socialistas já aprenderam a lição e não se deixaram enlear pela famélica voracidade destes bananas.
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Ainda no quilómetro 27 da maratona?!... Não achará esse vampiresco banana, que a enorme maioria dos concorrentes já denotam sinais de exaustão, com excesso de "ácido láctico" e dispneia intensa, face ao “colossal esforço” exigido? Tudo é demasiado evidente, no quotidiano dos pobres “maratonistas”, bastando estar atento aos movimentos dos últimos tempos, à miséria que grassa, ao descontentamento global. Só os bananas não querem ver estes sinais. Não reparam nos múltiplos comentários televisivos e radiofónicos, vozes de analistas e conhecedores dos dramas actuais que se manifestam, maioritariamente, contra esta política ultraliberal, subserviente e recessiva. Até muitos dos que militam nos mesmos clubes partidários se pronunciam, abertamente, contra tais políticas suicidas e autofágicas.
Grassa na mentalidade destes bananas um fanatismo ideológico e uma verdadeira incapacidade de lidar com a realidade". Será que ainda se sentem os legítimos representantes da maioria, quando uma mais avassaladora maioria se manifesta descontente na praça pública? Onde reside a sua legitimidade?… bastava um referendo a essa pressuposta legitimidade e os bananas escorregariam nas suas próprias “cascas”.
Traíram as suas promessas e nunca ninguém, em tempo tão curto, mentiu tanto como Passos Coelho que já consegue ser o bobo do Youtube, tantos são os vídeos que clamam os seus dotes de verdadeiro Pinóquio. Afinal quem é o Pinóquio?...

Recentemente, Manuel Alegre avisou: "isso dos brandos costumes é uma treta. De vez em quando este País passa-se". Perante um comprometedor silêncio do Presidente da República, não me espantará que grande turbulência se aproxime. A impunidade deverá ser palavra morta e que nenhum culpado se considere imune.

Hoje todos sabemos que, na generalidade, o OE2013 passou, à custa dos g2, mas com muita contestação e deglutição de sapos vivos. Quantos bananas daquela Assembleia não terão maldito a imposição da disciplina partidária. Em suas casas, contestados ou não por familiares, devem gritar de raiva por serem membros subservientes de grupos partidários suicidas.
Agora, na especialidade, também ficarão calados, inundados de ódio interior, mas engolindo aqueles imundos batráquios que ajudaram a criar e a alimentar.
Hão-de penar até dizer basta! Embora não me rindo da sua desdita, hei-de maldizer-lhes a covardia e falta de hombridade.





domingo, outubro 21, 2012

Pobres e Ricos...a indiferença

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Fiquei deveras sensibilizado com o sentido de justiça social de José Mujica, descrito neste artigo de Anselmo Borges, no DN de 20/10/12:

«A gente nem quer acreditar, quando lê, em Isabel Gómez Acebo e no Courier International, o exemplo impressionante do presidente do Uruguai, José Mujica. Após a eleição, continua a viver na sua pequena casa, numa zona da classe média, nos arredores de Montevideu. Tem um salário de 12500 dólares mensais, mas dá 90%, vivendo com 1250 (que lhe basta, pois muitos concidadãos vivem com menos). A mulher, a senadora Lucía Topolansky, também dá a maior parte do seu salário. Como transporte oficial utiliza um Chevrolet Corsa. Durante o Inverno, a residência oficial servirá de abrigo aos sem tecto. Mandou vender a residência de Verão do presidente, e o resultado da venda destina-se, entre outros usos, à construção de uma escola agrária para jovens sem posses.
Na reunião do Rio+20, pronunciou um discurso especial. Aconselhou a uma mudança de vida, pois foi para sermos felizes que viemos ao mundo. Ora, na sociedade actual, vivemos completamente obcecados com o consumismo: trabalhamos para consumir sempre mais... tendo de pedir empréstimos que temos de devolver, e esquecemo-nos da felicidade. É este o destino da vida humana? Terminou, estimulando à luta pela conservação do meio ambiente, porque "é o primeiro elemento que contribui para a felicidade"».




(imagem da net)

Aqui, e não só, o filme é irrealista e impensável. Já imaginaram os nossos políticos, incluindo os milionariamente reformados, tomarem uma atitude similar? Para já não falarmos dos excelentíssimos e diamantinamente reformados ex-gestores do sector bancário, como esse “desgraçado” do Jardim Gonçalves que, num mês, aufere valores vertiginosamente anómalos para um País que se encontra a cair de miserável, o nosso POOR-TUGAL=(POBRE-TUGAL), parafraseando “The Economist” (vide http://www.economist.com/news/europe/21564902-yet-another-austerity-budget-raises-concerns-about-future-growth ). Cerca de 170.000 euros por mês, é um escândalo! Este dinheiro mina, aceleradamente, a sustentabilidade da segurança social, pois já não são os fundos da banca que lhe pagam a pensão, nem sequer qualquer instituição privada. Para estes espécimes é que o Estado deveria falir, ou então deveria haver uma forma de os eliminar, para se evitarem os incomportáveis saques. Já não me espanta a indiferença e tolerância do poder político, perante estes casos, pois além doutros, que têm semelhantes pensões, estes políticos querem pertencer ao mesmo clube diamantino. Por isso pretendem, com a máxima rapidez, privatizar as empresas públicas, para se candidatarem a gestores privados… adivinha-se.

Sei que já muito se falou de gorduras e sua lipólise, no entanto parece que o besunto não derrete, neste País, escandalosamente heterogéneo na sua contextura “física”, com dismorfias em excesso. Os políticos dizem que já pouco resta de massa gorda para cortar. O povo, numerosamente mais relevante, afirma e grita que as gorduras estão por cortar, apesar de muitas outras, ocultas em locais inacessíveis.
Fala-se de milhares de automóveis estatais que deveriam, pura e simplesmente ser eliminados em tudo que é instituição ao serviço do Estado, desde autarquias, ministérios, fundações, empresas públicas, etc. Não consumiriam combustível nem oficina e não gastariam condutores, com imobilidade de 70% a 80% do seu dia de serviço; não pagariam seguradoras nem IUC. Desconheço quanto se pouparia num ano, mas evitar-se-ia aumento de alguns impostos ou cortes de ordenados e pensões.
Reduzir e tabelar, com justiça e equidade social, o valor de remunerações da cambada de gestores e pseudo-gestores. Quantos milhões não se poupariam. Para quê tanta canzoada nas múltiplas gestões de empresas estatais? Há que eliminar a maioria dos adjuntos e não executivos, reduzindo-os ao mínimo necessário, para uma boa e eficiente gestão. Sei que “os amigos” e “boys” dos partidos são muitos, mas o povo é quantitativamente mais e com maiores necessidades.
Porque se demora a retirar aos políticos e aos partidos as vergonhosas “subvenções”. Deveria ser retirado esse valor a quem o recebe por ter exercido um acto político que deveria ser de pura cidadania. Nada de prémios vitalícios imerecidos e atribuídos por míseros anos de exercício. Uma vergonha! Para os partidos, nem mais um cêntimo de “subvenções”. É um roubo ao povo e o Estado não deveria subsidiá-los.
Sei que isto é demasiado repetitivo e badalado, mas acredito que os políticos, cada vez mais, têm necessidade que lhes zurzam os ouvidos e até muito mais que isso…mas a lei é dura!
Acabarei apenas com uma observação altamente evidente: a paz interina que o Governo vive, não é tão sadia quanto pretendem fazer transparecer. É uma PAZ PODRE! Cairá de putrefacta.


quarta-feira, outubro 10, 2012

O mentiroso...e vozes de burros

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Hoje não vou falar das actuais atribulações de Pedro, o pegureiro. As incertezas ainda não lhe afastaram a quase libidinosa vontade de serigaitar, enquanto beija a sua flauta de Pã.
Vou falar da sua grande qualidade, cada vez mais notória, da arte de ludíbrio. Zombeteiro sempre foi, creio que mesmo ao nascer terá escarnecido da arte de bem-nascer.
Já garoto de fralda, zombava do pó de talco vulgar e exigia esfregação mais cremosa, quiçá “fraldine” ou “lauroderme”. Quando gatinhava, procurava mais imitar a ferocidade animal que a brandura das ovelhas. Era quase inata a tendência para a superioridade e sobranceria.
Tirando os seus dotes de cantadeiro, que haveria mais tarde de aperfeiçoar, sempre primou pela arte da logração. Mas desconhecia que ninguém enganaria, sem que viesse a ser enganado.
Ainda infante, de sacola às costas, pegava na fisga e atirava aos pardalitos, mas, por vezes a pedrita desviava do alvo, quem sabe se por matreirice, e lá acertava num colega. Queixando-se o maltratado, logo Pedro se defendia: “Foi ele que se meteu à frente!” Os colegas já sabiam, com dom Pedro, nada de inimizades… tinha poder e fisgas. Alguns dos penduras até o desculpavam e beneficiavam dumas tainadas no seu quintalejo, desde que o bajulassem e defendessem. Tornava-se um verdadeiro pastor e já controlava os que o rodeavam.
Na sua adolescência, manteve o rumo e inscreveu-se no grupo dos dominadores e seus aprendizes. Conheceu artilheiros, como ele, já não de fisgas, mas com manuais de “Boa arte de cavalgar e pastorear em toda a selva”.
Frequentou simpósios e “workshops”, congressos e seminários, para se tornar um verdadeiro manipulador e dominador das reses. Tudo valia na marcha rumo ao vértice da pirâmide. Mentiras, seriam acidentes de percurso, formas de sobrevivência, eficácia no desenrasque. Era necessário dominar os animais, enganando-os com falsas promessas e desvios de atenção. Importante era o vértice da pirâmide. Dali poderia, sem tergiversações, vigiar e orientar qualquer rebanho ou manada. Era um verdadeiro técnico em forma e estava apto, com distinção, a ser empossado para a gestão de qualquer causa, no mundo da pastorícia.
Assim, entre o trautear dos seus gorjeios e as mentiras, tão puras como verdades, o nosso Pedro, o pegureiro, chegou a rei das pradarias e pastagens, depois de muito queimar os neurónios, na prazenteira “Boa arte de cavalgar e pastorear em toda a selva”.

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Contactou e convidou o seu inseparável amigo Micas, o comparsa de todas as estroinices desde menino, já moço. Este, já mais habituado às deambulações por píncaros e valados, e às vozes e berros alheios, ensinar-lhe-ia as técnicas do desprezo, da subjugação e do desinteresse. Seguiria o lema da “ovelha que berra, bocado que perde”.

Duma coisa lhe ficou a certeza: atingir o cume da pirâmide, até nem foi difícil. Contudo, agora, naquela montanha onde apascentava o seu rebanho, perante a bruma dos tempos, ficava-lhe uma incerteza: “como  poderei manter-me, sem cair, no cume da pirâmide?”

Consultado, o Micas, impado e do alto da sua sábia ignorância, logo lhe disse: “ó pá, afronta os animais, espezinha-os, engana-os… como bem sabes”. Pedro, atento, mas absorto, limitou-se a grunhir: “Hum! Isso mesmo!

Claro que não ouvindo a voz do vento, nem a inquietação dos animais, a incerteza de Pedro não teria resposta. Vozes de burro seriam melhor conselheiro!
  




terça-feira, outubro 02, 2012

A educação de Pedro e... a realidade.

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A educação de Pedro iniciou-se, quiçá, para lá das corcovas, a sul do Atlas. Foi embrião e nascituro alambazado de melífluos privilégios. A sua infância decorreu na rebeldia e sonho da savana. Por motivos familiares regressou às continentais pastagens e tornou-se um iniciado na aprendizagem do pastoreio onde procurou adquirir conhecimentos, mas os prazeres desviaram-no para longos devaneios.
Outros pastores, matreiros e demasiado ocupados na conquista de pecúlio, procuravam, nos encontros fortuitos, incutir-lhe ideais de boa gestão de rebanhos.
Já moço, enamorou-se duma ovelha e galantemente trauteava solenes “mémés”, numa doce melopeia de paixão e narcisismo. Deliciava-se a flautear enquanto outros efectuavam a limpeza dos bebedouros e aprendiam a fazer arranjos no redil e nas vedações. Para quê a prática, se uma leitura fugaz dos manuais de teoria lhe iria colmatar a santa ignorância. Não faltariam outros pastores que lhe tosquiariam as ovelhas e as ordenhariam. Se fosse para um assado, vá lá, até se daria ao trabalho de sacrificar, ele mesmo, um dos animais. Encher estômago soa a bela música.

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Tarde, tardiamente, sentiu novo apelo de aprendizagem, pois acenaram-lhe com possibilidades de apascentar noutras paisagens e colher maiores lucros e, acima de tudo, maior prestígio. Aconselhou-se com alguns veteranos, besuntados de poder e dinheiro fácil. Inscreveu-se na escola privada, mais a jeito e ao sabor dos seus conselheiros e, a breve trecho, atingiu os seus objectivos. Já poderia ocupar-se de vários pastos e lançar-se nas novas técnicas de desenvolvimento pecuário. Os amigos que calcorrearam idênticos trilhos, procuravam adulá-lo e conceder-lhe algum preito pela sua importante façanha, mais não fosse, para poderem compartilhar novas amizades colaterais. Estas poderiam guindá-los a novos posicionamentos na hierarquia pastoril.

Assim, passou-se o tempo da flauteada musicalidade e teve que se candidatar a mais altos voos. Afinal os seus mestres gabaram-lhe abundantes virtudes e parcos defeitos. Ali estava o verdadeiro pastor! Um homem que bebeu as mais puras e cristalinas águas do conhecimento de liderança animal e atingiu o apogeu da arte de bem pastorear. Procurou experiências baseadas na eficácia do “Princípio de Peter” e, cautelosamente e à socapa, introduziu na contracapa da sua carteira pessoal, um pequeno cartão com o seu novo lema de trabalho, escrito a letras douradas: "In a hierarchy, every employee tends to rise to his level of incompetence". Religiosamente o seguiria, acoplado às novas teorias neoliberais que absorveu na sua escola privada, à luz dos conselhos de mentes estereotipadas.

Não foi preciso muito tempo e Pedro guindou-se para além dos limites que tinha previsto. Afinal o seu valor era imensurável, o seu conhecimento de economia animal e territorial extravasava sobremaneira tudo quanto era humanamente possível. Bem, um deus não seria ele, mas poderia talvez equiparar-se, sem quaisquer veleidades, a um autêntico imperador. Chegou inclusive a pretender mudar o seu lema, num camaleonismo pretensioso, para : “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificaremos o teu império”.

Fosse como fosse, Pedro chegou onde pretendia. Subiu na hierarquia pastoril, depois de algumas contendas com outros pastores que lhe obstaculizaram a marcha triunfante rumo às melhores pastagens do território.
Não foi custosa a jornada rumo ao vértice da pirâmide. Bastou prometer mundos e fundos que apesar de impossíveis, a maioria das suas ovelhas e colegas de profissão, não entenderiam. Utilizaria anacrónicos silogismos e as conclusões chegariam à feição das suas pretensões e com refinados retoques de saloia sabedoria.

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Hoje, Pedro continua na montanha, nos píncaros da sua estrutura, e teima aguardar os frutos das suas anacrónicas teorias, algo secundado pelos ditos e escritos de alguns dos seus anquilosados mestres. Mas os tempos não correm de feição. Afinal as teorias não estão a surtir eficácia. Parece haver inquinação no sistema, mas a sua relutância, e de alguns seguidores, levam-no à indiferença, e continua fechado na sua “torre de marfim”.

Os lobos continuam na expectativa de satisfazer a sua voracidade. As ovelhas continuam submissas, mas desconfiadas, face à indiferença do seu amo e ao progressivo definhar do pasto. Os cães continuam fiéis, mas a parcimónia vai-lhes aguçando a fome e afiando os dentes.
Pedro, apesar de não escutar a mensagem do vento que passa, começa a sentir-se, não o alicerce do império, mas o pântano de futuras desgraças.


terça-feira, setembro 25, 2012

Pedro, as ovelhas e ... os outros animais


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Voltou a chuva. Com ela, eu também, não para fustigar chão molhado nem sequer apagar fogos de rescaldo, mas para refrescar ideias que se intumescem num cenário de misérrima aridez política.

Pedro não ouve o bulício feroz dos lobos e vai zurzindo as suas humildes e submissas ovelhas. Nas alcantiladas rochas dum mundo que parece apenas seu, vai fazendo ouvidos de mercador e não perscruta os ventos. Estes, de Éolo a Bóreas, trazem-lhe os balidos e clamores do rebanho, mas não entende. Dos uivos selvagens, nem um decibel lhe entra nos ouvidos. Dos cães, recebe olhares subservientes e um abanar de caudas.
Aconselha-se com os amigos errados, e rodeia-se de néscios que sonham auréolas de prestígio e vomitam caóticas teorias. Acredita que os lobos não perturbarão as suas humildes e submissas ovelhas.
O pasto encontra-se em mau estado, mas persiste num pastoreio de terras secas, e num famigerado corte das forragens. Os bichos aguentarão. Afinal já os seus mestres de pastorícia tinham elogiado a resistência dos animais. Nas redondezas não havia melhores alimárias. Bastaria tocar a flauta e a música se encarregaria de ser alimento.

Os dias e noites iam-se diluindo no gomil do tempo e as mudanças seguiam os ponteiros, inversamente aos do mesmo tempo. Tudo se revestia de negrume… Pedro não ouvia os ventos, nem os balidos de dor, nem os famélicos uivos.
Os lobos, pata ante pata, aproximavam-se e vigiavam a deslumbrante apatia do pegureiro. As ovelhas, com secura de pasto e já semi-escanzeladas, já não produziam leite quanto bastasse às crias, quanto mais para satisfazer o pastor. A lã seria de pouca solidez, face à desnutrição.
Pedro via definhar os bichos, mas acreditava em melhores dias. Haveria de haver mais pasto, mas, se insuficiente para todos os bichos, alguns seriam sacrificados. Haveria menos bocas e alguma carne para alimento. Os seus amigos estavam de acordo e participariam na comezaina. Os cães de guarda ajudariam, eram fiéis ao pastor.



Sacrificou alguns animais mas o repasto foi precário e não satisfez amigos e muito menos os cães de guarda. Estes, prevendo maiores privações face ao falhanço da estratégia do dono, começaram a mostrar os dentes e a rosnar. Os lobos, apercebendo-se deste raivoso sinal dos canídeos, já previam o pior e começaram a suster os passos. Algo começava a estar mal naquelas pastagens. Parece que ninguém se mostrava satisfeito com os acontecimentos.
Pedro reuniu amigos, apaziguou os canídeos e prometeu soluções. Era errado que o pasto não cresceria. As ovelhas, em menor número, haveriam de medrar, nem que tivessem que se alimentar dos pedregulhos mais moles e da terra em que pasciam. Os lobos não haveriam de atacar e os cães ficariam mais satisfeitos. Ninguém trairia ninguém. Não importava o ruído do vento, os sinais da procela haveriam de se dissipar. Esperar-se-iam melhores dias, pois já os seus mestres o tinham aconselhado a saber esperar.

Pedro, o pegureiro, mai-los cães e os lobos, continuam na alcantilada montanha. Os ventos continuam a afagar-lhe o rosto e os ouvidos, mas parece que não lhe deixam sinais nem mensagens. Será que vai levar a bom termo a sua safra? Será que vai abandonar a sua “torre de marfim”?
Nas patas do rebanho, nos dentes dos cães e dos lobos se encontrará, qualquer dia, a resposta. Pedro e amigos que se cuidem!

quarta-feira, agosto 29, 2012

Formas de ver...

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Após duas semanas de repouso, balanceado entre o “dolce fare niente” e algum lazer campestre, com laivos agromaníacos, regressei às lides clínicas, e calhei de pensar nos últimos acontecimentos, quase repetitivos, do nosso mundo político.
A avidez dos títulos académicos de tantos “jotinhas” imbecis e energúmenos leva-os, como sempre, às intituladasUniversidades de Verão”. Para mim não passa de uma nojeira para a cambada de ganapos, que ao “estilo Relvas” pretendem uma iniciação no mundo infame da colheita de créditos baratos para ingresso em instituições “tipo Lusófona”, também apodadas de Universidades (que deixam dúbios rastos). Não passa de uma fogueira de vaidades onde alguns pretendem ser universitários de pseudo-ciências políticas (de conteúdos tendenciosos) e outros até se intitulam Reitores da Universidade, como Carlos Coelho, numa impada vaidade de quem nunca tal título poderá atingir, a menos que por “demérito” partidário. Envergonham-me os verdadeiros professores doutores que embarcam nesta farsa e se deixam arrastar pela cinética doentia do orgulho e disciplina partidárias.
No PSD, tal como no PS, a moda das Universidades de Verão ganhou estatuto. Mas porquê “Universidades”, autênticos baluartes do conhecimento, e não “Encontros Políticos”, “Fóruns”, “Reuniões”, “Oficinas” ou até o anglicismo “Workshops”? Universidades?...é um atropelo e atentado às verdadeiras Universidades, mas…lá está, vaidades, puras vaidades e algum chico-espertismo para futuras e fáceis promoções que por aí pululam nos “boys” da nação.
Espanta-me que o verdadeiro e original professor-doutor da via promocional, se encontre em território maubere (onde recebeu “aliciantes” mensagens e incentivos), e não faça parte de nenhum painel de “botadores de faladura”, conforme se poderá ver em http://psdeuropa.eu/univerao/uv2012.asp .
Como é deveras frustrante ver tanto dano causado ao Verão e às Universidades! E, já agora, no caso deste partido, analisem e reparem no paradisíaco local e nos aposentos. Próprios de quem vive com salário mínimo ou sob reajustamento económico!

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Chegaram os três estarolas para a quinta avaliação. Já trazem a carteira mais recheada, pois o lucro (superior a um terço do valor do empréstimo) vai entrando nos seus bolsos, enquanto muitos gregos e portugas se vêem “aliviados” dos seus pertences. Já vomitam conhecimentos de má gestão, umbilicalmente danosa, desses estados europeus, pois é o que se tem depreendido no decurso dos caóticos reajustamentos. Contudo ninguém lhes vai pedir contas finais e explicações por tão danosas e perniciosas medidas, quiçá encomendadas pelo imperialismo do dólar, que se tornou menos notório que o euro. Todavia os pais da “eurogénese” continuam, babados e apalermados, deixando-se lograr pelos promotores da experiência económica jamais vista. No fim, concluirão que afinal eles queriam era minar alguns alicerces da velha Europa e fazerem uma verdadeira “vendetta”. Da banda de cá, os Passos continuam perdidos e as Relvas bem escalpelizadas, mas o “povo é que sofre”.
Levantam-se, por recônditas margens, algumas vozes sonantes da velha guarda de gestores, que procuram anunciar novas desgraças como se de graças se tratasse. Realimentam as suas próprias gorduras e as da sua prole, num autêntico assalto a tudo que seja do povo. É que a riqueza pública, quando dividida por todos, só lhes fornece uma nica, daí que, privatizada, já lhes dará bastante mais, pois são menos cabeças, e da mesma seita. Como é fácil entender certas privatizações, autênticos assaltos aos bolsos do erário público, sem qualquer pudor.

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 Hoje também li que o governo perde no IVA o que ganha no corte de alguns subsídios. E a guerra dos comentadores alimenta o terçar de armas entre os defensores da causa e deveres públicos, versus privados.
Deu-me vontade de rir, e nem sequer rebati, a teoria de um tal Martim Avillez, num artigo do Expresso (há cerca de quatro semanas, se não me engano) que afirmava taxativamente que as remunerações dos médicos dos hospitais públicos eram maiores que os dos hospitais privados. Com certeza não se deu ao trabalho de ver as tabelas remuneratórias de ambos, nem se informou dos prémios (incentivos) adicionais dos médicos privados. Muito menos se deslocou aos hospitais EPE e aos do grupo Mello, CUF e Fundação Champalimaud, onde iria confirmar o seu engano. Talvez estivesse a incluir horas extras de alguns médicos em regime de exclusividade de 42 horas (regime já desaparecido há cerca de cinco anos).
Todavia creio que, mesmo sem intervenção do Tribunal Constitucional, seria fácil concluir que a aplicação da pena aos funcionários públicos, com roubo dos dois subsídios, não passa de uma injustiça, novo imposto duplicado e até quadruplicado, às famílias com funcionários públicos. Como já referi, as taxas de usurpação de dinheiro são gigantescas em alguns lares, onde os dois elementos do casal já tinham sofrido um corte de 3 a 10% nas remunerações mensais desde Janeiro de 2011, e agora se vêem sem os quatro subsídios, na sua íntegra. Façam contas e vejam as perdas dessas pessoas que normalmente são quadros superiores duma máquina pesada e necessária para manter a Saúde, a Educação e a Justiça de um País inteiro, máquina essa que os patrões da privada se recusariam manter. Há famílias de classe média que chegam a ser taxados com mais de 50-60% de toda a sua remuneração anual, enquanto muitos “gestores” e riquíssimos senhores da economia privada pagam impostos a 7,5% dos seus dinheiros desviados para o estrangeiro, mas angariados no nosso país. Esses também não perderam qualquer dos subsídios.
Não vale a pena virar os mal pagos do privado contra os também mal e até mais bem pagos da pública. Isso é o que os senhores do dinheiro pretendem, só para continuarem a pagar mal no privado, a fim de amealharem para si a grande fatia de lucros do trabalho. Se ninguém trabalhasse para esses senhores, a sua fortuna iria sumindo e então veriam como eles, ao fim de algum tempo, estrebuchariam.
Os patrões da privada não desempenham, no país, funções de soberania, pelo que não têm que pagar ordenados nem reformas a Juízes e magistrados do Ministério Público, técnicos superiores dos ministérios, médicos, professores e muitos outros quadros superiores. Daí, ser falsa a ideia do salário médio mais elevado na função pública. Será um erro pensar que todos os mecânicos e trabalhadores braçais ganham mais no público que no privado. Analisando bem, e sem ideias tendenciosas de neoliberalismo faccioso, verão que, em muitíssimas artes, até será o contrário. Vejam quanto pagam a determinados artistas que chamam às vossas casas quando necessitam do seu trabalho, depois façam a comparação com quem só ganha aquele certinho, com descontos na fonte e sem hipóteses de fuga ao fisco.
Enfim, não vale a pena alimentar polémicas que agradarão a muitos desestabilizadores. Contudo, teremos que reconhecer que existem profundas injustiças e muito oportunismo, quer no público, quer no privado, mas tal não deverá servir de arma de arremesso a uma só das partes. 

terça-feira, agosto 07, 2012

Relembrar... poemas do meu baú


Embora não esteja propriamente em gozo de férias, que inicio na próxima semana, voltei às cinzas do meu baú e retirei os dois poemas, ainda escritos antes do 25/Abril. O primeiro foi, e volta a ser, dedicado à minha esposa, na altura namorada. O segundo é dedicado a todos os explorados deste mundo que vêem volatilizar-se, sem retorno, as poucas migalhas que ainda têm.


AMO-TE ASSIM

Amo-te, assim,
em laivos de fome,
mulher sem fim,
seiva do meu nome.

Amo-te, em força,
anjo de candura.
Sou gamo...és corça...
Somos a ternura.

Amo-te, alor
dos beijos perdidos,
viçosa flor,
néctar dos sentidos.

Amo-te, aurora
das minhas manhãs,
sumo de amora,
rubor de maçãs.

Amo-te, auréola
de sonhos felizes,
grácil alvéola
nimbando raízes.

Amo-te, amor,
princípio e fim...
Sangue e calor
por dentro de mim.
(in Jornal das Aves, 06/04/74)


(imagem da net)

EI-LO QUE AVANÇA

Ei-lo que avança...
Lua nos olhos,
lábios em dança,
cérebro aos folhos.

Traz mil canções
na cárie dos dentes
- gritos e orações
aos deuses cadentes.

Trinca o cigarro
nos lábios crestados,
segura o catarro
nos dentes cariados.

Urtigas, no peito,
cobrem cicatrizes
dum sonho, desfeito
entre meretrizes.

Traça, sem giz,
no tempo em dança,
o esboço-raíz
dum sonho-esperança.

A lua dos olhos
perde o seu brilho,
entre os escolhos.
Não deixa rastilho.

Seu sonho desfeito
é vento à deriva
- dilema, preceito,
antraz, chaga viva.

Seu sonho-esperança
esvai-se em lume,
torna-se dança
dum saco de estrume.

Ei-lo que avança...
É Rei deposto,
sem ceptro, sem lança,
com lama no rosto.

(in Jornal das Aves, 09/03/74)


terça-feira, julho 31, 2012

Coisas antigas...Relembrar-2


 (imagem da net)

Mais uma vez remexi nas cinzas do meu passado e vou transcrever um modesto escrito publicado "in illo tempore". Depois trancreverei também, um (proto)poema desses meus irreverentes tempos.



Hoje, talvez mais que nunca, urge perguntar a cada cidadão que cruzamos, se entende o que seja um país real. Antes de acreditar nele, terá de entendê-lo, pois só se pode crer no que se compreende, de contrário será encher sacos com vento.
Não iremos talvez explicar-lhe, em conceitos profundos e metafísicos, o que seja o país real. Claro que não entenderia a complexa terminologia. Falar-lhe-íamos simplesmente dum país que não seja aquela entidade abstracta com tabuletas ferruginosas de «Estado» ou «Nação», mas algo que tenha substracto e significado para um povo que haverá de ser ele próprio esse país. Um país sem algemas na consciência dos seus cidadãos, mas também sem oceanos de inconsciência. Um país que se identifique com um povo acordado para as realidades quotidianas, e não viva a sonhar, especado em poltronas de faustosos gabinetes ou deambulando por ruas e praças, estátuas entre estátuas. Um país que tenha plena consciência do que quer, porque quer, para onde vai e porque vai. Em suma, um país de homens conscientes do verdadeiro conteúdo da moral cívica e realmente cumpridores.
 Queria aqui citar um autor ─ Alberto Ferreira ─ na sua obra «Diário de Édipo», que por casualidade foi escrita e editada antes do 25 de Abril:
«Avento a hipótese seguinte: a grande maioria dos homens e mulheres deste nosso país desconhece a nação real, a comunidade autêntica, o condicionalismo da sua história e do seu viver. Acredito, porém, que haja uma minoria esclarecida, mais atenta às realidades, mais dirigida ao futuro e, por isso mesmo, mais bem apetrechada para auscultar as palpitações do presente. Temos, bem sei, uma explicação sociológica para o facto ─ o que não elimina o próprio facto».
Mais adiante diz aos concidadãos: « Sois o peso morto. Não tendes um partido, uma ambição patriótica esclarecida, um programa humanístico para os vossos filhos, e quem diz para os vossos filhos diz para a comunidade onde nasceste e onde pretendeis morrer. O mal parece-me ser esse: vegetar e morrer. Não quereis sobreviver, ao menos?
…Aderes a uma dezena de estéticas, simpatizas com algumas centenas de éticas, admites filosofias a rodos. Ou, o que é pior, não sabes qual é a tua moral, a tua estética, a tua concepção do mundo e da vida».
Em conclusão, tudo isto para comprovar que esse homem que vegeta e morre, está condenado à absoluta falência, a pertencer a uma classe que ingloriamente sustenta outras classes. Já fala de tudo, desde existencialismos a marxismos, mas não deixa de sofrer de psitacismo, sem saber o diagnóstico da enfermidade.

(In Jornal das Aves, 08/11/1975)



Tu irmão

Tu, irmão,
que te sentas à mesa do café
e que, em vão,
magicas coisas fúteis, perde a fé
dum mundo melhor.

Tu, irmão,
já pensaste que tudo isto é rotina
e que, em vão,
poderemos suster esta bolina
com que o mundo gira?

Tu, irmão,
julgas que mudará este frenético
ritmo? Não…
Não mudará, que o mundo vive céptico
quanto ao seu futuro!

Tu, irmão,
procura a perfeição da tua vida.
Nunca, em vão,
procures defender causas perdidas!
Finge, ao menos, que ajudas!...

(20/04/74 in “Jornal das Aves”)

terça-feira, julho 24, 2012

Coisas antigas... relembrar


(imagem da net)

Hoje perante uma certa indolência e tempo reduzido, vou transcrever um texto que publiquei, nos meus 22 anos de idade, e poucos meses depois do 25 de Abril. Na altura foi titulado como: "Factos e Anti-factos (3)". O "Jornal das Aves", em que o publiquei, era propriedade de um empresário, dono da Fábrica de Poldrães, na Vila das Aves. Era, nessa altura um semanário, com bons colaboradores, mas com o ruir da indústria têxtil, também se esfumou e não voltou. Cá vai o articulado, reciclado do fundo da minha mala de cartão:


"No mobilismo dialéctico que hoje preside toda a natureza, depara-se-nos, no que concerne aos homens, um facto curioso e absurdo que o hábito transformou em rotineiro. Nascendo livres, por natureza, vêmo-los escravos de tudo e talvez mais do que julgam. Prendem-se às coisas, aos outros e a si mesmos, quando, sem tergiversar, apregoam aos quatro ventos a sua liberdade. Esta, hoje mais que nunca, é manipulada pelo vício, banalidades e pessoas ávidas de poder e magnificência que, sem escrúpulos, manietam os outros, cortando-lhes os direitos e concedendo-lhes apenas deveres. No cerne desta questão reina a ambição humana que, ora faz escravos e explorados, ora senhores e exploradores.
Jean-Jacques Rousseau, no início do “Contrato Social”, escreve: «O homem nasceu livre, mas em toda a parte está a ferros. Este julga-se senhor dos outros e é mais escravo que eles. (…).
Se eu apenas considerasse a força e o efeito que dela deriva, diria: quando um povo é obrigado a obedecer, faz bem; mas se sacode o jugo, logo que o pode sacudir, faz melhor, porque, ao recuperar a sua liberdade usa o mesmo direito que lha arrebatou e se é justo que a retome, é injusto que a tirem».
É certo que o autor citado se refere, neste contexto, apenas à inter-relação homem/homem.
Quando se visa o aspecto da subjugação às coisas e a si mesmo, apenas o homem por vontade própria e firme será capaz de se libertar. Aqui poder-se-á utilizar a trilogia «posso, quero, realizo».
Às vezes, por rotina cinética, somos conduzidos a pensar que a liberdade emana dos outros, que sobre nós têm direitos, e se reflecte em nós próprios, mas tal cai no absurdismo de introduzir o homem nas algemas da escravatura. Ora a liberdade reflecte-se na natureza, e é dote específico e natural de todos. Se o homem não é livre, está alienado. Alienar, segundo o mesmo autor, é dar ou vender.
Para melhor compreensão da dualidade escravos/senhores, parafrasearei novamente Jean-Jacques Rousseau: «Um homem que se faz escravo de outro, não se dá, vende-se para obter o seu sustento. Mas um povo porque razão se venderia? Bem longe está o rei de dar subsistência aos seus vassalos. São eles que lha dão e, segundo Rabelais, um rei não se contenta com pouco. (…).
Dizer que um homem se entrega gratuitamente é uma afirmação absurda. É ilegítimo, é nulo um tal acto, pois nele não participa o bom senso. Pensar o mesmo de todo um povo, é imaginar uma multidão de loucos e a loucura não ergue o direito.
Mas que cada um pudesse alienar-se, não poderia dar os filhos, que nascem homens livres. A sua liberdade pertence-lhes. Só eles têm o direito de dispor dela. (…).
Renunciar à liberdade é renunciar ao que mais qualifica o homem, aos direitos da humanidade, aos próprios deveres».
Já vai longe o tempo da escravatura declarada e consentida, é certo. Contudo, e por mais incrível que pareça, vive-se a escravidão no trabalho, na vida doméstica e social. Medite-se, conscientemente, alguns momentos e vejámos até que ponto se pode estender o “senso próprio” da palavra liberdade.

In Jornal das Aves, 14/12/74"

terça-feira, julho 17, 2012

A tragédia ... e a comédia. "Cratices"

(imagem da net)


A semana foi rica em subtilezas desastrosas para o clube maniqueísta dos neoliberais entronados. Na morbidez dualista, entre as fronteiras do público e privado, agiram em conformidade com as suas quase impolutas ideias de contorcionismo político “troikano”, mas pensaram como suínos assolapados nas pocilgas  dos seus sonhos deificantes. Falsos deuses, nas suas frágeis torres de marfim, receando um sopro de revolta que escaque tamanha fragilidade.

Fingem que lutam mas nada constroem, nada implementam, num autêntico abulismo de pedras parideiras. Em seu redor a monotonia das coisas é deveras degradante. Deixam uma paisagem que faz jus aos tempos de antanho, em que nada se fazia para que nada mudasse o suficiente que provocasse danos colaterais.Só que estes danos existem, crescem, avolumam-se e são demasiado óbvios. Caminhamos na senda do caos, orientados pela cegueira desse clube maniqueísta. Não haverá apoteose sem derrocada!

Desde o que apodaram de “Divina Comédia do Crato aos “Três em um” de Relvas, a procela vai triturando os sonhos dos que, até agora já pouco esperançosos, mastigavam o tempo restante. Não dá para desânimos porque o lema será como sempre, “há que aguentar”, com educado estoicismo. Os portugueses são assim, fiéis à sua bovina submissão, mesmo que guiados por doutoral idiotice.
Razão tem o Dr John Hoover, consultor de empresas, um dos mais prestigiados   estudiosos de administração de empresas e relações humanas, quando diz: “Chefes idiotas são o soluço mutante da evolução organizacional com uma imunidade semelhante à das baratas diante das calamidades que dizimam pessoas realmente talentosas e criativas. Ainda assim os idiotas podem servir a funções valiosas, desde que não estejam no comando. A má notícia é que, em geral, eles estão no comando. A boa notícia é que pessoas talentosas e dedicadas podem dar a volta por cima da situação e prosperar, apesar de seus chefes…Quase todo mundo trabalha ou já trabalhou para um chefe idiota” (in “Como trabalhar para um idiota”).
Esperemos que, pelo menos, a solução final se oriente pela “teoria das fraldas dos bébés”, que acabam por ser mudadas quando estiverem encharcadas de fezes ou urina. 

(imagem da net)

A verdadeira apoteose do criador da “Divina Comédia”, supracitada, acabou por se transformar numa autêntica catátrofe para os seus actores. O palco abriu-se como sugadora cratera e engoliu os artistas que desde longa data vinham achando seguro o piso que calcavam.

Professores já com mais de 35 anos de carreira, pertencentes ao quadro de escola e alguns já com mais de 60 anos e aposentação pedida, viram-se reduzidos ao horário zero, empurrados para a mobilidade (a minha esposa está nesta caricata situação). 
Uma verdadeira comédia resultante de famélico reformismo dum cretino, mais parecendo “Cratino”,  pois de erro de “casting” se trata. Creio que vai tentar solucionar o problema, mas a cretinice imperou e não vejo grandes hipóteses de efectuar limpeza da maquilhagem dos actores, por muita perícia cosmética que possua.
Cada vez mais o princípio de Peter se vai demonstrando e comprovando nas habilidades governativas destes estapafúrdios neoliberais .



terça-feira, julho 10, 2012

Greve dos médicos... SNS em questão

(imagem da net)

Os médicos optaram pela manutenção do aviso de greve. Esta vai suceder, não sei se muito conseguida, mas a crer nas várias opiniões colhidas entre pares, no local onde trabalho, a adesão promete volume.
Não duvido que as cinzas do evento deixarão transparecer para o exterior uma má imagem do nosso país. Não só por se tratar de uma classe de alta diferenciação académica com estatuto social reconhecido, mas, acima de tudo, pelas verdadeira etiologia do acto grevista. Espantoso um governo ter deixado prosseguir a greve duma classe que sempre se julgaria estar ao lado dos poderosos, essencialmente neoliberais. Todavia, quer os detractores da classe médica que alimenta os hospitais públicos, quer o governo, receberão uma lição de alguém que até poderia, de alguma forma, dar cobertura ao neoliberalismo desconcertado e desbragado dos que se revêem nas políticas destruidoras dum SNS que muito custou a criar e que já foi, como se sabe, o 12º melhor do mundo.
Sei que amanhã haverá uma larga franja de pessoas que zurzirá, na imprensa e nos múltiplos blogues, todos os médicos, num autêntico auto-de-fé, sem que se inteirem e informem devidamente das razões destes profissionais que até estão a lutar pela qualidade do SNS, além dos seus próprios interesses, como será óbvio (todas as classes o fazem).
Nem toda a gente sabe que qualquer médico para atingir o grau de especialista (Assistente Hospitalar) teve primeiramente que fazer, os seis anos do curso seguidos de dois (agora um) anos de internato geral e depois mais cinco ou seis anos de especialidade. Devo dizer que a minha geração até fez seis e cinco anos de “internato geral” (a célebre Policlínica), antes de entrar na sua especialidade. Vendo bem, o tempo mais curto, actualmente, fica-se pelo somatório de treze (13) anos. No entanto a partir daí fica uma sequência de múltiplas provas públicas com júris nacionais de cinco colegas, para se passar, em tempos definidos, os vários níveis desde Assistente Graduado Hospitalar até Chefe de Serviço (hoje Assistente graduado Sénior), uma meta que só alguns poucos atingem. Actualmente tudo está congelado desde 2005, não havendo progressões na carreira. É um verdadeiro Portugal estático, no seu melhor duma política neoliberal.
Felizmente consegui, há quase doze anos, atingir o grau de Chefe de Serviço, mas não foi por anos de serviço, nem pelos lindos olhos. Muito menos pelo método “lusófono” do crescimento dos “relvados”. Se assim fosse, bastaria ter sido “endireita” ou “bruxo” durante alguns anos de bom sucesso na arte, e os créditos replicariam como coelhos nas luras.

Para elucidar um pouco mais os que medem os médicos pela mesma bitola e os vêem como os mais ricos do sector público do Estado, deixo aqui alguns links que poderão explorar e analisar.
Devo, no que concerne às tabelas de remuneração (de 2010 – não mais actualizadas), informar que muitíssimo poucos clínicos estão na exclusividade, sendo a maioria, tal como eu, militantes das 35 horas de tempo completo. Aliás a exclusividade já acabou  para novos pretendentes. Também não existem quase nenhuns médicos nos escalões 3 e 4 de Chefes de Serviço – congelaram, quase todos, no escalão 2!


Para digerir, um artigo do site da Secção Regional Norte da Ordem  dos Médicos:

E creio que basta. Amanhã e quinta-feira se verá o rescaldo dos que urraram e dos que sussurraram entre dentes



terça-feira, julho 03, 2012

Serviço Nacional de Saúde... uma valsa agonizante



Não é por acaso que agora apareceram mais umas empresas de serviços médicos (quem serão os espertinhos?) a tentar ganhar uns cobres à custa dos prestadores de serviços (enfermeiros, médicos e quiçá pessoal de limpezas). Até seria óptimo conhecer a essência dessa tessitura organizacional e talvez nos esbarrássemos em “boys” do mesmo poleiro, ou seus colaterais.
É colocar os enfermeiros numa autêntica cloaca social, quando são brindados com a famélica quantia de 3,96 euros líquidos, por cada hora laboral. Afronta e baixeza, além de espelhar um país que se está (desculpem-me o termo) a cagar para a saúde e para os que a prestam. 
Já aqui disse que, para estes ultra-liberais, praticantes de políticas de saca-rolhas, o lazer e o entretenimento são o verdadeiro elixir da vida, mas esta vida, no seu essencial, não lhes interessa e, ainda menos, quem dela cuida. Viva o ultraliberalismo de sentina, praticado por cérebros tacanhos, miasmáticos e apologistas da eterna procrastinação!
Este não é um governo que cuida e ama o seu povo, mas um agente morbígero. Só a falta de lucidez e cegueira conseguem aturar tal epidemia até ao tutano.
Espero que este povo maltratado não clame, aos ventos e luzeiros celestes, a subserviente frase do circo romano: Ave Caesar morituri te salutant”. Morrer sim, mas, por uma má causa, em nada enaltece as pessoas, nem o país.










Ainda na Saúde, parece incrível o que agora acontece em alguns hospitais, pelo menos aqui no Norte, incluindo aquele em que trabalho. E não digam que não é verdade, como o fez, assobiando para as nuvens, o ministro Paulo Macedo na notícia de 16/06/2012 http://www.ionline.pt/portugal/ministro-da-saude-garante-nao-ha-orientacao-racionamento-no-setor .
Todos os doentes, e não são tão poucos, que tomam medicamentos orais fornecidos pela farmácia hospitalar, viram as suas doses habituais reduzidas a um fornecimento quinzenal e, muitas vezes mais curto, tipo conta-gotas.
Antes do G14, focado na notícia de 10/04/2010 http://www.ionline.pt/portugal/g14-hospitais-norte-conseguiram-desconto-50-cinco-medicamentos, ainda forneciam quantidades que eram suficientes para tratamentos mensais, mas agora o facto rasa o impensável, em nome da austeridade e falta de crédito hospitalar (?). É, no seu melhor, o racionamento quase “cubano” da nossa rede hospitalar. Os gastos, como é óbvio, são maiores, pois obrigam doentes, que residem nas áreas de influência mais longínquas (alguns a cerca de 20 Km do hospital) e com parcos recursos económicos, a duplicarem despesas mensais. No entanto o que sucede? Alguns doentes por grave insuficiência económica, acabam por não levantar a sua medicação e ficam, por vezes, metade de cada mês sem os fármacos obrigatórios.
Nem é preciso ser demasiado inteligente para se concluir que, assim, os tratamentos são ineficazes. A realidade é que isto sucede e com desculpas bacocas. Porventura não ficaria mais barato ao Estado, fornecer a medicação para um mês inteiro, já que a maioria dos doentes tomam essa medicação com carácter crónico, como os portadores de leucemias crónicas, de trombocitemias essenciais, carcinomas de mama em hormonoterapia de cinco anos, doenças auto-imunes, etc.? Afinal a despesa tem que se fazer, porquê dividir tanto e com compartimentação e revestimento técnico dos comprimidos. Duplicam-se despesas das viagens em locais que já foram amputados de vários meios de transportes públicos, e onde o povo tem reformas miseráveis. Melhor seria que o próprio hospital disponibilizasse uma carrinha para deixar os medicamentos nos vários Centros de Saúde, alguns a mais de 20 quilómetros. Bastava organizar listas de doentes e respectivos locais de entrega, fazendo com que a despesa nacional fosse mais pequena, com sobrecarga única para a instituição hospitalar que pouco aumentaria ao seu défice. Muitas vezes poupa-se no farelo para se gastar na farinha!
Acho que a tendência será para piorar, já que alguns fármacos já faltaram e outros começam a faltar, mesmo custando, como o Clorambucilo (Leukeran), cerca de 1,63 euros por caixa de 25 comprimidos. É que aqui, também interessa a alguns laboratórios ter maiores lucros, e não fornecem, porque, noutras paragens, ganham mais com esse mesmo produto.
Tirem as conclusões e vejam, na realidade, em que fosso este ultraliberalismo está a meter o nosso SNS que já foi o 12º melhor do mundo.
Sendo boa gente, sentimos, no “mimo” de cada golpada desferida, o aumento da ferida do défice e as cicatrizes dum povo acorrentado.
É facto que estamos na ponta ocidental da Europa, mas não poderemos, por esse facto, ser considerados a cloaca da U.E., nem duma “troika” que deveria prestar contas pela sua má governação (já que Passos Coelho e colaboradores, apenas são mandatários…), uma vez que tem responsáveis e avaliadores. Não basta culpabilizar (intensamente) Sócrates e (ligeiramente) os governos anteriores! Há que chamar as alimárias pelo seu nome, sem subserviência e sem “troikofobia”!