terça-feira, setembro 25, 2012

Pedro, as ovelhas e ... os outros animais


(imagem da net)

Voltou a chuva. Com ela, eu também, não para fustigar chão molhado nem sequer apagar fogos de rescaldo, mas para refrescar ideias que se intumescem num cenário de misérrima aridez política.

Pedro não ouve o bulício feroz dos lobos e vai zurzindo as suas humildes e submissas ovelhas. Nas alcantiladas rochas dum mundo que parece apenas seu, vai fazendo ouvidos de mercador e não perscruta os ventos. Estes, de Éolo a Bóreas, trazem-lhe os balidos e clamores do rebanho, mas não entende. Dos uivos selvagens, nem um decibel lhe entra nos ouvidos. Dos cães, recebe olhares subservientes e um abanar de caudas.
Aconselha-se com os amigos errados, e rodeia-se de néscios que sonham auréolas de prestígio e vomitam caóticas teorias. Acredita que os lobos não perturbarão as suas humildes e submissas ovelhas.
O pasto encontra-se em mau estado, mas persiste num pastoreio de terras secas, e num famigerado corte das forragens. Os bichos aguentarão. Afinal já os seus mestres de pastorícia tinham elogiado a resistência dos animais. Nas redondezas não havia melhores alimárias. Bastaria tocar a flauta e a música se encarregaria de ser alimento.

Os dias e noites iam-se diluindo no gomil do tempo e as mudanças seguiam os ponteiros, inversamente aos do mesmo tempo. Tudo se revestia de negrume… Pedro não ouvia os ventos, nem os balidos de dor, nem os famélicos uivos.
Os lobos, pata ante pata, aproximavam-se e vigiavam a deslumbrante apatia do pegureiro. As ovelhas, com secura de pasto e já semi-escanzeladas, já não produziam leite quanto bastasse às crias, quanto mais para satisfazer o pastor. A lã seria de pouca solidez, face à desnutrição.
Pedro via definhar os bichos, mas acreditava em melhores dias. Haveria de haver mais pasto, mas, se insuficiente para todos os bichos, alguns seriam sacrificados. Haveria menos bocas e alguma carne para alimento. Os seus amigos estavam de acordo e participariam na comezaina. Os cães de guarda ajudariam, eram fiéis ao pastor.



Sacrificou alguns animais mas o repasto foi precário e não satisfez amigos e muito menos os cães de guarda. Estes, prevendo maiores privações face ao falhanço da estratégia do dono, começaram a mostrar os dentes e a rosnar. Os lobos, apercebendo-se deste raivoso sinal dos canídeos, já previam o pior e começaram a suster os passos. Algo começava a estar mal naquelas pastagens. Parece que ninguém se mostrava satisfeito com os acontecimentos.
Pedro reuniu amigos, apaziguou os canídeos e prometeu soluções. Era errado que o pasto não cresceria. As ovelhas, em menor número, haveriam de medrar, nem que tivessem que se alimentar dos pedregulhos mais moles e da terra em que pasciam. Os lobos não haveriam de atacar e os cães ficariam mais satisfeitos. Ninguém trairia ninguém. Não importava o ruído do vento, os sinais da procela haveriam de se dissipar. Esperar-se-iam melhores dias, pois já os seus mestres o tinham aconselhado a saber esperar.

Pedro, o pegureiro, mai-los cães e os lobos, continuam na alcantilada montanha. Os ventos continuam a afagar-lhe o rosto e os ouvidos, mas parece que não lhe deixam sinais nem mensagens. Será que vai levar a bom termo a sua safra? Será que vai abandonar a sua “torre de marfim”?
Nas patas do rebanho, nos dentes dos cães e dos lobos se encontrará, qualquer dia, a resposta. Pedro e amigos que se cuidem!