terça-feira, dezembro 31, 2013

(imagem da net )
LIBERDADE

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...
      
                   (Fernando Pessoa)

(imagem da net)


Este Não-Futuro que a Gente Vive

Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros. 

(Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)")



                                              (imagem da net)

Sempre o Futuro, Sempre! e o Presente

Sempre o futuro, sempre! e o presente 
Nunca! Que seja esta hora em que se existe 
De incerteza e de dor sempre a mais triste,  
E só farte o desejo um bem ausente!  

Ai! que importa o futuro, se inclemente 
Essa hora, em que a esperança nos consiste, 
Chega... é presente... e só á dor assiste?... 
Assim, qual é a esperança que não mente? 

Desventura ou delírio?... O que procuro,  
Se me foge, é miragem enganosa,  
Se me espera, pior, espectro impuro... 

Assim a vida passa vagarosa:  
O presente, a aspirar sempre ao futuro:  
O futuro, uma sombra mentirosa.  

(Antero de Quental, in 'Sonetos')


imagem da net


Hoje, no fim de uma jornada obrigatória, deixo palavras alheias, de sonho e esperança, para transmitir parte do que me vai na alma e na mente. Não vivo, nem nunca vivi deprimido, no entanto os meus augúrios não serão os melhores. Nestes momentos adoraria estar enganado, mas não tenho hábito de sonhar acordado nem pretendo evidenciar-me com sibilismo catastrófico.
Apesar de tudo continuo a acreditar no futuro...que será uma realidade de muitos mas, nem para todos uma chama de felicidade



quarta-feira, outubro 30, 2013

Inter-textualizando Bertolt Brecht... mensagem aos mais incautos


Hoje é um daqueles dias que me apetece recordar  Bertolt Brecht, cada vez mais actual para a ignomínia que vivemos nesta amostra de país. Assim, retomei o seu poema "INTERTEXTO" e lembrei-me de  intercalar entre cada terceto uma breve divagação pessoal, passo a passo, na expectativa de transmitir alguma mensagem aos mais incautos.

(imagem da net)

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso,
Eu não era negro


[No nosso quotidiano, perante milhentos de factos e antifactos, assim nos portamos. Ninguém se desvitimize só porque tem esta ou aquela coloração… como sabemos, as manchas aparecem no melhor pano… e qualquer tecido é rasgável, com ou sem violência.
De que cor são as primeiras vítimas dos selváticos atropelos de governantes míopes e mentalmente insanes? Obviamente a miopia não os deixa compreender as cores, seja da pele, da roupa, ou das palavras soltas com revolta. Apenas vêem a bandeira descolorida do seu partido, o monolitismo anacrónico das suas ideias, a baça redoma que os rodeia e lhes embota olhar e raciocínio e, acima de tudo, a mais bela e adorada das suas cores ─ a do dinheiro. Aprisionaram a cor da verdade e pintaram-na de mentira… só os covardes fogem à verdade e da verdade.]




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Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário


[Será urgente dizimar bocas famintas e quem as alimenta. A força do trabalho já não basta para satisfazer a voracidade de políticos maquiavélicos, ávidos de espectáculo sem arena. Basta sentirem o cheiro da fome e ouvirem as lamentações do sofrimento. Mais um, menos um, que importa, robotiza-se o homem e humaniza-se o robô. Esprema-se o homem que do sangue emanarão frutos dourados. Se houver silêncio no massacre, melhor será a colheita.] 




(imagem da net)
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável


[Aos resistentes e revoltados que reclamam e bradam liberdade, oferecem-lhes grades e algemas, para que saibam que o calor que vitaliza a terra tem senhores e justiceiros, ávidos de divina potestade. Miséria e miseráveis a verdadeira simbiose que alimenta o vício dos plutocratas. Afastem-se os malefícios da miséria que poderão inquinar o prestígio da riqueza.]


(imagem da net)

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei


[Mensagem do contraditório:
Malditos sejam os párias que vivem da caridadezinha e se arrastam por dormitórios estelares, semeando esterco pelas ruas e vergonha na dupla face dos políticos. Emigrai bando de espantalhos ambulantes, pois não passais de odiosa mácula na textura de um país que ruma à perfeição ideal. A falta do trabalho é uma utopia, pois vós, trabalhadores, não passais de infames exploradores dos bem intencionados empregadores, quando pretendeis espoliá-los do excessivo lucro.]


(imagem da net)


Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.


[A indiferença e apatia dos homens não só geram mas também têm um nome ─ hecatombe.
O sol só brilhará se as nuvens negras e revoltadas o deixarem. As cores só brilharão se existir luz que lhes evidencie os contrastes. Os homens só serão senhores se tiverem servos, mas apenas serão homens se forem tratados como iguais. Não vale a pena adular fantoches e bater-lhes palmas, pois as mãos que hoje as batem, amanhã lançar-lhes-ão pedras de raiva e vingança Nessa altura todos se importarão comigo, contigo e, imagine-se, até consigo próprio. Todavia… poderá ser tarde demais!]

Para rematar esta divagação deixarei mais este doce do mesmo autor:
Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam muitos dias, e são muito bons;
Há homens que lutam muitos anos, e são melhores;
Mas há os que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis!



                                             

quarta-feira, agosto 14, 2013

Conjecturando, (ou, com jeito, urrando)... rescisões atabalhoadas na Função Pública.

                                                                         (imagem da net)

Este governo, que ficará pela negativa na memória do povo, conseguiu parte dos seus intentos na desestabilização social. Baseado em algumas diferenças, conseguiu mover a maioria dos trabalhadores do privado contra o público e vice versa. Obviamente, tratando-se de um elenco da ceguíssima ala neoliberal, nada nos admira que subvalorize todo o operariado e que subverta o papel do funcionário público, no entanto, tal facto não lhe concede a liberdade de destruir todo um sistema  de utilidade pública, em nome de uma falsa e fraudulenta reforma da administração pública, para a qual não foi mandatado. Age de forma selectiva, baseado, maioritariamente, na conotação e persecução políticas, com as novas rescisões de funcionários públicos, numa altura em que a maioria se encontra em gozo de férias e se irá esbarrar numa carta “informativa”, de rescisão “amigável”, já “continhas feitas”, na sua caixa de correio. Trata-se apenas de “informação”, disse o lingrinhas do “poio” Maduro, com sua inimitável voz de cascavel enjoada, contudo, na realidade, nem todos os funcionários públicos receberam a “carta informativa”. Logo, existe tratamento diferente para os vários funcionários das várias instituições. Informação dos directores dessas instituições? Então estes, na sua maioria nomeados pela cor política vigente, acabaram por indicar quais os que deveriam receber a dita carta. Que os moveu? Deduzam que não se enganam muito.
E se o trabalhador não aceitar a proposta da “carta informativa”, por razões pessoais, familiares ou outras? Vai para requalificação ou mobilidade? Uma coisa é certa, ficará sob o “olhar atento” do chefe ou director, à espera da primeira “oportunidade” de despedimento e até entretido, em qualquer canto do gabinete a contar as moscas e a ver quem entra ou sai. Depois...se verá que fazer com o estorvalho!
Será que isto já faz parte de uma reforma da administração pública que nem sequer foi definida, mas se vai desenrolando, “ad libitum”, sem qualquer linha organizativa ou fruto de alguma legislação existente? Como alguém bem referiu, trata-se de construir um edifício começando pelo telhado.

Muitos questionam: e os excedentários das forças militares, que ganham bastante e não fazem falta ao sistema actual, porventura terão recebido iguais “cartas informativas”? Claro que os governantes têm medo destes e receiam atitudes mais violentas, apesar de pouco plausíveis. E os “chefes” e “directores” de má qualidade e com maus resultados de gestão, não mereceriam uma destas “cartas informativas” de rescisão? E que tal as pessoas começarem todas a enviar “cartas informativas” a todos os ministros e seus acólitos, comunicando-lhes que deveriam ser demitidos a custo zero, por não desempenharem as suas funções de acordo com a constituição e com o que prometeram nos seus programas eleitorais. O incumprimento tornou ilegítima a sua governação, pelo que deverão rescindir o contrato com o povo.

Brevemente teremos a verdadeira explicação de toda esta salgalhada. O governo despede os funcionários públicos e depois vai substitui-los por novos funcionários, mas já a contrato individual e a baixo preço, sem direitos decentes e sujeitos a leis laborais mais permissivas. Até irá subcontratar empresas privadas, como já faz em cantinas, limpesas e outros, de forma a empobrecer o estado e enriquecer empresários amigos. É que, segundo as suas teorias neoliberais, uma mesma gestão é diferente se for privada ou pública, mesmo feita pelos mesmos agentes. Claro que se houver saldo positivo o lucro é para o empresário, mas no público o lucro é distribuido por todo o povo (que, por tão diluido, nem o vê, nem recebe). Mais vale o lucro para meia dúzia de accionistas privados, que para o serviço e benefício de toda uma população. Enfim, teorias para povo mal informado e bem explorado.


                                                                (imagem da net)

Não era minha pretensão voltar ao tema da falsa guerrilha entre público e privado, no entanto, sem pretender diferenciar ou estigmatizar trabalhadores privados ou públicos, ficam, como remate, algumas questões que gostaria me respondessem, com lógica baseada na evidência: conhecem algum funcionário público, sério e vivendo apenas da sua remuneração como tal, que esteja na lista das maiores fortunas de Portugal?
Já nem me atrevo questionar quantos funcionários públicos, nestas circunstâncias, terão iates ou moradias de luxo (nas zonas de Sintra, Cascais, etc.) e vivendas de luxo para veraneio? E porque será? Guardam o dinheiro em offshores ou gastam-no mal gasto? Às tantas é para “brincar aos pobrezinhos”!
Claro que esta questão se colocará em relação aos operários por conta de outrem, que vivem do seu salário e contribuem para enriquecimento descarado de alguns empresários. Simplesmente o seu patrão não é o Estado, que é mal gerido por oportunistas políticos e seus correligionários, à espera de um melhor futuro em empresas privatizadas ou “agremiações de malfeitores sociais”.

Na sua generalidade, quem explora a economia paralela e foge literalmente aos impostos, os privados ou os funcionários públicos? Estes descontam impostos de imediato nas remunerações, daí terem ficado automaticamente com cortes remuneratórios  desde Janeiro de 2011 (o que não sucedeu aos privados)... e que são para manter “ad eternum”, enquanto não pagarmos os buracos dos BPN, BPP, submarinos, swaps e quejandos.
Como exercício de diversão peço, como exemplo, que analisem e comparem as remunerações finais de um médico da função pública e doutro da privada, que ganhem, por exemplo, 5.000 euros mensais (um belíssimo ordenado, mas nada comparável com a reforma mensal do “pobre” Faria de Oliveira). A diferença é abismal! Os privados não têm corte de 10%, nem descontam para a ADSE (ou outro sistema de saúde estatal) e, muitas vezes, têm prémios de assiduidade e produtividade (nada pequenos). Ambos descontam para a sustentabilidade, um para o Centro Nacional de Pensões (11%) e outro para a Caixa Geral de Aposentações ( 11%). Mas como vêem só o funcionário público desconta para o sistema de saúde (2,25% que a partir de Janeiro/14 passarão a 2,50%).
Enquanto o público recebe menos de 2500 euros ao fim do mês, o da privada receberá mais de 3250 fora os prémios que os outros vêem por um canudo.
Dirão que o privado trabalha 40 horas, mas não sabem que as remunerações médicas elevadas da função pública são pagas a profissionais em exclusividade, com horário obrigatório de 42 horas. Os médicos que trabalham 35 horas (não exclusividade) só em topo de carreira (assistente hospitalar sénior) e tarde, ganharão valor igual ou maior que 5.000 euros. Brevemente os médicos reformados irão sofrer pela mesma tabela, mantendo-se a diferenciação público/privado, se os cortes a pensionistas for avante.
Também posso dizer que só médicos mais velhos estão na função pública, pois os mais novos já têm contratos individuais de trabalho, com regras iguais às do sistema privado, mesmo nos descontos, férias e horário laboral. Contudo, como são pagos pelo Estado, sofrem os cortes remuneratórios da função pública.
Eu próprio, como muitos médicos mais velhos, estou desde 2010 em regime de contrato individual de trabalho, com 40 horas de trabalho semanal e 22 dias de férias, sob as mesmas regras do privado, mas com descontos de funções públicas, ou seja, bem roubado. Trabalho há mais de 35 anos.
Finalizo, dizendo: não me queixo, pois teria vergonha de o fazer e sentir-me-ia muito mal face a tanta gente que vive em condições infra-humanas.

Queria ainda acrescentar que esta miserabilização do funcionalismo público interessa sobretudo a muitos empresários que têm assim um motivo para manter exploração de trabalhadores privados e até conseguirem baixar mais as remunerações. Só não vê quem não quer ver. A verdadeira guerra, público versus privado, não passará de manobra de diversão política e empresarial.

quarta-feira, julho 10, 2013

Portas que cerram e… irrevogavelmente se reabrem

(imagem da net)


Dentro da sua ridícula irrevogabilidade, Paulo Portas, parte gémea duma (mais que provável) nova gestão governamental, viu o amanteigado Passos Coelho tremer de medo (o tal medo que dizia não ter!) e ceder, em toda a linha, às suas ambiciosas exigências.
Paulo, o homem que inicialmente se contentava com popularucho beijocar de feirantes e passantes, acabou por não se satisfazer com as permanentes passeatas à volta do globo, pois, para além da saturação das paisagens e das conversas diplomáticas, entendeu que seria a hora certa para ultrapassar o protagonismo do Primeiro Ministro. Ponderou o parco peso do seu partido no governo, face às mais valias (achava ele) que o mesmo acrescentava ao elenco global e, vai daí, decidiu fazer birra e exigir representatividade mais pesada e mais ombro a ombro com o seu aliado. Sabendo da grande vaidade e apego de Passos ao poder, viu, neste, uma alma gémea e… quis colocar à prova até onde iria o apego e ambição (continuidade da “soberba” que teve quando derrubou J. Sócrates) do chefão que se apodava de D. Pedro, o Sem Medo.
Cautelosamente utilizou a arma do “faz-de-conta-que-não-me-interessa-o-poder” e colocou irrevogabilidade nas condições impostas para se equiparar ou até superar D. Pedro. Sabia que poderia calhar mal, mas sempre acreditou que os ambiciosos e soberbos se matam pelo poder e pelo protagonismo, pois tinha isso na massa do seu próprio sangue e, noutras ocasiões, já dera provas da sua ousadia.

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D. Pedro, o Sem Medo, que tanto apregoava a sua audácia e valentia, procurou no silêncio dos deuses o parecer dos mais chegados e da sua muleta, D. Aníbal, o Abúlico. Todos eram unânimes: a coligação não se pode “descoligar”… seria o fim de dois anos de mama bem sucedida e, novas eleições nem pensar, pois já há novos mamíferos à procura da teta. Nada de deixar os louros para outrem quando este outrem é o inimigo figadal de D. Aníbal e sua comandita monolítica.

Poder é poder e medo não configura desonra. Numa autêntica anulação da etimologia de irrevogabilidade, D. Pedro submete-se, depois de tantas cambalhotas e tanta ingestão de sapos, e decreta o fim da irrevogabilidade. A partir de hoje fica decretado que ninguém usará de irrevogabilidade e se o fizer correrá riscos de ser equiparado a primeiro-ministro.  
Feita a digestão sapal e transformada a irrevogabilidade no seu contrário, D. Pedro concedeu titulação de Dom a Paulo e, assim, o irrevogável demissionário tornou-se D. Paulo e até lhe foi possível superar D. Pedro, já que conseguiu transformar a coragem deste num verdadeiro medo de perder protagonismo e poder.
D. Paulo apenas exclamou, como Júlio César: “Veni, vidi, vici” – e acrescentou – Este bonifrates do nosso “primeiro” é demasiado primário! Hei-de massacrá-lo!

D. Paulo estava farto de saber que Lady Swaps haveria de ser ministra das Finanças, pois teve o desprazer de a ver durante dois anos a acompanhar o Gasparzinho nos altos meandros da finança internacional. No entanto, sabia que poderia armar-se alonso e argumentar que nada sabia sobre a promoção da referida madame, como se desconhecesse, também, que ela frequentava “aulinhas” do ministro, para ulterior recepção da pasta. Passos, na sua habitual lerdice, engoliu o sapo e nem regurgitou.
D. Paulo, o Irrevogável, perante um assustado Pedro Sem Medo, achou que poderia tornar-se mais poderoso com algumas exigências e medidas cosméticas. Armou-se em caro e difícil, exigindo supremacia na gestão financeira e nas relações com os “troikanos”, além de pretender a manutenção das negociatas diplomáticas que iniciara como ministro dos negócios estrangeiros. Com certeza que o medo da queda faria dobrar a arrogância e oposição de D. Pedro.

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Restava apenas um pequeníssimo obstáculo: D. Aníbal o Abúlico, poderia não concordar. Todavia, se não ficou chocado com a quase inesperada irrevogabilidade, já estaria no papo. Além de mais tudo ficaria a gosto e numa coloração alaranjada, apesar de algo desbotada. Tal como D. Pedro, era só deglutir o batráquio e…já estava. Novas eleições e novos mamíferos é que não. Depois de tanto esforço e sudorese para abater J. Sócrates, que tanto desprezava, não poderia reassumir ligações com a súcia rosa.
Faria uma encenação com toda a cambada e, no fim, com discurso doloroso e dentes cerrados decidiria: “ Para respeitar os compromissos assumidos dever-se-á cumprir e dar continuidade ao pesado ajustamento iniciado há dois anos. Por isso, após muitas cambalhotas e sapos engolidos, entendo que a mesma coligação deverá manter-se em funções e acabar a tão desejada reforma que desde início foi planeada. Novas eleições seriam despesismo e mudança para pior. Está decidido para bem da Nação”

Assim, neste minúsculo rectângulo, lá vamos tolerando as famigeradas políticas em que o “era e não era” avançam de mãos dadas, sob a batuta de um grupo abandalhado e orientado por abúlica personagem.
Com as portas que cerram e se fecham, poderemos, num eufemístico desabafo gritar bem alto: “ estamos irrevogavelmente salvos!”


terça-feira, julho 02, 2013

Fragmentos inacabados…graças à grande queda.

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1- Autoridade moral? Legitimidade do Governo?
Mãe que gera um filho mas o abandona será mãe legítima, ou sê-lo-á aquela/e que o criou e tratou com carinho? Porventura teremos sido bem tratados por estes tenebrosos e malfadados tratantes que aqui tombaram, caídos não se sabe bem como, nem donde, mas quiçá dum asteróide todo j(an)otinha, fruto dum acidente de precipitada loucura? Passageiros dum tempo intemporal, abusadores de boas intenções apregoadas e incumpridas, não reúnem legitimidade alguma para destruir o melhor que um povo adquiriu, após tantos anos de luta e sofrimento. Nem só a lei legitima os factos, pois “vox populi” tem imenso poder quando o descontentamento é geral. Não queremos a legitimação do caos e da indefinição, mas a da sintonia dum povo com seus timoneiros. Ora tal não existe, neste momento, pelo que a legitimidade deste Governo só existiu enquanto o mesmo não violou o pacto prometido. Quem prometeu e não cumpriu, traiu seu povo, perdeu legitimidade.

2Será esse homem auto-sustentável?... Não é funcionário público?!...
Formou-se com quase 40 anos…Que tipo de emprego até então? Jotinha?!... Militância jotinha confere direito a subvenção de quem? Do Estado que “empresta-dá” aos partidos? Negócios obscuros (Tecnoforma) e de oportunismo político-partidário? Que descontos prévios para sustentabilidade. E que descontos agora, se, como diz, não é funcionário do Estado? Qual a empresa que lhe está pagando esses descontos? Ah!, talvez a do já futuro emprego…
Eu não sou funcionário público disse o animal arrogante, em plena discussão parlamentar. E viram bem as suas ventas quando interpelava a deputada?
Então não tem vivido e vive a expensas do erário público? Não é o Estado que lhe paga? A própria “Tecnoforma” onde “gamou” o dele, não foi construída com dinheiros do Estado? Nenhum privado lhe daria tal dinheiro… teve que pedir, nessa altura, ajuda ao ex-doutor Relvas, então no poder. O dinheiro (público e bem nosso) caiu-lhe logo de chofre. Como terá sido gasto?...

                                                                        (imagem da net)

3 - “Queremos fechar o resgate que o PS pediu”.
A sério, morcão?! Então vossa insolência não foi o verdadeiro causador da queda do Governo Sócrates ao rejeitar apoio ao PEC IV que evitaria o tal pedido de resgate? Seria já a tal “soberba” de que vossa insolência agora acusa outro dirigente que lhe vai, com toda a certeza tirar o tapete dos pés. Queria governar, não era?... Lembra-se das falsas promessas que fez para alimentar essa “soberba”? Hoje, passados dois anos é o caos que reina nas contas e na sociedade portuguesa…tudo à custa da sua “soberba”, caro morcão. Leia a história da “rã e do boi” e delicie-se com o seu ridículo papel de rã. Tanto inchou, vítima de “soberba”, que…estoirou!

4 - Acha que vai manter-se no poleiro?
Sei que não quer, por preço algum, abandonar o poder, pois custa-lhe perder todas as mordomias da governação, a vaidade, a arrogância, o riso de hiena, as múltiplas e desnecessárias viagens e lautas refeições (que o seu Patrão-Estado lhe paga, com dinheiro de todos nós e NADA do seu ordenado mensal). Claro que todos gostaríamos de viver à grande e à Passos Coelho, mas tal é realmente privilégio de alguns (mesmo que mal) eleitos.

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5 – E as “swaps”, senhor, porque lhes dais tanto valor?
Ai, meu Deus, as malditas “swaps” ainda entalaram mais vossa insolência. Com que então não sabiam?! Ah, como é tão fácil apanhar mentirosos, mesmo que profissionais. Basta esgravatar um pouco o passado tão recente e logo se vislumbram rabos-de-gato. Depois anda aquela fulaninha, uma tal secretária de Estado, quase a rainha dos “swaps” que procura ser juíza em causa própria. Realmente não se vê disto noutros países, pelo menos nos democráticos, o que nos leva a tirar conclusões, em nada precipitadas mas racionais. Isto não é um país democrático mas antes uma república das bananas e governada por bananas. Um bacanal…perdão, um bananal.

6 - E as “swaps” tudo levaram!
Quando falei de Lady “Swaps”, nem pela ideia me passou que minutos depois a mesma seria promovida a substituta do malogrado e desnorteado Mr Bean “Gasparito”. Sempre pressenti que o intelectual das expressões desconexas e frases hieroglíficas acabaria por se perder no seu labirinto.
Da mesma forma, ao acabar de escrever este texto, tive a notícia retumbante da tiragem do tapete ao PM. Portas demitiu-se, em desacordo com as atitudes, não comunicadas, de Passos Coelho. Eis o desmoronar da pirâmide. Este Governo já era… e o PR perdeu a oportunidade de ter sido, pela primeira vez um verdadeiro político e não o verbo-de-encher que sempre foi. Ficou muito mal na foto… que se demita por incompetência e ódios de estimação mal disfarçados.

7 – Esperança no futuro.
Acredito que se feche um ciclo de má memória e que os senhores que se vão seguir saibam honrar compromissos mas sem comprometer o bem-estar do seu povo.
Podem crer que a TROYKA, tal como o Céu, pode esperar, pois o mundo não acaba amanhã. Já um povo pode morrer e ser destruído por atitudes de violência política, económica e social. Não deixemos um povo morrer!
(imagem da net)

terça-feira, junho 18, 2013

Juro...gritarei LIBERDADE

Aldrigde Photo - net

Juro que não sei o que estou para aqui a pensar.

Jamais me passaria pela cabeça estar aqui, com os nadegueiros a lambuzar o couro deste maldito sofá laranja. O rabo não pensa, mas não falta quem nele pense. Vicissitudes!

Este maldito encourado é o pouco que me resta, depois que me levaram a casa toda, incluindo a gulosa despensa. Antes vivia bem e gastava melhor, mas nunca acima das minhas possibilidades como apregoam os bem instalados. Para mim será fácil culpabilizar o meu marido que me alimentou vícios sobre vícios, orgulhando-se do seu poder económico construído à custa de empréstimos com juros esconjurados. Todavia, partilho a culpa para que esta se sinta bem casada e nunca solteira.

Certo é que a minha abúlica posição social me concedeu esta farta imagem de obesidade incipiente, mas não vivi sob as asas do meu ex. Loura, mas não burra, leccionei bastante tempo e adorei as crianças que me aturaram. Bem ou mal cumpri parte do meu fado, senti-me realizada e era auto-suficiente. Larguei o meu ofício porque outros valores familiares, e mais sérios, se alevantaram. Cuidar dos filhos e ajudar marido. Não sei se valeu o esforço e coragem, mas tive altos e baixos, sendo este o momento mais baixo, apesar do conforto do assento.

Sinto-me deprimida e capaz de ultrajar meio mundo e destruir outro meio. Com políticos como os que me levaram a esta triste situação, apetece-me degolar tudo quanto se movimente de ministério em ministério. Sem apoios e sem dinheiros dos clientes a firma do meu marido entrou num rodopio de insolventes. Atrás de uma desgraça outra se engatava e ao fim de algum tempo veio o desentendimento, prendado de divórcio litigante e perda de custódia dos dois filhos. Autêntica bomba atómica! Aqui, sim, poderia ter evitado a consumação dos factos. Realmente fui uma loura burra. Agora, é o que se vê. Entre paredes vazias de tudo, espaços cheios de nada, esbracejo e estatelo-me na miséria deste sofá que, para mal dos meus pecados, é de cor laranja. Malditos e estúpidos laranjas!

Eis-me aqui, mal refastelada, enfeitada de nadas, sem adereços e sem jóias de qualquer valor ou espécie. Simplesmente mulher aviltada, deprimida, revoltada.

Os tipos que me levaram as coisas disseram-me que não abusasse das debilidades do sofá mas que me enchafurdasse no seu lúgubre silêncio. Sarcasmo e ousadias para depreciar quem está na fossa.
Gosto muito de ler mas até os livros me levaram, incluindo os velhos manuais que me serviram de guia para a docência. Restam-me algumas teias de aranha pelos recantos da casa e as poeiras do meu desencanto.

Parece-me ouvir ainda o eco das casquinadas metálicas dos arrumadores que me olhavam com ar desafiante, rasando os narizes no meu peito e dardejando olhares libidinosos dum machismo abandalhado. Apeteceu-me gritar que partilharia horas de prazer se me deixassem a casa recheada, mas, nestas horas de merdice, o desânimo e a crueldade afogam o verdadeiro sentido da realidade.

Olhando qualquer ângulo, esbarro-me no verde turquesa das paredes que me afogam a alma, e deixo-me esmorecer na monotonia duma raiva abafada na impotência do momento crítico.

O azul-marinho da carpete apenas me deixa navegar a solidão e desolação dum corpo que tantas vezes ali se bamboleou em doces e saudosos suspiros.

Juro que não sei o que estou aqui a pensar, mas vou erguer-me e gritar bem alto, dentro e fora destas paredes, que o meu mundo jamais será o da clausura do pensamento ou de grilhetas na liberdade.


terça-feira, junho 11, 2013

Perturbações e incompetência

                                                                  (Gaspar on fire - imagem da net)

No seu livro de curtas histórias, “Tipos de Perturbação”, Lydia Davis conta uma, intitulada “Imperturbável”. Vou adaptá-la ao nosso ministro da finanças, pois poder-lhe-á assentar (e não só a ele) que nem luva.

Imaginemos esse caricato ministro, tão redondamente “sui generis”, passeando à noite numa rua silenciosa. Olhando distraído verifica que um edifício mostra incipiente foco de incêndio. Calmamente, em passo ligeiro, e meditabundo decide procurar um extintor, noutro prédio vizinho, algo afastado. Encontrando o extintor, ainda na maior das calmas e a pé, volta para o edifício do incêndio. Aí chegado, com o incêndio já incontrolável pelo simples extintor, exclama: “provavelmente terei chegado tarde!” Indiferente, larga o extintor e parte em busca das notícias do dia seguinte.


Tal como este indiferente e pouco reactivo ministro, todos os incendiários que temos no poder viram e vêem o “edifício” em chamas, mas divertem-se à procura dum simples extintor que, na hora das cinzas, restará, qual despojo inútil mas funcional, num autêntico cemitério de destruição consentida e alimentada. Assim vai correndo o “culpado” tempo, nesta lusa sarça ardente.

                                                                       (“Mulheresa na janela” de Emiliano Di Cavalcanti)

Outra história que me ocorre hoje, é uma que o meu pai, há muitos anos contava na sua oficina de alfaiataria, era eu adolescente. Estando presente decorei-a e ainda hoje me rio quando a relembro e conto aos amigos que a desconhecem.
Fazendo parte do anedotário sarcástico e satírico atribuído a Bocage, obviamente terá a sua vertente menos pudica e mais atrevida, numa redondilha de bela construção que até hoje não vi escrita em qualquer lugar, incluso nas minhas divagações pelo Google.
Neste conto atrevido podemos avaliar a eficácia de alguém que domina o assunto e não sofre de incompetência, nem se sente perturbado nas ocasiões de maior impasse, essencialmente quando algum chico-esperto o procura colocar em cheque.

Depois de uma estadia agitada no Oriente, Bocage regressou a Lisboa, em 1790. Aí, durante os dez anos subsequentes levou vida boémia, de franco convívio com o “bas-fond” da cidade. A sua típica forma de vida, extroversão, frontalidade, irreverência e ironia granjearam-lhe um enorme grupo de admiradores incondicionais.

Nas suas deambulações, eram frequentes os dias que Bocage passava por debaixo da janela dum prédio onde, muitas vezes, se debruçavam, àquela hora, duas belas jovens, filhas de um abastado mercador judeu. Com os decotes algo a jeito, acicatavam os olhares do poeta vadio que logo lhes lançava uns galanteios, quiçá uns versinhos, que as deixavam delambidas e deslumbradas. Os amigos de Bocage provavelmente acolitariam a festa.
Certo dia o judeu decidiu fazer uma festa nos seus aposentos onde teria muitos convidados. As filhas, sabendo que o pai iria convidar muitas pessoas importantes da época, pediram-lhe que permitisse um convite ao poeta, para que este declamasse alguns poemas seus e quiçá alguns improvisos. O pai, que já tanto ouvira falar desse poeta boémio e desbocado, lá se conformou, mas colocou uma condição ao poeta. Este teria que improvisar uma quadra, cujo mote obrigatório seria da autoria do mercador judeu.
Assim, conversou e combinou tal desafio com o poeta que concordou, já que teria oportunidade de conviver com as duas jovens e belas judias, além de poder mostrar muito do seu estro.
Chegado o dia da festividade judaica lá apareceu o poeta que foi convidado a sentar-se na mesa dos convivas especiais. Depois de lauta refeição, muitos olhares furtivos e piscadelas malandras, Bocage aguardava o momento do seu protagonismo.
Primeiramente o anfitrião apresentou-o aos comensais e, após uma breve explicação, pediu ao dotado poeta que recitasse alguns dos seus poemas. Por questões de respeito e delicadeza, Bocage não quis recitar, em festa religiosa judaica, algo de mais satírico ou irreverente, pelo que se limitou a declamar poemas mais apropriados à ocasião.
Todavia, após ligeiro intervalo, o judeu, sabendo que o poeta era católico, mesmo que pouco afoito, lançou-lhe o mote para a redondilha de improviso. Com algum sorriso malicioso e ar exibicionista ordenou-lhe:
- Caro poeta Bocage o mote para a sua quadra é este: “Jesus Cristo entre as virilhas”.
Bocage, algo espantado com a ousadia e malícia do anfitrião, acedeu e subiu para a tribuna improvisada. Virando-se, quase ostensivamente, para o judeu, perante o silêncio circundante, com voz tonitruante improvisou:
“Se tu me desses, judeu,
A melhor das tuas filhas
Eu dava-lhe o que me deu
Jesus Cristo, entre as virilhas.”

Imagino o que poderá ter acontecido a tantos estômagos abarrotados. Seria bom de ver o ar furibundo do judeu e os comentários dos presentes. Bocage deu-lhe uma lição de cortesia e quase poderia desabafar: querias farra, judeu? Então (e com gesto de Zé-Povinho) toma!

terça-feira, maio 28, 2013

Camões...uma língua, muitas pátrias

(imagem da net)
Fiquei deveras feliz quando soube da atribuição do Prémio Camões 2013 a Mia Couto. Como quase toda a gente que o lê, creio que a sua marca vê-se no timbre da criação de novos termos, essencialmente na forma de prefixar palavras e dourá-las com aprazíveis e bem sonantes rendilhados. Aproveitando-se da incipiente linguagem dum povo que esteve cerca de quinhentos anos colonizado, mas nem português lhe ensinaram, foi-se servindo duma terminologia de iniciados, quase crioula, com adaptações que mostram uma sonoridade musical e inegável significância.
Como médico e talvez um sonhador, aproveito um excerto engraçado do livro “Venenos de Deus, Remédios do Diabo” (2008), em que o doutor Sidónio Rosa fala com Bartolomeu sobre sonhos…


                                                                (imagem da net)
— Agora, conforme assisto na TV, há umas pretas loiras, de olhos azuis. Traga-me uma dessas. Doutor.
Que ele ansiava alvoroçar o coração, solavancar o corpo, esse seu pobre corpo que, mesmo sem substância, lhe pesava, atafulhado de fígado.
— Traga-me uma qualquer catorzinha, quinzezinha, mas que não fume.
— Uma que não fume?
— Mulher que fuma, para mim, é homem...
— Eu gosto que você continue sonhando, mesmo que seja com impossíveis miúdas.
— Estou sonhando em justa causa, Doutor. Porque eu, se não fosse o amor, ou melhor, se não fosse a espera do amor...
Joelhos juntos, vai olhando os pés como se contemplasse a linha do horizonte. Saudade do tempo em que tinha saúde para desprezar o próprio corpo. Agora pouca convicção lhe resta, mesmo quando se lamenta:
— Sonhar me deixa muito cansado. Dá um trabalhão danado, sonhar.
— Se o senhor não sonhasse, já teria arrumado as ferramentas na caixa.
As ferramentas estão espalhadas pelo soalho. Ele recusa arrumá-las na devida caixa.
— Fazem-me companhia — justifica assim a desordem. Dona Munda tem outra explicação para aquele caos: o marido ainda acredita poder ser chamado de emergência.
— Cure-me de sonhar, Doutor.
— Sonhar é uma cura.
— Um sonhadeiro anda por aí, por lonjuras e aventuras, sei lá fazendo o quê e com quem... Não haverá um remédio que me anule o sonho?
O médico ri-se, sacudindo a cabeça. Retira da sacola o estetoscópio, mas o doente, mal pressente a intenção, ergue-se, esquivo. Sidónio deixa escapar o aparelho que tomba entre chaves de fenda, alicates e apetrechos do ex-mecânico. Bartolomeu espreita de lado, com desconfiança de bicho:
— Todos elogiam, o sonho, que é o compensar da vida. Mas é o contrário. Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos.
— Sonhar só o faz ficar mais vivo.
— Para quê? Estou cansado de ficar vivo. Ficar vivo não é viver. Doutor.
O médico caminha, pé ante pé, por entre as ferramentas. Recupera o estetoscópio e limpa-o na ponta da bata, alheio ao olhar atento do paciente.
— Para dizer a verdade, o senhor nem devia voltar aqui.
— Não quer que volte?
— É que o senhor entra neste quarto malcheiroso e eu o vejo mais como coveiro do que meu salvador. Aqui, neste leito, eu já vou no meu próprio desfile fúnebre.
As mãos vão-se enrodilhando como se, entre os dedos magros, escondesse uma pomba viva.
— E mais. Doutor: acho que o senhor não tem nada a fazer aqui. Eu vivo tão sozinho que nem doença tenho para me acompanhar.
— Cabe-me a mim avaliar das suas doenças.
— Eu hei-de morrer de nada, só por acabar de viver.
— Mas hoje não, hoje não morra que é domingo.
Sidónio sabe da rotina de Bartolomeu: domingo é dia de janela. A meio da manhã, ele se desamarra do reumatismo, ergue-se arrastoso e se encosta na luz, a contemplar a rua. Meio oculto entre os cortinados, não vê muito, quase que não escuta. Melhor assim: os sons desfocados já não o convocam. Apesar de tudo, vai acenando. De que vale estar à janela se não é para dizer adeus?