terça-feira, fevereiro 19, 2013

o rei vai nu...




Em 26 Setembro de 2006 escrevi este pequeno post noutro blogue que mantenho mas num silêncio sepulcral. Não o fechei, mas ... deixei-o quase secar de aridez de escrita. Hoje, após o reler, lembrei-me de trazê-lo blogue, 

"Aqui sempre houve gato, mas a luz evitou que fosse denunciado pelo rabo de fora. Quando as coisas são claras, nada as poderá ocultar, a menos que sejam tão claras que se tornem transparentes e invisíveis, como certos acontecimentos do nosso dia a dia que, de tanta clareza, nem se vêem. Tanto faz ser na política como nos eventos sociais e religiosos. Até parece a história daquele reino em que o rei ia nú, mas os inteligentes até o viam bem vestido e ataviado...mas há sempre um inocente, criança ou não, que na sua infantil candura e ignorância das imposições sociais grita as verdades que vê.
No nosso reino também parecem abundantes os nús e mal vestidos que tentam deitar terra para os olhos do Povo. Mas este parece que cada vez tem a visão algo mais apurada e consegue discernir entre nudez e boas vestes. Afinal nem todos os ensaios são de cegueira.
Parece que o pessoal está a abrir os olhos para a nossa realidade. A riqueza e a pobreza continuam a caminhar no sentido único da agudização, ou seja, os ricos continuam a ficar cada vez mais ricos, assim como os pobres continuam a ficar cada vez mais pobres. Porquê? Só não vê quem é cego, e de cegueira partilhada e displicente já basta. É preciso despertar a ousadia dos cérebros anquilosados pela ignorância de meio século salazarento, logo seguido pela opressão pseudo-democrata de mais trinta anos de riqueza a correr para o lago dos políticos oportunistas, inaptos, ignorantes e saqueadores do tesouro nacional e das benesses da UE. Trinta desastrados anos de governos sem rumo, sem disciplina económica, sem gestão justa e igualitária... enfim, um bando de usurários e delapidadores dos nossos dinheiros.
E agora? Que fazem os actuais gestores deste País?
Tudo o que se está a ver. Assistimos, impávidos, sem participação colectiva, à destruição da Educação, da Saúde, da classe baixa de funcionários públicos, etc. Mas a pesada máquina política continua a usufruir de mordomias e direitos que não merece, nem tem direito a usufruir perante tanta pobreza e desgraça nacional.
Será que estamos todos cegos?
Será que o Rei vai mesmo nu?"



Acho que há seis anos atrás já as coisas não seriam muito diferentes, embora hoje o monstro se tenha tornado mais voraz e horripilante. O povo que o diga, já que o sente, mas "quem não se sente não é boa gente", lá diz o dichote.

domingo, fevereiro 17, 2013

As desgraças de Pedro... e leal confraria

(imagem da net)



O Mundo Está Prestes a Rebentar

Não olhes. 
O mundo está prestes a rebentar. 

Não olhes. 
O mundo está prestes a despejar a sua luz 
E a lançar-nos no abismo das suas trevas, 
Aquele lugar negro, gordo e sem ar 
Onde nós iremos matar ou morrer ou dançar ou chorar 
Ou gritar ou gemer ou chiar que nem ratos 
A ver se conseguimos de novo um ponto de partida. 


(Harold Pinter, in "Várias Vozes")

(imagem da net)


Pedro continua a sua política de cortes e o gado começa a ficar mais impaciente, porque a fome alastra no rebanho e o pasto é cada vez mais limitado. Nem as chuvas repetidas emprenham de fertilidade a terra recalcada pela incerteza do futuro. Se a erva cresce, logo Pedro, contendo a bicheza no redil, acaba por mandar segá-la e envia-a para outros rebanhos, na procura do lucro e para exibir gráficos e valores de exportação do produto. Para as suas ovelhas deixa o restolho que logo some, perante a voracidade animal.
Os lobos, à socapa, vão aproveitando uma ou outra rês que, moribunda, se putrefaz na rectaguarda mais abandonada pelos famintos cães de guarda. Estes, ainda Pedro os vai enganando com alguns restos de carne e carcaças das suas lautas jantaradas, com amigos e afins.
Mantém-se ligado aos seus conselheiros que, autenticamente zonzos e mentalmente vazios de ideias e soluções, lhe vão dando as dicas que apenas exacerbam o rumo à miséria e desintegração social. Do exterior, apenas emana a cobiça e a ignorante força e incentivo dos seus mentores que lhe prometem um presunto por cada porco criado e abatido. Todavia a bicheza fenece e a magreza acentua-se. Nem bicho gordo para exportar, nem biscato de chicha para consumir.
Para ele, tudo está bem e existe já um esboço de luz ao fundo do túnel. Só os inteligentes, quanto ele e sua confraria, vêem essa luzinha. Todo o mundo anda cego, pensa ele. Mas a história do “rei que vai nu” já não alimenta a esperança do rebanho nem da restante bicheza da pradaria.
Os currais, por falta de cuidados, já estão degradados e cada vez mais vazios com o acréscimo da morte e fuga dos animais. Os índices de mortalidade e de fuga da bicheza começam a ser assustadores, mas Pedro e acólitos acham que tudo decorre como “ligeiro desvio” da normalidade prevista.
Dentro da confraria, face a vários imprevistos da mesma, mas não alheios ao rebanho, começa a gerar-se algum mal-estar e instabilidade. Algumas vozes dissonantes começam a levantar-se quanto à forma de gestão do rebanho e do território, mas com ajudas dos mentores externos e alguns falsos positivos de recuperação global, logo as normas cegas e obsessivas de conduta da confraria se impõem e tudo retorna a uma aparente calmaria. Por algum protagonismo e um bom lugar, não serão, de todo, mal digeridos os sapos da discórdia.

(imagem da net)

Há agora, como prioridade, que manter uma apertada vigilância de tudo quanto entra e sai nas contas da propriedade. Para tal, dever-se-á reduzir mais aos gastos com produtos de primeira necessidade (já que doutros não há) e obrigar os animais a deixar a sua marca “bestial” em tudo o que fazem e até no que não fazem. O orçamento do território exige sacrifícios e muita colaboração dos animais, mesmo que estes se tenham que denunciar uns aos outros. O incumprimento implicará mais sacrifícios… até à morte por inanição.
Pedro desconhece, em absoluto, os bichos e a pradaria que dirige. Aliás nunca conheceu, pois nunca fora educado para gerir assuntos mais sensíveis que a mísera papelada das “suas” anacrónicas teorias. Continua a vaguear por outras quintas, gastando, com os seus comparsas, muito mais do que deveria, na ânsia de protagonismo e prestígio que, na realidade, ninguém consegue vislumbrar. Será que o seu narcisismo e teimosia o vão levar a ser ostracizado, mais dia, menos dia, pelos seus aduladores, e a ser trucidado pela sanha do seu rebanho e cães de guarda?
Pedro, o mau pegureiro, vive de aparências e rege-se pelas mesmas. No entanto, seria bom que conhecesse o velho provérbio que diz: «o que hoje parece, amanhã perece».