terça-feira, março 19, 2013

Relembrar o homem ...o Pai


                                                                      (imagem da net)


Não tenho por hábito falar do meu pai que aos 66 anos, nos idos de 93, se dignou partir de forma súbita, acossado por falha cardíaca. Ele que até fora um homem fogoso, másculo e de excessiva movimentação. No entanto, tal facto, aliado a comportamentos de risco e vicissitudes de vadiagem militante, encurtaram-lhe alguns bons anos de vitalidade possível. Acelerando o seu ritmo de vida também acelerou o fim da mesma. Uma verdadeira “apoptose” fulgurante.

Apesar de tudo, sempre admirei aquele homem que foi o meu pai. Além de boa figura, estava algo adiantado no seu tempo, e com uma simples quarta classe, voluntariamente completada em adulto, tinha conhecimentos e adquirira saberes próprios de alguém mais letrado que o “doutor” Relvas. Contrariamente a este, também vivia noutro mundo político, tendo sido militante de esquerda, mais concretamente do MDP/CDE e alguns anos depois, com o 25 de Abril, integrou-se no PCP tendo, incluso, cedido um dos seus espaços oficinais para reuniões, a partir daí.
Entretanto posso dizer que a sua oficina de alfaiataria sempre fora, já antes da revolução dos cravos, o local de reuniões e encontros do pessoal do contra. Durante as horas de trabalho, quer os seus empregados quer alguns clientes crónicos que ocupavam bancos livres ou se acomodavam no largo espaço disponível, discutiam até altas horas assuntos variados de que a política era tema preferencial. Nos fins-de-semana laborais, quintas e sextas-feiras, as jornadas eram contínuas, pois teriam de compensar as ausências de segundas e parte de terças-feiras.
A rádio funcionava constantemente e a horas menos cómodas, mais tardias mas de maior acalmia, sintonizava-se a Rádio Moscovo, a Rádio Argel e a BBC. Cochichava-se entre baforadas e nevoeiro de tabaco. Meu pai não se opunha que eu e o meu irmão, um ano mais velho, ali ficássemos algum tempo a saborear comentários e expressões de pseudoliberdade condicionada. Muitas das vezes até ficávamos a auxiliar calças, fazer bainhas e tirar alinhavos até tardíssimo, essencialmente nos fins-de-semana de sobrecarga aflitiva de trabalho. Resistíamos com malgadas de café traçado, pão fresco com manteiga e, muitas vezes, um traçadinho de bagaço caseiro.
Havia também obrigatoriedade de leituras variadas e alguns jornais, para formação e temas de discussão. Aliás posso dizer que o meu primeiro professor foi meu pai que me ensinou a ler quando completei os cinco anos de idade. Inscreveu-me, e a si próprio, como sócio da biblioteca itinerante da Gulbenkian que mensalmente aparecia no local onde se desenrolava a feira semanal da Vila das Aves.
O seu afinco à causa de um Portugal livre e democrático, levou-o um dia aos calabouços da PIDE, onde ficou retido uma semana. A alfaiataria fechou e apenas alguns amigos, curiosos e a medo, vinham saber da sua ausência e procuravam, disfarçadamente colher informações junto da minha mãe que se arrastava, plangente, por todos os recantos da casa. Cheguei a temer que escacasse a telefonia, mas além de respeito, ela temia imenso o meu pai que, por vezes, era demasiado agressivo e até violento. Um machista daquela época em que as mulheres eram demasiado dependentes e submissas, pese o facto de minha mãe ter sido uma autêntica muleta dum marido que nada fazia, nem sabia fazer, para além do trabalho de alfaiataria. Creio que ele até achava que perderia a masculinidade se apenas aprendesse a fazer qualquer tarefa doméstica. Outros tempos, outros vícios e outras tolerâncias.
Como foi parar aos calabouços da PIDE? Simplesmente porque fora apanhado, meio embriagado, a distribuir o “AVANTE” por algumas portas da então Vila de Santo Tirso. Astuto, como sempre fora, valeu-se dessa embriaguez para dizer que encontrara aqueles jornais num banco do jardim e, naquele vaporoso estado, se lembrou de distribuir um jornal porta a porta, até que se esgotassem. Mesmo assim não o largaram e durante uns seis a sete dias, bateram-lhe com toalhas molhadas e doutras formas, pois chegou a casa com bastantes equimoses ao fim de oito dias, na companhia do regedor da freguesia que, tal como o pároco, fizeram depoimento em sua defesa, aventando como provável verdade o que ele dizia. Quanto ao regedor, sei que a minha mãe gastava da sua loja de mercearia e o meu pai era a única base para que a oficina trabalhasse e o dinheiro aparecesse, logo, para alem de alguma amizade havia o interesse económico. Quanto ao pároco, fiquei admirado, pois meu pai era absolutamente indiferente à religião, bastante céptico e só foi à igreja para se casar e para nos baptizar. Cheirou-me a pedido ou do regedor ou de pessoas que pretendiam ajudar a minha mãe, que era bastante religiosa e nos ensinou a viver no catolicismo, sem qualquer oposição do meu pai que mais tarde até me deixou frequentar o seminário. Fosse porque razão fosse, a verdade é que o homem chegou, mas muito machucado e debilitado com o pio arrepiado pelo menos durante algum tempo, pois a vigilância pidesca aumentou por ali, nessa altura e fez prisioneiros mais três amigos e frequentadores da alfaiataria.
Naqueles dias sempre me esquivei um pouco de o interpelar e abordar o motivo da sua ausência e do seu deplorável aspecto, mas mais tarde falei sobre isso, embora o tenha ouvido comentar algumas coisas com a minha mãe.
Creio que hoje, se fosse vivo, estaria a vomitar as entranhas com tanta safadeza política e com tão deplorável estado a que o nosso país chegou, apesar de ter tido oportunidades para dividir melhor a riqueza e elaborar legislação mais justa e eficaz.

terça-feira, março 12, 2013

Mulher de olhar choroso









Mulher de olhar choroso,
abre as mãos esqueléticas, vem construir,
neste charco lodoso,
o lupanar das púdicas côdeas,
onde possamos sorrir
ao vendaval das mortes serôdias.
 
Mostra as unhas de nojo
e com elas lacera teus seios de fome…
lança o sangue de rojo,
sobre este pântano de verdura
onde o pão que ninguém come
se faz  rosas de ternura.

vem comigo sonhar
entre a humanidade que inventei
numa noite de luar diamantino…
vem comigo forjar
um mundo que sempre desejei…
um mundo por definir, genuíno.

(Negrelos, 31/01/73)

terça-feira, março 05, 2013

Ano Internacional da Matemática




(rosa ou casal beijando-se?)


Hoje inicia-se o Ano Internacional da Matemática do Planeta Terra, indo a abertura oficial decorrer na sede da UNESCO, em Paris, com a presença do nosso Ministro da Educação, também ele um matemático (algo desaparecido). Veja-se em 
http://www.mat.uc.pt/mpt2013/ .

Uma das coisas que sempre me encantou foi a Matemática, em todas as suas vertentes. Sempre entendi que a matemática rege o mundo, desde a vacuidade do Universo às mais belas coisas que acontecem no dia a dia. Tudo respira matemática: a beleza duma paisagem, o serpentear dos rios, o voo das aves, a beleza duma flor e dum corpo, enfim… tudo o que o Universo nos oferece. As próprias palavras se escrevem e transmitem numa ritmada cadência matemática, numa miscelânea de incógnitas e potências infindáveis. Da finitude de um ponto ao infinitamente grande de um factorial, a matemática é o esplendor da nossa existência.

Claro que não pretendo falar daqueles chico-espertos que tendenciosa e intencionalmente manipulam, a seu bel-prazer, os dados do seu quotidiano, com malabarismos matemáticos de razão e sentido duvidosos. Esses serão matematicamente uns acéfalos zeros e manipuladores de valores humanos.

Para comemorar este dia fui buscar, para além da imagem de início, um problema de ilusão óptica ao livro de “Matemática divertida e curiosa” de Malba Tahan, um celebérrimo matemático brasileiro, de seu nome Júlio César de Mello e Souza.



(Ilusão óptica)

A pessoa que examinar com atenção a curiosa figura acima poderá jurar que as curvas que nela aparecem são espirais perfeitas.
Essa afirmação é errada. A figura constitui uma notável ilusão de óptica imaginada pelo Dr. Frazer (espiral de Frazer)- pode ser observada, a par de outras, no site: http://www.michaelbach.de/ot/. Todas as curvas do desenho são círculos perfeitos. Um simples compasso trará essa certeza ao espírito do observador.