terça-feira, junho 18, 2013

Juro...gritarei LIBERDADE

Aldrigde Photo - net

Juro que não sei o que estou para aqui a pensar.

Jamais me passaria pela cabeça estar aqui, com os nadegueiros a lambuzar o couro deste maldito sofá laranja. O rabo não pensa, mas não falta quem nele pense. Vicissitudes!

Este maldito encourado é o pouco que me resta, depois que me levaram a casa toda, incluindo a gulosa despensa. Antes vivia bem e gastava melhor, mas nunca acima das minhas possibilidades como apregoam os bem instalados. Para mim será fácil culpabilizar o meu marido que me alimentou vícios sobre vícios, orgulhando-se do seu poder económico construído à custa de empréstimos com juros esconjurados. Todavia, partilho a culpa para que esta se sinta bem casada e nunca solteira.

Certo é que a minha abúlica posição social me concedeu esta farta imagem de obesidade incipiente, mas não vivi sob as asas do meu ex. Loura, mas não burra, leccionei bastante tempo e adorei as crianças que me aturaram. Bem ou mal cumpri parte do meu fado, senti-me realizada e era auto-suficiente. Larguei o meu ofício porque outros valores familiares, e mais sérios, se alevantaram. Cuidar dos filhos e ajudar marido. Não sei se valeu o esforço e coragem, mas tive altos e baixos, sendo este o momento mais baixo, apesar do conforto do assento.

Sinto-me deprimida e capaz de ultrajar meio mundo e destruir outro meio. Com políticos como os que me levaram a esta triste situação, apetece-me degolar tudo quanto se movimente de ministério em ministério. Sem apoios e sem dinheiros dos clientes a firma do meu marido entrou num rodopio de insolventes. Atrás de uma desgraça outra se engatava e ao fim de algum tempo veio o desentendimento, prendado de divórcio litigante e perda de custódia dos dois filhos. Autêntica bomba atómica! Aqui, sim, poderia ter evitado a consumação dos factos. Realmente fui uma loura burra. Agora, é o que se vê. Entre paredes vazias de tudo, espaços cheios de nada, esbracejo e estatelo-me na miséria deste sofá que, para mal dos meus pecados, é de cor laranja. Malditos e estúpidos laranjas!

Eis-me aqui, mal refastelada, enfeitada de nadas, sem adereços e sem jóias de qualquer valor ou espécie. Simplesmente mulher aviltada, deprimida, revoltada.

Os tipos que me levaram as coisas disseram-me que não abusasse das debilidades do sofá mas que me enchafurdasse no seu lúgubre silêncio. Sarcasmo e ousadias para depreciar quem está na fossa.
Gosto muito de ler mas até os livros me levaram, incluindo os velhos manuais que me serviram de guia para a docência. Restam-me algumas teias de aranha pelos recantos da casa e as poeiras do meu desencanto.

Parece-me ouvir ainda o eco das casquinadas metálicas dos arrumadores que me olhavam com ar desafiante, rasando os narizes no meu peito e dardejando olhares libidinosos dum machismo abandalhado. Apeteceu-me gritar que partilharia horas de prazer se me deixassem a casa recheada, mas, nestas horas de merdice, o desânimo e a crueldade afogam o verdadeiro sentido da realidade.

Olhando qualquer ângulo, esbarro-me no verde turquesa das paredes que me afogam a alma, e deixo-me esmorecer na monotonia duma raiva abafada na impotência do momento crítico.

O azul-marinho da carpete apenas me deixa navegar a solidão e desolação dum corpo que tantas vezes ali se bamboleou em doces e saudosos suspiros.

Juro que não sei o que estou aqui a pensar, mas vou erguer-me e gritar bem alto, dentro e fora destas paredes, que o meu mundo jamais será o da clausura do pensamento ou de grilhetas na liberdade.


terça-feira, junho 11, 2013

Perturbações e incompetência

                                                                  (Gaspar on fire - imagem da net)

No seu livro de curtas histórias, “Tipos de Perturbação”, Lydia Davis conta uma, intitulada “Imperturbável”. Vou adaptá-la ao nosso ministro da finanças, pois poder-lhe-á assentar (e não só a ele) que nem luva.

Imaginemos esse caricato ministro, tão redondamente “sui generis”, passeando à noite numa rua silenciosa. Olhando distraído verifica que um edifício mostra incipiente foco de incêndio. Calmamente, em passo ligeiro, e meditabundo decide procurar um extintor, noutro prédio vizinho, algo afastado. Encontrando o extintor, ainda na maior das calmas e a pé, volta para o edifício do incêndio. Aí chegado, com o incêndio já incontrolável pelo simples extintor, exclama: “provavelmente terei chegado tarde!” Indiferente, larga o extintor e parte em busca das notícias do dia seguinte.


Tal como este indiferente e pouco reactivo ministro, todos os incendiários que temos no poder viram e vêem o “edifício” em chamas, mas divertem-se à procura dum simples extintor que, na hora das cinzas, restará, qual despojo inútil mas funcional, num autêntico cemitério de destruição consentida e alimentada. Assim vai correndo o “culpado” tempo, nesta lusa sarça ardente.

                                                                       (“Mulheresa na janela” de Emiliano Di Cavalcanti)

Outra história que me ocorre hoje, é uma que o meu pai, há muitos anos contava na sua oficina de alfaiataria, era eu adolescente. Estando presente decorei-a e ainda hoje me rio quando a relembro e conto aos amigos que a desconhecem.
Fazendo parte do anedotário sarcástico e satírico atribuído a Bocage, obviamente terá a sua vertente menos pudica e mais atrevida, numa redondilha de bela construção que até hoje não vi escrita em qualquer lugar, incluso nas minhas divagações pelo Google.
Neste conto atrevido podemos avaliar a eficácia de alguém que domina o assunto e não sofre de incompetência, nem se sente perturbado nas ocasiões de maior impasse, essencialmente quando algum chico-esperto o procura colocar em cheque.

Depois de uma estadia agitada no Oriente, Bocage regressou a Lisboa, em 1790. Aí, durante os dez anos subsequentes levou vida boémia, de franco convívio com o “bas-fond” da cidade. A sua típica forma de vida, extroversão, frontalidade, irreverência e ironia granjearam-lhe um enorme grupo de admiradores incondicionais.

Nas suas deambulações, eram frequentes os dias que Bocage passava por debaixo da janela dum prédio onde, muitas vezes, se debruçavam, àquela hora, duas belas jovens, filhas de um abastado mercador judeu. Com os decotes algo a jeito, acicatavam os olhares do poeta vadio que logo lhes lançava uns galanteios, quiçá uns versinhos, que as deixavam delambidas e deslumbradas. Os amigos de Bocage provavelmente acolitariam a festa.
Certo dia o judeu decidiu fazer uma festa nos seus aposentos onde teria muitos convidados. As filhas, sabendo que o pai iria convidar muitas pessoas importantes da época, pediram-lhe que permitisse um convite ao poeta, para que este declamasse alguns poemas seus e quiçá alguns improvisos. O pai, que já tanto ouvira falar desse poeta boémio e desbocado, lá se conformou, mas colocou uma condição ao poeta. Este teria que improvisar uma quadra, cujo mote obrigatório seria da autoria do mercador judeu.
Assim, conversou e combinou tal desafio com o poeta que concordou, já que teria oportunidade de conviver com as duas jovens e belas judias, além de poder mostrar muito do seu estro.
Chegado o dia da festividade judaica lá apareceu o poeta que foi convidado a sentar-se na mesa dos convivas especiais. Depois de lauta refeição, muitos olhares furtivos e piscadelas malandras, Bocage aguardava o momento do seu protagonismo.
Primeiramente o anfitrião apresentou-o aos comensais e, após uma breve explicação, pediu ao dotado poeta que recitasse alguns dos seus poemas. Por questões de respeito e delicadeza, Bocage não quis recitar, em festa religiosa judaica, algo de mais satírico ou irreverente, pelo que se limitou a declamar poemas mais apropriados à ocasião.
Todavia, após ligeiro intervalo, o judeu, sabendo que o poeta era católico, mesmo que pouco afoito, lançou-lhe o mote para a redondilha de improviso. Com algum sorriso malicioso e ar exibicionista ordenou-lhe:
- Caro poeta Bocage o mote para a sua quadra é este: “Jesus Cristo entre as virilhas”.
Bocage, algo espantado com a ousadia e malícia do anfitrião, acedeu e subiu para a tribuna improvisada. Virando-se, quase ostensivamente, para o judeu, perante o silêncio circundante, com voz tonitruante improvisou:
“Se tu me desses, judeu,
A melhor das tuas filhas
Eu dava-lhe o que me deu
Jesus Cristo, entre as virilhas.”

Imagino o que poderá ter acontecido a tantos estômagos abarrotados. Seria bom de ver o ar furibundo do judeu e os comentários dos presentes. Bocage deu-lhe uma lição de cortesia e quase poderia desabafar: querias farra, judeu? Então (e com gesto de Zé-Povinho) toma!