domingo, julho 10, 2005

Sócrates...a coragem de ser anti-...

Não vou passar a vida inteira a desculpar-me das ausências no mundo da bloguística, mas na realidade este intervalo de cerca de um mês não estava nos meus propósitos. A verdade é que a vida e afazeres de um “verdadeiro clínico” ligado de corpo e alma à sua profissão, de sobrecarga temporária e desgaste inavaliável, não se contempla com ocupações secundárias e hobbies intemporários. O prazer de escrever e comentar é muito, mas o tempo disponível é reduzido. Não gosto muito de blá-blá papagueado e despropositado, mas procurarei deixar algo que penso ser útil para quem tem a pachorra de me ler (se alguém existe).

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O tempo que mediou entre a pausa e o dia de hoje foi rico em acontecimentos e factos. Politicamente as medidas de correcção do défice, boas para nenhuns, más para a maioria, agradáveis para invejosos, desagradáveis para comodistas do sistema. Sócrates, apesar de não poder justificar logicamente as medidas tomadas, olhando ao eleitoralmente prometido, até teve, como sói dizer-se, os tomates no sítio, ao enfrentar interesses instalados e “direitos” adquiridos. Claro que eu sempre questionei e questionarei se tais mordomias e alcavalas era realmente “direitos”...a serem, continuarei a dizer que os direitos só existem para determinadas pessoas e classes sociais, preferentemente para os políticos no poder (em cada fase) e seus correligionários. Felizmente a discussão do défice trouxe o azeite à superfície, e muitos dos privilégios (podem chamar-lhe “direitos adquiridos”, que eu não lhe mudo o nome) começaram a ser debatidos pela imprensa, e comentados pelo cidadão comum. Até aqui os decretos-lei de favorecimento de certas clientelas privilegiadas eram mal divulgados e logo guardados em gavetas de sete chaves. Ninguém comentava, a ninguém eram disponibilizados, e só aos beneficiados era dado conhecimento público. Tudo caladinho, pois o povo não deveria saber dessas benesses...conviria pouca divulgação. Mas o povo e o verdadeiro défice começaram a entender-se...forças circunstanciais, e aqui-del-rei (ou do presidente da República) que muitos gajos (permita-se o calão) iam perder direitos adquiridos. Em vez de serem favorecidos com um milhar, iriam passar a três quartos de milhar...grande perda de privilégios! Que dirá o Zé Povinho que vai perder quase tudo?...Que aguente, porque já está habituado, já sabe o que é pedinchar e viver sem um “tusto”... Já está com o corpo calejado de tanto penar e passar necessidades primárias. Mas os que estavam muito bem e mordomizados, não podiam perder direitos...de contrário já não poderiam oferecer o casaco de peles à amante, o carro desportivo ao filhote, aquela jóia encantada à esposa (enganada), e jogar na roleta...para comer haveria sempre, mas os vícios, porra...como alimentá-los?!...Ah!, os pobres...que se lixem (com ou sem “F”), comam o costume...ou nada.
Gostei bastante de um artigo que ontem o grande constitucionalista Prof. Jorge Miranda escreveu no “Público” ¾ «As corporações e a República». Poderia fazer link do artigo, mas confesso que não sei, pelo que aconselho as pessoas a lê-lo. Creio que poderia ser ainda mais contundente, pois dos profissionais abarcados, mais alguns deveriam ser referidos, mesmo os médicos, contra a minha profissão falo...embora nem todos os profissionais, de qualquer ramo de actividade, devam ser tratados de igual forma, pois existem os bons e os maus, como todos sabemos.
Como dizia antes, acho que o eng.º Sócrates teve a coragem, nada fácil, de afrontar tudo e todos, em nome de um futuro que ainda se augura muito difícil e dum miserável défice que eles, políticos, sabiam existir, maior ou menor, mas que teimavam ignorar, ou pretender que fosse ignorado. Tanta riqueza que veio da União Europeia, tanto capital a fundo perdido, mas só eles, políticos e seus amigalhões, dela usufruíram. Onde está esse dinheiro? Seria tão bom que fosse possível descobrir-se onde e por quem foi aplicado (entenda-se gasto). Não ficaríamos muito surpresos, mas concerteza iríamos ter a confirmação da existência de uma grande CORJA POLÌTICA.
Sei que o primeiro Ministro vai ter movimentos grevistas pela frente. Sei que vai ter um pesadelo com as eleições autárquicas, mas acho que apesar dos sacrifícios pedidos e algumas dissonâncias sócio-económicas, com matizes de injustiça social, todos deveríamos entender o ónus destas medidas por mais injustas que possam ser. Deveremos é lutar por uma maior igualdade de direitos sociais e económicos entre todos os portugueses, e ajudar a construir um futuro melhor para os nossos herdeiros. As injustiças sociais devem ser combatidas, mas no contexto actual, não sei se determinadas greves, mal geridas e fundamentadas, irão resolver parte dessas injustiças. Vamos pensar com mais razão e menor emoção.