terça-feira, maio 28, 2013

Camões...uma língua, muitas pátrias

(imagem da net)
Fiquei deveras feliz quando soube da atribuição do Prémio Camões 2013 a Mia Couto. Como quase toda a gente que o lê, creio que a sua marca vê-se no timbre da criação de novos termos, essencialmente na forma de prefixar palavras e dourá-las com aprazíveis e bem sonantes rendilhados. Aproveitando-se da incipiente linguagem dum povo que esteve cerca de quinhentos anos colonizado, mas nem português lhe ensinaram, foi-se servindo duma terminologia de iniciados, quase crioula, com adaptações que mostram uma sonoridade musical e inegável significância.
Como médico e talvez um sonhador, aproveito um excerto engraçado do livro “Venenos de Deus, Remédios do Diabo” (2008), em que o doutor Sidónio Rosa fala com Bartolomeu sobre sonhos…


                                                                (imagem da net)
— Agora, conforme assisto na TV, há umas pretas loiras, de olhos azuis. Traga-me uma dessas. Doutor.
Que ele ansiava alvoroçar o coração, solavancar o corpo, esse seu pobre corpo que, mesmo sem substância, lhe pesava, atafulhado de fígado.
— Traga-me uma qualquer catorzinha, quinzezinha, mas que não fume.
— Uma que não fume?
— Mulher que fuma, para mim, é homem...
— Eu gosto que você continue sonhando, mesmo que seja com impossíveis miúdas.
— Estou sonhando em justa causa, Doutor. Porque eu, se não fosse o amor, ou melhor, se não fosse a espera do amor...
Joelhos juntos, vai olhando os pés como se contemplasse a linha do horizonte. Saudade do tempo em que tinha saúde para desprezar o próprio corpo. Agora pouca convicção lhe resta, mesmo quando se lamenta:
— Sonhar me deixa muito cansado. Dá um trabalhão danado, sonhar.
— Se o senhor não sonhasse, já teria arrumado as ferramentas na caixa.
As ferramentas estão espalhadas pelo soalho. Ele recusa arrumá-las na devida caixa.
— Fazem-me companhia — justifica assim a desordem. Dona Munda tem outra explicação para aquele caos: o marido ainda acredita poder ser chamado de emergência.
— Cure-me de sonhar, Doutor.
— Sonhar é uma cura.
— Um sonhadeiro anda por aí, por lonjuras e aventuras, sei lá fazendo o quê e com quem... Não haverá um remédio que me anule o sonho?
O médico ri-se, sacudindo a cabeça. Retira da sacola o estetoscópio, mas o doente, mal pressente a intenção, ergue-se, esquivo. Sidónio deixa escapar o aparelho que tomba entre chaves de fenda, alicates e apetrechos do ex-mecânico. Bartolomeu espreita de lado, com desconfiança de bicho:
— Todos elogiam, o sonho, que é o compensar da vida. Mas é o contrário. Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos.
— Sonhar só o faz ficar mais vivo.
— Para quê? Estou cansado de ficar vivo. Ficar vivo não é viver. Doutor.
O médico caminha, pé ante pé, por entre as ferramentas. Recupera o estetoscópio e limpa-o na ponta da bata, alheio ao olhar atento do paciente.
— Para dizer a verdade, o senhor nem devia voltar aqui.
— Não quer que volte?
— É que o senhor entra neste quarto malcheiroso e eu o vejo mais como coveiro do que meu salvador. Aqui, neste leito, eu já vou no meu próprio desfile fúnebre.
As mãos vão-se enrodilhando como se, entre os dedos magros, escondesse uma pomba viva.
— E mais. Doutor: acho que o senhor não tem nada a fazer aqui. Eu vivo tão sozinho que nem doença tenho para me acompanhar.
— Cabe-me a mim avaliar das suas doenças.
— Eu hei-de morrer de nada, só por acabar de viver.
— Mas hoje não, hoje não morra que é domingo.
Sidónio sabe da rotina de Bartolomeu: domingo é dia de janela. A meio da manhã, ele se desamarra do reumatismo, ergue-se arrastoso e se encosta na luz, a contemplar a rua. Meio oculto entre os cortinados, não vê muito, quase que não escuta. Melhor assim: os sons desfocados já não o convocam. Apesar de tudo, vai acenando. De que vale estar à janela se não é para dizer adeus?


terça-feira, maio 21, 2013

Epitáfio para um pós Troyka...requiem por um País

                                                                     (imagem da net)


Há muitas coisas que nos espantam, não porque sejam deslumbrantes mas sim desconcertantes. Para além das verborrágicas teorias da negação descarada de afirmações efectuadas no planeamento das ambições futuras, aparecem-nos agora, os artistas de sempre para futurar sobre o presente inacabado. Ainda o apocalipse se desenrola e já temos estudos pós apocalípticos, para se discutir a viabilidade e o sexo dos escombros em contínuo desmoronamento. Lembra-me alguém que pretende iniciar a reconstrução do prédio destruído a partir do telhado, ou falando com maior acutilância, estudar a forma de sangrar um porco já bem sangrado. Aqui não há “big-bangs” nem se constroem tesouros a partir de casas despojadas.
Sabemos que Cavaco Silva pretendeu apenas (e reforço apenas) arranjar uma forma de confirmar as medidas orçamentais e colocar Portas na senda dos consensos excepcionais e necessários, para que o Governo não se esbardalhe, como sói dizer-se. Afinal, em nome da segurança da Pátria e para que haja um fluxo normal dos ideais troikanos, a prática tem que prevalecer até ao fim.

Perspetivas da Economia Portuguesa no Pós-Troika, no Quadro de uma União Económica e Monetária Efetiva e Aprofundada”. Eis o móbil do crime. Mais parece uma parangona jornalística para alimentar polémicas de taverna e discussões de corredores de Academia. Melhor ficaria se titulassem: “Perspetivas de elaboração dum epitáfio no quadro de um genocídio efetivo e troikano”.
                                                            (imagem da net)

Não se sabe o que acontecerá, com o efeito da austeridade, daqui até Junho do próximo ano. Não se sabe se a União Económica e Monetária prevalecerá. Não se sabe se os decisores cá estarão ou se andarão à bofetada. Contudo fala-se de uma hipotética situação de utopia existencialista. Ah! Heróis, isto é que é vaticinar, numa autêntica apologia a Nostradamus!
Quando é que o sonho da competitividade e do crescimento sustentável vai criar raízes? Quando apenas restarem cinzas, cadáveres adiados e famélicos abutres dançando nos escombros? Talvez… mas será tarde. Os “mecanismos de supervisão, de resolução de crises e de garantia de depósitos dos bancos” não fazem milagres perante a possível situação a que se vai chegar com as medidas que constam da última reavaliação. Numa situação de letargia total, com milhões de infra-homens humilhados e abandonados à desdita, que se lixem os “equilíbrios adequados, a disciplina financeira e a solidariedade e estímulo à actividade económica”. Já não estamos em tempos de milagres de Canaã.
Na minha perspectiva, e quiçá de muita gente, tratou-se de mais um acto de teatralidade, uma farsa de mau gosto, num dia em que deveriam respeitar a data de autonomia dos Açores, com referência ao facto e envio de representantes governamentais ao território insular. Mais um acto voluntário e premeditado de desnorte. E pretendem estes salafrários ser acolitados por pessoas e gestos de bom senso. É já público que o comunicado, passado após a “grande farsa”, nada transmitiu do que nela se falou. Balelas, puras balelas!
                                                                    (imagem da net)

Os incapazes que se demovam e deixem de alimentar a sua incompetência. Já lá vão dois anos e que se vê? Tudo aquilo que é evidente: depressão, recessão, tristeza, miséria, desemprego, falências, suicídios… enfim, apenas a face mais negativa e pessimista que um povo pode ver e sentir. Até a esperança se arredou do coração deste povo destroçado.

quarta-feira, maio 15, 2013

“Finis Troikae”… Consummatum est!

(imagem da net)
Não sei se sei falar como devo, nem sei se devo falar como sei. Todavia falo do que entendo, embora entenda que há coisas que, por vezes, não devemos falar.
Sinto, na brandura da espinal-medula portuguesa, um sinal de contínua e mantida aceitação e submissão ao azorrague das ideias pseudo-altruistas, de ordinários pategos que se julgam os paladinos das teorias económicas e sociais da ideal conduta de um País. Todos enfermam de humildade e se abrilhantam de impado narcisismo e arrogância científica. Vêem a ciscalhada no vizinho olhar, mas não afastam as trancas da sua deformada visão.
Consegue-se, de forma governamentalmente desenfreada e acicatada, rebelar as pessoas: público contra privado, famílias desentendidas, reformados contra quase aposentados, num frenesi que já evidencia ricos contra pobres e todos contra partidos e governação. Instalou-se a teoria do caos, para que se justifique que outros venham dizer-nos o que fazer e porque fazer, mesmo ignorando as nossas tessituras e a alma da nossa vivência multissecular.

Longe vai o tempo em que a romana voz disse que nesta ponta ocidental da Europa vivia um povo que não se sabia, nem deixava governar. Parece ter chegado um tempo em que novos “romanos” se debruçam sobre a nossa mísera conduta e governação políticas e decidem pensar por nós, sob a execrável passividade dos nossos timoneiros e pressupostos defensores. Afinal chegou a hora do lobo e o rebanho vai sendo dizimado perante a indiferença dos atónitos e estupidificados pastores.


Talvez por encomenda dos nossos “minus validus” do poder, eis que surgem as novas regras num panfleto aqui revelado.
Conclui-se, num ápice, que somos apenas mandados e não mandantes, com uma Constituição que o não é, servindo de papeleta retórica para discussões e tertúlias de cafés e salões televisivos, onde proliferam os génios da nossa nomenclatura política que vão aproveitando as páginas documentais para limpeza de suores pouco esforçados e doutras enxúndias possíveis. Brinca-se com o fundamental e destrói-se a essência dum povo.

Tempos houve em que os legistas políticos construíram um caótico paiol de (i)legalidades, à dimensão das suas ambições, sem precaverem o futuro dos seus e dos mais desprotegidos. Foi um despautério, com aproveitamento pessoal e abandalhamento das reais necessidades dum povo eternamente causticado. Enriquecimentos e gastos selectivos, sempre dos mesmos e pelos mesmos, com prejuízo duma Nação. Ficaram bem calçados e cedo descansados, também com prejuízo duma Nação. Todavia, hoje, com dedos acusadores e escondidos atrás dos lucros obtidos, dizem que os outros é que gastaram acima das suas possibilidades. Tão fácil arranjar bodes expiatórios, quando se detém o poder. Tão fácil assaltar os mais frágeis e menos protegidos. Mas é o que temos… legisladores doutros tempos, ladrões a coberto das leis que elaboraram, a preceito, e que agora, após longo tempo de aproveitamento, vão modificar e suspender, para disfarçarem a sustentabilidade que destruíram com desfaçatez.



                                                                                   
                                                                            (imagem da net)
Todos os dias se questionam, desde o iletrado ao maior académico, onde flutuam os milhões que entraram cá a fundo perdido? Onde se encontram os milhões que andaram nas contradanças do BPN, dos submarinos, das PPP’s,  das SWAPS, etc, etc…
Pensões? Reformas? Mas que tipo de pensões e reformas? Baseadas em quantos anos de suor? Adulterados por quantas duplicações de tempo incumprido? Gozadas em que períodos de vida? Usurpadas a quem? Consequentes de que leis e de que legisladores?
Todos sabemos quem, como e porquê. Alguns ainda se movem nos meandros da política actual e chegam ao desplante de se armarem em néscios e até levantam dedos acusadores como se o pudessem fazer. Justiça? Aonde está, e para quem?
Enfim, um autêntico fluir de impunidades, de miséria e miseráveis que agora não conseguem, nem sabem como resolver a tramóia que montaram com anos de desonestidade.
Depois de tanta destruição que deixaram, ajoelharam perante as entidades “sigladas” e, num golpe de ignara subserviência, dobraram a cerviz de todo um povo e exclamaram: “Consummatum est “


                                                                  (imagem da net)
Entretanto, o salafrário dos salafrários mistifica e diviniza, numa miserável entronização, não a Santa da Ladeira, mas a Santíssima Senhora da Troika, a quem agradece, em solene litania e enaltecido epitáfio, o “FINIS TROIKAE”, como se as coisas más acabem com orações ou milagres ou, mesmo, quando os salafrários decretam.
Realmente estes momentos de tragicomédia mostram que estamos entregues a uma corja de experimentalistas que confirmam a exclamação anterior, com aditivo prévio: estamos fritos, o mal “consummatum est”! 


terça-feira, maio 07, 2013

Verdades amargas... tempos perdidos

                                                            (imagem da net)


Remexendo nos meus viciados ebooks, esbarro-me neste espécime, cuja ortografia não molestarei, publicado em 1870:

“VERDADES AMARGAS

ESTUDO POLITICO DEDICADO ÁS CLASSES QUE PENSAM, QUE POSSUEM E QUE TRABALHAM
 
POR:CLAUDIO JOSÉ NUNES

LISBOA

TYPOGRAPHIA DE FRANCISCO XAVIER DE SOUSA & FILHO 26, Rua do Ferregial de Baixo, 26             
*1870*
Ha na vida dos povos alguns momentos em que é honra e proveito o trabalharem todos os cidadãos na redempção da patria commum.
O nosso paiz atravessa uma hora difficil.
De norte a sul, em todos os recantos d'este velho torrão portuguez, o edificio social escaliça e range, como se houvesse caído sobre elle uma d'essas biblicas maldições que imprimiam o cunho de uma irremissivel fatalidade.
As forças vivas do paiz vão esmorecendo n'um deploravel abatimento. Definha o commercio; retrae-se a industria; a agricultura vê seccar os peitos uberrimos.
Sobre os factores da riqueza nacional anda uma athmosphera suffocadora. A intelligencia annuvia-se; o capital adormece; o trabalho espreguiça-se.
O melhor e maior de todos elles, a confiança publica, declina rapidamente para um funestissimo occaso.
Porque?
Porque um povo não vive só do que palpa e do que vê. Transpõe-se o rio; corta-se o monte; povoa-se o estalleiro; fertilisa-se o solo; mas se todo o progresso material fôr automaticamente produzido, sem que o illumine uma faisca d'esse espirito publico, que constitue a alma das grandes nações, tarde ou cedo a ephemera florescencia murchará de encontro ao mais ligeiro attricto.
E assim é.
Quiz Portugal acompanhar a Europa no caminho da civilisação. Poz a estrada aonde era o barranco e o caminho de ferro aonde era a estrada. Estimulou a producção pelo consummo e o consummo pela producção. Fez do credito a alavanca de multiplicadas emprezas. Viveu em vinte annos o que não vivêra n'um seculo. Mas como, no meio d'esse tumultuar de interesses, não quiz ter olhos e coração para o culto das cousas do espirito, vê-se hoje a braços com uma crise angustiosa, nascida em grande parte da relaxação moral em que labora o paiz, debaixo do ponto de vista politico e social.”

                             ***                             
Temos um governo que é encabeçado por ignaras personagens, com boçais atitudes de criadores de gado selvático, habituados a pés quentes e chão mole desde a sua chuchada infância e lambuzada adolescência. Tudo tiveram do bom e melhor, mas redundaram em trapaceiros do conhecimento, teóricos do absurdo e manipuladores de geringonças. Do empanturrado nada que conhecem, apenas aproveitam e persistem na prática do mesmo nada. Jogando as figuras, diremos que nadam em nada, de forma danada.

Quem são as vítimas de tais abantesmas?  
Primeiro que tudo aqueles que não os plantaram nas suas torres de marfim; depois aqueles que se sentiram confiantes e lhes concederam o benefício da dúvida, alguns até seus seguidores e comparsas nas loucas viagens rumo ao abismo. Dos primeiros sinto alguma compaixão, porque neles me incluo e sei o que custa aturar quem não elegemos para amigos ou companheiros; dos segundos, lamento a sua angústia e sofrimento, pela forma como se deixaram seduzir pelo canto das sereias e agora vão libando o cálice de fel.

Que fizeram e fazem os vendedores de falsos sonhos e angariadores de fome e miséria?
Colocaram nos seus tacanhos cérebros auréolas de falsa sapiência, criaram bodes expiatórios entre seus antecessores, apontaram dedos, como armas, a todos que os sombreavam e, cedo, conseguiram virar meio mundo contra outro meio, com teorias neoliberais sobre o peso e contrapeso da dicotomia público/privado. Apenas lhes interessava criar raízes de plutocracia e algumas lianas para se apoiarem no seu futuro egoísmo. Que se lixe o futuro dos outros, que se lixe o povo, que se lixem as futuras eleições, que se lixe o país… só os fortes (entenda-se protegidos) sobreviveriam.
Para uma política de faca e alguidar, conviria cortar muitas cabeças, essencialmente as que estivessem mais à mão de ceifar, sem mexer nos protegidos. Nada de “cismas grisalhos” porque o futuro da sua “grisalhice” estava antecipadamente próximo, sem acrescidos sacrifícios. Aliás não conviria ferir amigos da pia colectiva, que gozavam frutos duma “grisalhice” dourada e antecipada. Que se lixem os vindouros, pois não precisam da juventude total, bastando os protegidos. Outros grisalhos, de menor estirpe, aguentarão até sentirem o fundo das sepulturas, onde levantarão um novo mundo para os jovens regressados da lonjura do seu compulsivo desterro.
Podem crer que gostaria, mais tarde, de ver estas ignaras personagens, actores de um filme de terror e dum luso pesadelo, arrastarem-se em psicopáticos recantos, bêbados e delirantes com a sua doxomania.


Para terminar, gostaria de colher mais um pouco das “verdades amargas”, pensando um pouco na forma como a repetição de factos e anti-factos têm prevalecido através dos tempos. Creio, contudo, que sempre haverá uma salvífica solução, mesmo que construída sobre milhares de cadáveres fabricados pelas maquiavélicas atitudes de ignaras personagens, com boçais atitudes de criadores de gado selvático, habituados a pés quentes e chão mole desde a sua chuchada infância e lambuzada adolescência.

                                                                             (imagem da net)
                         
***                             

"Diga-se a verdade, custe o que custar. Não é com o silencio que se dá rebate a um povo em perigo. Ponha-se o cauterio na ferida, embora as carnes estremeçam com a dor.
O verdadeiro patriotismo não cala nem dissimula; descobre e repara.
E o remedio urge. Um veneno subtil, mescla atroz de apathia, de relaxação e de egoismo, vai-se lentamente infiltrando por quasi todas as camadas da sociedade portugueza e acabará por matal-a, se contra elle não reagir a poderosa triaga de moralisadora e energica acção.
Sem criterio moral não terá o paiz o sentimento de seus direitos e de sua responsabilidade.
Se lhe faltar esse duplo sentimento, faltar-lhe-ha a vontade propria.
Sem vontade propria não ha elementos de boa politica.
Sem boa politica não ha governos estaveis.
Sem estabilidade nos governos não ha confiança publica.
Sem confiança publica não ha grangeio de riquezas.
Sem augmento de riquezas não se avoluma facilmente a receita do estado.
Sem equilibrio no orçamento vai-se direito á ruina.
Ruina que não provém, pois, unicamente de razões physicas occasionaes, mas que tem raiz e tronco na condição moral em que vivemos."