terça-feira, março 22, 2005

O CDS-PP... Freitas do Amaral...e Administração Bush "and friends"

Ontem na apresentação do Programa do Governo notou-se, sem necessidade de perspicácia maior, que o azedume dos maus fígados continuava à flor da mente dos deputados do CDS-PP (mais PP que CDS), no que se referia à presença do Dr. Freitas do Amaral, como Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. A ofegante crispação, as palavras dardejantes e viperinas do Dr. Paulo Portas e sua comitiva ecoavam sonoras na amplitude do hemiciclo, contra o seu adversário de ocasião, e num manifesto apoio às políticas pró-W.Bush. O ressentimento estava ainda latente e fervilhava-lhes nas veias e artérias, com pulsações ecoantes no silêncio ambiental, e frémitos visíveis a olho nú. Até parecia que Bush era o Deus e o verdadeiro guru da seita PP(ista), o intocável do momento político internacional e português. Ainda bem que o visado lhes prestou uma atenção proporcional ao seu (deles) parco valor representativo no hemiciclo, mas sem os zurzir ou desconsiderar.
Sei que as opiniões do Dr. Freitas do Amaral sobre a política de Bush feriram as sensibilidades da direita mais fanática do nosso país, mas devo dizer que comungo da maioria das suas opiniões sobre esse maléfico promotor do terrorismo no Médio Oriente, criminoso de guerra e desrespeitador das normas internacionais, que se marimbou para as directrizes da ONU, tal como os seus amigos judeus de Israel, com o único intuito de se afirmar o mais forte do Mundo, que manda e faz o que quer e quando quer. Será isto espelho de DEMOCRACIA? Se é, então os compêndios políticos e a deontologia dos seus praticantes estão errados. Quais trogloditas, escusamos de frequentar escolas e devemos voltar à lei da selva, onde impera a lei do mais forte e, onde a inteligência e a ética não têm cabimento.Ou estaremos perante os tão vaticinados tempos da Besta do Apocalipse?
Sabemos que ainda é recente a nomeação de Paul Wolfowitz (segundo dizem, pouco especialista em assuntos de economia de crescimento e de desenvolvimento económico) para suceder a J. Wolfensohn a partir de 01/06/05 à frente do Banco Mundial. Sendo este uma instituição que funciona sob a égide das Nações Unidas e procura implementar o desenvolvimento económico em países mais necessitados, estamos mesmo a ver que, sendo essa nomeação praticamente feita pelos Estados Unidos, a sua administração Bush vai-lhe dar o destino que se está a adivinhar...reconstrução do Iraque e Afeganistão ( que destruiram, "motu proprio"), além doutros países pobres da sua confiança política, imaginamos. Pois bem, e quem irá receber esse dinheiro lá aplicado? Provavelmente "reconstrutores" americanos (os preferidos) e os "friends" dos States...Será que Portugal irá ser contemplado? Duvido, meus caros. Já nem quero falar do FMI, outra instituição bem conhecida e também controlada pelos States, devido ao seu peso indiscutível no controlo da economia mundial. Mesmo sendo um país tão grande em vários sentidos, essencialmente no desenvolvimento económico (apesar dos enormes desequilíbrios sociais, e enorme pobreza...) creio que não lhe ficaria nada mal permitir alguma rotatividade e maior decência na direcção dessas instituições de enorme peso e influência mundial.

quarta-feira, março 16, 2005

Chegar, observar...programar melhor

Não sei se a constituição deste Governo defraudou as expectativas gerais, mas na realidade contava já com elenco similar, para além deste ou daquele nome mais sonante, ou de alguém recuperado dos Governos guterristas. Desiludiu-me apenas, como a muitos como eu, a anémica representatividade feminina que se quedou por dois ministérios, em dezasseis, e por quatro secretariados de Estado, em trinta e cinco. Parece-me pouco se atendermos que as mulheres hoje representam uma belíssima fatia dos nossos quadros técnicos superiores, algumas de elite e valor relevante. Mas nada se perde, acreditando que não se vai cair na loucura de movimentações feministas de Mulheres Socialistas (e “independentes” afins) , essencialmente de algumas que já passaram pelos Governos Socialistas e não me deixaram qualquer saudade. Receio um pouco a falta de “poder de encaixe” de mulheres com valor reconhecido, como Ana Benavente, Edite Estrela, Ana Gomes e outras, mas o poder não pode contemplar todas as que por lá passaram...e valores há muitos, felizmente, fora os que não militam nas cores Socialistas. Estamos expectantes perante o Programa a apresentar e que queremos ver cumprido, para além de todos os défices e querelas económicas e laborais. Espero que na reestruturação da Administração Pública sejam revistas as mordomias exageradas dos políticos, acabando de vez com tanto gasto, tanta ostentação e, acima de tudo com direitos que outros funcionários não têm, dentro e fora da Administração Pública. É preciso rever as subvenções e indemnizações dos “boys” do poder político, as contagens a dobrar do tempo de serviço (um autêntico bónus, imerecido, que menospreza e avilta qualquer funcionário que luta diariamente em trabalhos de muito maior risco), e muitas outras alcavalas de ordem logística quotidiana, para já não falar de honorários abastados, quando também comparados com os de muitos quadros técnicos superiores que trabalham para a Administração Pública. É preciso acabar com cidadãos de primeira e de segunda dentro do funcionalismo público, incluindo os políticos que são transformados em funcionários públicos transitórios e efémeros, mas que comem a maior fatia do orçamento da Função Pública. Acabem com essas discrepâncias injustas, mas acima de tudo acabem mesmo com a pobreza e a miséria deste país que se pretende europeu e de vanguarda.
Ontem li no Correio da Manhã um inquérito que questionava as pessoas (não referia o global de inquiridos) se estavam de acordo que o tempo de serviço dos autarcas valesse a dobrar (só nos primeiros dez anos?) e 96% foram peremptórios no NÃO; apenas 4% disseram SIM (familiares de...ou autarcas?). Cada um tire a sua ilação, mas cá está uma coisa que se deve extinguir. Ridículo que um representante da Assembleia Municipal, que trabalha lá quase de borla, não tem sequer um dia a mais por cada ano de representatividade nessa função de deputado municipal...injustiças de um país que só serve o poder político e alguns seus correligionários.

Já agora não queria deixar de fazer uma alusão ao retorno das Secretarias de Estado a Lisboa. Muitos não gostaram, por óbvias razões, mas na realidade, embora eu seja um apaniguado da descentralização do Poder, acho que, no contexto político e económico do momento, se exige maior eficiência e menores dispêndios, de acordo com Sócrates, já que a distância e a despesa eram maiores. Convirá é governar bem e sem os pruridos de que cada terra deveria ter ou manter uma Secretaria de Estado.

terça-feira, março 08, 2005

Freitas do Amaral...o renegado.

Achei extremamente curioso o facto de o CDS-PP enviar o retrato de honra do Prof. Freitas do Amaral, da sede do partido para o Largo do Rato. Sem dúvida um acto corajoso dum partidozito em vias de extinção que, segundo imagino, vai colocar no lugar vazio a foto de Salazar, o verdadeiro mentor da criação daquele grupelho político de saudosos princípios, agora dominado por agitados e frenéticos betinhos de recente promoção. Não sei se também retiraram o quadro com o retrato do Dr. Manuel Monteiro, mas creio que seria lógico e consensual fazê-lo, em nome do verdadeiro espírito da caça às bruxas.
Qualquer dia será a vez do ainda actual líder, Dr. Paulo Portas, que por questões de continuidade na política, uma das suas grandes ambições de sempre, poderá ter que migrar de partido para usufruir de estatuto político, e então também será lançado janela fora, qual Vasconcelos traidor, duma qualquer restauração do século XXI.
Será que já não se prestam as honras devidas a quem teve, e tem valor indiscutível? E o respeito pela amizade de muitos anos?...Para o CDS-PP tudo é letra morta. Eis a verdadeira face de um partido democrático! Eis a verdadeira máscara de um partido fascista e fascizante...Já ouço, no horizonte próximo, um discreto Requiem pela quase esfarrapada família CDS-PPopular.

quinta-feira, março 03, 2005

Do riso à depressão...lusitano fado

Adoro ler a poesia do Zé Gomes, como chamavam ao poeta militante, José Gomes Ferreira, que em 1931, no intróito do seu livro “Poeta Militante I” já dizia numa belíssima composição que “Viver sempre também cansa.” Gosto imenso da parte em que diz: “Ainda por cima os homens são os homens./ Soluçam, bebem, riem e digerem/ sem imaginação.”

Isto vem a propósito dos recentes números que referem um aumento de 45% no consumo de antidepressivos em Portugal, nos últimos cinco anos. Mais, ainda durante o ano transacto, apenas ultrapassados pelos irlandeses, consumimos cerca de seis milhões de embalagens desses fármacos.
Afinal que raio de vida é esta, a dos portugueses, para, do tão badalado povo alegre e risonho, passar para o mais deprimido e tristonho?
Razões havê-las-á, mas serão múltiplas e discutíveis, no entanto não poderemos deixar escapar as condições sócio-económicas e financeiras, com alto índice de pobreza e miséria, desemprego, fome e outros condicionalismos terceiro-mundistas, por demais conhecidos de todos, mas subvalorizados e até menosprezados pelos sucessivos governantes.
Vivo na minha prática clínica diária, paredes meias com todas estas condições de degradação social que induz tamanho consumo de antidepressivos e muitas vezes outras atitudes que rasam o suicídio e suas tentativas goradas. Falar dos casos é apenas um acto de conhecimento superficial, mas, vivê-los no quotidiano, é um exercício de sofrimento solidário que não permite contemplações nem falta de lucidez.
Acredito que o Povo Português, apesar do sentimento trágico e sebastianista, com laivos de velhos do Restelo, terá, na realidade motivos para comportamentos ansio-depressivos. É triste pertencer-se a uma União Europeia, ter necessidades idênticas aos seus membros globais, partilhar despesas similares, mas usufruir de condições sócio-económicas e financeiras muito piores e de cariz terceiro-mundista. Contudo o que mais custa é ver-se um enorme desnível entre os pobres e os ricos deste país, sem que estes, na sua maioria, tivessem razões para tanta riqueza. Não estamos em tempo de subsídios de comiseração e salários de vergonha europeia, temos é que dar o justo a quem o merece e trabalha, acabando com os ciclópicos lucros de muitas empresas que deveriam procurar servir melhor e explorar menos. Não sou anti-capitalista, mas sou anti-monopólios, pois estes servem para subjugar economicamente um povo, já de si tão maltratado e explorado.
Não se admirem pois que o povo consuma drogas sob forma de ansiolíticos, antidepressivos ou, como muitos deserdados da sociedade que procuram na toxodependência o lenitivo das suas desgraças. Acima de tudo não pensem que os clínicos, psiquiatras ou não, se divertem com prescrições destes fármacos.
O Povo Português ri-se muito, mas não sabe se ri a chorar, ou chora sorrindo às desgraças que o molestam. A verdade é que mitiga as tristezas com antidepressivos ou com ânsias de lento suicídio, essencialmente quando já não acredita na força divina das preces.
Tal como comecei, e apesar de viver continuar a cansar (sempre), vou deixar um poema do mesmo autor, dedicado à Tristeza.

Tu, outra vez, Tristeza
- que vens do frio das lâminas
e abres nas flores
caveiras secas
num gelar de centelhas apagadas.

Tu, outra vez, Tristeza
- que iluminas os olhos de frio,
deste frio de alma
que corre por dentro do sol
num desânimo de lágrimas ocas.

Tu, outra vez, Tristeza
- como se o mundo fosse acabar
e saíssem cá para fora,
das pedras e das árvores,
garras de cinzas...