terça-feira, setembro 02, 2014

Requiem por um país de marinheiros...

                                                                           (imagem da net)

Num país à deriva, em águas revoltas, faz mais de três anos, timonado por vagabundos eleitos nas ondas da mentira, somos chegados ao ponto em que para além da pirataria, não há peixe na pescaria, não há jóias arrastadas nas redes e a água continua salgada numa autêntica impotabilidade.
País sem rumo, sulcando um mar de “erros e má fortuna”, definhando num horizonte sem sol-posto, e oprimido pelo ar tenebroso da bruma cinzenta.
Nada nem ninguém o leva a porto seguro, à claridade dum farol por demais ansiado. Já não existem Gamas nem Cabrais, e os deuses, embrenhados em lutas fratricidas, continuam cada vez mais loucos na disputa de poderes efémeros. As sereias já não enlouquecem a má tripulação da nau e os marinheiros continuam algemados aos remos ou dançando loucos, no revolutear das velas. Não há porto seguro à vista, nem se vislumbram os limites da costa.

António, isto já não é um “país de marinheiros”. Não ouses convidar o amigo Georges a ver o “país das naus, de esquadras e de frotas”! 

No gemente silêncio, de tantas bocas espavoridas, com medos pressentidos e  sufocados, sinto a ausência de um país que foi promessa esfumada. Esperamos a chegada da nau que zarpou em busca de migalhas para dar, mas demora surgir nos horizontes mais próximos. Velhos do Restelo, calcamos mil vezes as mesmas areias da praia, e nelas gravamos sulcos profundos que retêm a salinidade amarga das águas turvas que nos rodeiam.

Em todos os lugares, amarrados à esperança dos amanhãs que não virão, continuaremos a viver os sonhos transformados em pesadelos. A réstia de alguma esperança acabará por se diluir na espuma que resta das marés da nossa revolta.

No entanto é preciso acreditar, já dizia o poeta, porque depois da agressividade de uma onda revoltada, outra virá que nos poderá trazer a acalmia e a verdadeira mensagem de liberdade e justiça.

                                                                          (imagem da net)

António, vamos continuar e rezar com plebeias  lamúrias de gente simples:
“Senhora dos aflitos!
Mártir São Sebastião!
Ouvi os nossos gritos!
Deus nos leve pelas mãos!
Bamos em paz!”

terça-feira, maio 20, 2014

Em nome de “deus”… parafraseando, em nome de DEO

                                                                (imagem da net)
Deum de Deo, lumen de lúmine, Deum verum de Deo vero…
Assim se rezava no CREDO, em latim.
Credo! Ainda me recordo dos meus anos de seminário e a missa em latim.
Os funâmbulos do malabarismo político, parecem querer regenerar, em nome de Deus, a tortura dum credo contínuo, o chamado “credo na boca” que os portugueses sentem nas poucas côdeas a que têm direito, embora por linhas tortas.
Arranjam cada sigla, em contexto de guerra política, que quase parecem divindades a zelar a miséria dos penates. Sei que poder ainda vão tendo, embora anquilosado nos seus enferrujados gonzos, mas não há poder, essencialmente deste tipo, que seja duradouro.

Em nome de DEO (“deus”) sabemos que os ventos do IVA vão soprar mais fortes e assim todos saberemos que essa aragem de mais 0,25%, vai ser paga por TODOS. Afinal “deus” é amigo e na sua luz está a verdade que as vozes políticas renegam. São as mesmas vozes que propalam, com base em falsas, mas convenientes, raízes do mal, a libertação triunfal num cenário quase setecentista e sob a cronometragem dum defenestrável e irrevogável “Vasconcelos do século XXI”. Quase nos fazem crer que as guerras de alecrim e manjerona se transformaram nos amores de Romeu e Julieta.

Em nome de um “deus” castigador querem fazer-nos crer, com larachas à europeia, que nos libertaram da cloaca que somos, onde continuarão a desaguar todos os dejectos da agiotagem que os protege e nos promete, daqui a meio século, um mundo novo, mas sem memória do sofrimento e da sua própria autonomia. Seremos autómatos de uma Europa sem valores humanos e dum mundo onde vingarão os oportunistas e mentirosos.

Em nome de “deus” prometem o que não cumprirão, até porque já lá não estarão…mas o seu legado irá relembrar, em cada morte anunciada, as cinzas de dor que deixaram, em nome duma falsa salvação.
Jamais se dissiparão da memória os factos bem como a sua persistente e interessada distorção.


Em nome de “deus” o sangue do povo é sugado à custa de uma saúde reduzida à ínfima e milimétrica partícula, por grupos económicos interessados em viver sobre cadáveres ambulantes, zombies dum filme “Requiem por um SNS desmantelado”.


Um dia, como “os míseros cavalos lazarentos” de Nicolau Tolentino, todas as vítimas deste “deus” terão, como coroa e auréola, um majestoso epitáfio em honra dos seus sacrifícios, não “em negra pedra”, mas em “outdoors” e bandeiras partidárias, disseminadas pelo campo da hecatombe:

Aqui piedoso entulho os ossos come
Do povo mais estóico e explorado,
Que fora eterno, a não morrer de fome.


Assim, numa autêntica sinfonia de hossanas gritarão a frase com que os primeiros cristãos se despediam daqueles que morriam, desejando-lhes felicidade eterna: “Vivas in Deo”(que tu vivas em Deus)

Em nome de Deus (DEO), da luz (lúmen) que obscurecem e da verdade (verum) que deturpam, fazem-nos crer no seu DEO.

Eu, vítima como tantos, e menos que a maioria, apenas direi aos que ainda podem evitar ser personagens de um filme de terror: ACORDAI.

sexta-feira, abril 25, 2014

Hoje, mais que nunca... 25 de Abril "for ever"

                                                 (imagem da net)

Apesar de prolongada ausência neste recanto, hoje, fossem que horas fossem, não poderia deixar de passar em branco os 40 anos do dia da nossa verdadeira libertação, por muito que outros apontem outras datas,  elas também importantes, concordo. Mas esta tem um significado diferente e pôs termo a quase 50 anos de ditadura repressiva, algo anacrónica na Europa de então.

À data vivia os meus 21 anos de idade e estava a acabar a primeira metade do meu curso médico. Na minha faculdade, então H.E.S.João, andávamos em guerra com a polícia, a GNR e alguns bufos pidescos mal disfarçados, disputando algumas escaramuças à base de graníticos paralelos arrancados do pavimento nas imediações hospitalares, e a sempre irritante guerra das palavras e panfletos, para além de umas greves incomodativas para os dirigentes da época. A nossa micro-guerra subversiva inquietava o poder e desestabilizava as "autoridades" que pululavam pelos corredores da faculdade e não permitiam ajuntamentos de mais de três pessoas em conversa. Medo de quê? Não tínhamos armas nem minávamos a débil economia de então.
Tinha escapado à incorporação militar de 1973, pelo facto de ser estudante universitário. O regime pretendia formar médicos para depois os ter de borla, carne para canhão, na guerra do "Ultramar", como muitos que lá bateram com os costados, alguns com mais que uma comissão de serviço obrigatório.

Uma das grandes desilusões dos saudosistas e bem instalados seria a inevitabilidade da descolonização que se aproximava, com perdas de benesses para muitos, mas que acabaria com muitas mortes desnecessárias, cada vez em maior número, de filhos da pátria que lá nada tinham, de seu, para defender. Muitos dos então “retornados”, ainda hoje se sentem ressabiados com essa descolonização que, na verdade, também não foi bem conduzida mas por múltiplos factores e causas incluindo a impreparação bilateral da época e a avidez de muitos autóctones e estrangeiros. Na Europa algumas potências como a França e Inglaterra já se tinham libertado das suas colónias enquanto os governantes do nosso minúsculo país, abusando da escravização do seu povo, teimavam em não pôr cobro a quase quinhentos anos de colonização miserável e pouco profícua para os portugueses. Foram cerca de quinhentos anos em que Portugal nem sequer ensinou a sua língua à maioria dos colonizados e, das riquezas desses territórios, só uns quantos beneficiaram. Foram quinhentos anos de muito pouco proveito e muitas vidas perdidas.
Custou imenso a muita gente ver o nosso país reduzido à dimensão de cinco séculos antes. Ficamos limitados ao pequeno rectângulo ocidental, pré-descobertas. Talvez a nossa pequenez nos pudesse despertar e orgulhar da grandiosidade dos feitos dos nossos antepassados, mas a vaidade e a cobiça de muitos seria atingida e ferida de morte.

A excessiva e desumana opressão debilitava o povo, mas incentivava-o à revolta e libertação. Os que militarmente se expunham, vezes sem conta, aos perigos de morte inglória e por  obnóxias causas, começavam a magicar racionalmente nas razões de tanta persistência e teimosia dos nossos governantes aconchegados e resguardados no seu conforto da metrópole. Era necessário acordar e actuar contra essa teimosia e opressão. Quem melhor o poderia fazer se não os próprios militares. Assim, consciencializados da realidade correram o risco e…
                                                     (imagem da net)

Naquela dealbar de 25 de Abril, em 1974, as armas foram ninhos de cravos que o povo colheu para os libertadores. O sangue foi parco, os gritos foram globalmente de alegria e não de dor, mas os nervos foram de aço, para que tudo assim fosse.
O dia foi de libertação e os 40 anos até hoje decorridos, mostraram que somos um povo preparado para o futuro, apesar de muitos contratempos e de muito oportunismo, essencialmente de más práticas políticas, corrupção inusitada e abusiva e da agiotagem dos mercados internacionais. Onde existe um homem livre logo aparece alguém que o pretende explorar, fazendo jus ao velho lema “homo homini lupus”.

Lamento sobremaneira que os actuais governantes, eleitos com base em falsas promessas e pérfidas acusações, não cumpram com lealdade tudo quanto prometeram, o que implica autêntica ilegitimidade de poder. Pais que geram filho e o maltratam, com atropelos constantes, não podem ter legitimidade sobre esse filho. Assim, este governo já não tem legitimidade sobre a maioria que o elegeu, e as próprias sondagens mostram a repulsa que geraram com seus actos de mentira, perfídias e deslealdade. Trata-se, neste momento, de um núcleo duro empenhado em recuar ao 24 de Abril de 1974, não só em direitos cívicos mas também em valores remuneratórios e sócio-económicos. E não voltam a colonizar as antigas possessões porque lhes é impossível, mas vontadinha não lhes faltará. No entanto, como vamos assistindo no dia a dia, lá seguem vendendo Portugal a retalho, numa autêntica sinfonia de submissão e vassalagem aos mercados e aos usurários da agiotagem internacional.

Tudo isto implica que devem ser submetidos a demissão mais rápida possível, antes que desmantelem o resto de valores e o orgulho lusitano que ainda possuímos. Haja um outro 25 de Abril e defenestremos os Vasconcelos deste país.
                                             (imagem da net)

terça-feira, março 11, 2014

Evangelho troikano…parafraseando S. Mateus 25,31-46

 (imagem da net)


Ontem, após um belo pôr-do-sol e algo meditabundo, sentei-me na escrivaninha e, procurando o meu correio electrónico, deparei com o “evangelho quotidiano”, com que os monges capuchinhos me presenteiam. Abri e passei o olhar pelo evangelho do apóstolo S. Mateus.
Divagando meio entorpecido pelo cansaço, comecei a lobrigar algo que se poderia aplicar aos nossos dias, mesmo não sendo propriamente um estudioso dos evangelhos. Não sei se sonhava, se vivia alguns factos do nosso tempo…
O original é textualmente este que transcrevo:

Mateus 25,31-46.
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há-de sentar-se no seu trono de glória.  
Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos.  À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos.  

O Rei dirá, então, aos da sua direita: 'Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. 
Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me,  estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo. ‘ 

Então, os justos vão responder-lhe: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber?  Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos?  E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te? ‘ 

E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: 'Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes. ‘ 

Em seguida dirá aos da esquerda: 'Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos!  
Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber,  
era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me.”

Por sua vez, eles perguntarão: 'Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos? ‘
Ele responderá, então: 'Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer. ‘ 

Estes irão para o suplício eterno, e os justos, para a vida eterna.» 
***


(imagem da net)

(Adaptação aos nossos conturbados tempos):

Naquele tempo, dirá o Primeiro-ministro & Cia, aos seus súbditos:

«Quando a santíssima Troika, a Grande Ditadora, vier na sua glória, acompanhada de todas as instituições subservientes ao capital, há-de sentar-se nos seu trono de vitória.
Perante ela, vão-se reunir todas as vítimas da sua Grande Intervenção, e ela separará umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos.
À sua direita colocará as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos.

A Grande Ditadora dirá então aos da direita: “vinde, abençoados pelo meu Grande Chefe, recebei em herança as benesses que vos estão prometidas desde o início da Grande Intervenção. Porque tive fome de dinheiro e vós me alimentastes, tive sede de poder e vós me saciastes, era peregrina acossada e vós me recolhestes, estava demasiado exposta e vós me encobristes, estava despida de honestidade e vós me vestistes, estava moribunda de esquecimento e vós me despertastes, estava quase oculta e vós me trouxestes a luz”.

Então as ovelhas, as da direita, inocente e disfarçadamente dirão: “Senhora, quando foi que vos vimos com fome de dinheiro e vos alimentámos, ou com sede de poder e vos saciámos? Quando vos vimos peregrina acossada e vos recolhemos, ou demasiado exposta e vos encobrimos? E quando vos vimos despida de honestidade e vos vestimos, moribunda de esquecimento e vos despertámos ou oculta e vos trouxemos a luz?”

E a Grande Ditadora dir-lhes-á, em resposta: “Em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um dos meus irmãozinhos protegidos pelo sistema, a mim mesmo o fizestes.”

Em seguida, a Grande Ditadora dirá aos cabritos da esquerda: “Afastai-vos de mim, malditos, para o empobrecimento e miséria eterna, que estão preparadas para os malditos contestatários e para os seus apoiantes!  Porque tive fome de dinheiro e não me alimentastes, tive sede de poder e não me saciastes,  era peregrina acossada e não me recolhestes, estava demasiado exposta e não me encobristes, moribunda de esquecimento e não me despertastes, oculta e não me trouxestes a luz.”

Por sua vez, eles, os cabritos da esquerda, perguntarão: “Se vos vimos com fome de dinheiro, ou com sede de poder, ou peregrina acossada, ou demasiado exposta, ou moribunda de esquecimento, ou oculta, e não vos socorremos, foi porque acreditamos piamente que vós sois um embuste, uma falsidade, uma sanguinária e apenas protectora dos poderosos e mais ricos?”

Então a Grande Ditadora responderá:”Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de apoiar um destes meus irmãozinhos protegidos, foi a mim que o deixastes de fazer.” 

Então, pela famélica mão da Grande Ditadora, os da esquerda irão para um prolongado empobrecimento, e os da direita, para a vida abastada e plena de benesses»  


terça-feira, fevereiro 11, 2014

Dizer "NÃO" a quem… e quando o merece.

NÃO
NÃO
NÃO
E…sempre
NÃO

Dizer “NÃO” poder-se-á tornar uma das mais importantes declarações que qualquer indivíduo poderá fazer. Com esta atitude, se mostra a autonomia e legitimidade como pessoa, podendo ser, em certa medida, a forma de comprometermos a nossa dignidade. Enquanto seres livres temos o direito de não aceitarmos o estado de coisas que enfrentamos e as solicitações que nos fazem. É um direito inalienável que ninguém poderá negar-nos. Todavia, muitas vezes o preço de um “NÃO” paga-se bem caro, mas depende novamente de cada um pagá-lo ou não. Mesmo sendo alto o preço a pagar, como indivíduos poderemos continuar a exercer o nosso poder de insistir no “NÃO”. Na nossa história são múltiplos os exemplos de heróis, santos e quejandos que admiramos, porque incorreram em perigo de vida no exercício desse seu direito de dizer e insistir no “NÃO”.

Existem duas importantes instituições sociais que se baseiam no reconhecimento social do direito dos indivíduos dizerem o “NÃO”: a Democracia e o Mercado. Ambas se apoiam no direito do indivíduo escolher e este acto de escolha implica o direito de dizer “NÃO”. É óbvio que estas não serão as únicas instituições sociais em que este direito se manifesta, pois mal iria o mundo. Também não se poderá negar que lhes poderemos reconhecer algumas limitações.   

Para além de santos e heróis, de Democracia e de Mercados, convirá destacar a importância de se dizer “NÃO”, no quotidiano de cada pessoa, por mais simples que a mesma seja. Sempre que entendermos que deveremos dizer “NÃO”, mas não o dizemos, sentiremos comprometida a nossa dignidade. Sempre que dissermos “NÃO” e formos ignorados, deveremos sentir que fomos desrespeitados. Ao dizer “NÃO” fazemos uma declaração do respeito que temos por nós próprios e do que nos terão as outras pessoas. Tal, desempenha um papel nas nossas relações de partilha, de amizade, de trabalho, com nossos filhos, etc. Na forma como exercemos o direito de dizer "NÃO", acabamos por definir uma ou outra forma de estarmos na vida e para além disso definimos também uma ou outra forma de vida.
Há diversas formas de dizer “NÃO”, pois a simples pronúncia dessa palavra não é a única, já que tantas vezes dizemos “BASTA!” mostrando a disposição de não aceitarmos o que até então se aceitou, num processo a que pretendemos pôr fim.

Sem pruridos disse NÃO ao súcio e maestro do PSD, que nos idos de 2011 mentiu que nem bebé ávido pela chupeta dos seus prazeres e efémeros poderes.

Continuo a dizer "NÃO" à pestilência que exala das suas ideias e actos de vilania, à corja que lhe beija a mão como se dela dependesse o poder que não lhe cabe, nem referendado.

"NÃO" às atitudes de reverenda cobardia e submissão bacoca dum presidente (com minúscula do tamanho do seu carácter) que sempre disse saber do que falava e raramente se enganava! Tanto ano de protagonismo efectivo que o não foi nem será, e deixará na história a mácula de um homem, sombra de tanta vingança e corrupção mal disfarçada.

Digo a todos os ventos do planeta que "NÃO" acredito nos assassinos da esperança de um povo que depositou a sua sorte e destino nas mãos desta famigerada e insensível corja sem escrúpulos.

"NÃO" alinho nos pinotes dum “vice-qualquer-porcaria”, que promete mundos e fundos ilusórios, quando surripiou fortunas imensuráveis nas profundezas da sua megalómana pequenez. Promessas de um asno que anseia ser ginete de primeira água.


A estas bestas endeusadas direi sempre "NÃO", porque a razão me assiste e a verdade dos factos não acompanha suas mentiras e maquiavélicas ambições. 

(imagem da net)



terça-feira, dezembro 31, 2013

(imagem da net )
LIBERDADE

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...
      
                   (Fernando Pessoa)

(imagem da net)


Este Não-Futuro que a Gente Vive

Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros. 

(Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)")



                                              (imagem da net)

Sempre o Futuro, Sempre! e o Presente

Sempre o futuro, sempre! e o presente 
Nunca! Que seja esta hora em que se existe 
De incerteza e de dor sempre a mais triste,  
E só farte o desejo um bem ausente!  

Ai! que importa o futuro, se inclemente 
Essa hora, em que a esperança nos consiste, 
Chega... é presente... e só á dor assiste?... 
Assim, qual é a esperança que não mente? 

Desventura ou delírio?... O que procuro,  
Se me foge, é miragem enganosa,  
Se me espera, pior, espectro impuro... 

Assim a vida passa vagarosa:  
O presente, a aspirar sempre ao futuro:  
O futuro, uma sombra mentirosa.  

(Antero de Quental, in 'Sonetos')


imagem da net


Hoje, no fim de uma jornada obrigatória, deixo palavras alheias, de sonho e esperança, para transmitir parte do que me vai na alma e na mente. Não vivo, nem nunca vivi deprimido, no entanto os meus augúrios não serão os melhores. Nestes momentos adoraria estar enganado, mas não tenho hábito de sonhar acordado nem pretendo evidenciar-me com sibilismo catastrófico.
Apesar de tudo continuo a acreditar no futuro...que será uma realidade de muitos mas, nem para todos uma chama de felicidade



quarta-feira, outubro 30, 2013

Inter-textualizando Bertolt Brecht... mensagem aos mais incautos


Hoje é um daqueles dias que me apetece recordar  Bertolt Brecht, cada vez mais actual para a ignomínia que vivemos nesta amostra de país. Assim, retomei o seu poema "INTERTEXTO" e lembrei-me de  intercalar entre cada terceto uma breve divagação pessoal, passo a passo, na expectativa de transmitir alguma mensagem aos mais incautos.

(imagem da net)

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso,
Eu não era negro


[No nosso quotidiano, perante milhentos de factos e antifactos, assim nos portamos. Ninguém se desvitimize só porque tem esta ou aquela coloração… como sabemos, as manchas aparecem no melhor pano… e qualquer tecido é rasgável, com ou sem violência.
De que cor são as primeiras vítimas dos selváticos atropelos de governantes míopes e mentalmente insanes? Obviamente a miopia não os deixa compreender as cores, seja da pele, da roupa, ou das palavras soltas com revolta. Apenas vêem a bandeira descolorida do seu partido, o monolitismo anacrónico das suas ideias, a baça redoma que os rodeia e lhes embota olhar e raciocínio e, acima de tudo, a mais bela e adorada das suas cores ─ a do dinheiro. Aprisionaram a cor da verdade e pintaram-na de mentira… só os covardes fogem à verdade e da verdade.]




(imagem da net)
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário


[Será urgente dizimar bocas famintas e quem as alimenta. A força do trabalho já não basta para satisfazer a voracidade de políticos maquiavélicos, ávidos de espectáculo sem arena. Basta sentirem o cheiro da fome e ouvirem as lamentações do sofrimento. Mais um, menos um, que importa, robotiza-se o homem e humaniza-se o robô. Esprema-se o homem que do sangue emanarão frutos dourados. Se houver silêncio no massacre, melhor será a colheita.] 




(imagem da net)
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável


[Aos resistentes e revoltados que reclamam e bradam liberdade, oferecem-lhes grades e algemas, para que saibam que o calor que vitaliza a terra tem senhores e justiceiros, ávidos de divina potestade. Miséria e miseráveis a verdadeira simbiose que alimenta o vício dos plutocratas. Afastem-se os malefícios da miséria que poderão inquinar o prestígio da riqueza.]


(imagem da net)

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei


[Mensagem do contraditório:
Malditos sejam os párias que vivem da caridadezinha e se arrastam por dormitórios estelares, semeando esterco pelas ruas e vergonha na dupla face dos políticos. Emigrai bando de espantalhos ambulantes, pois não passais de odiosa mácula na textura de um país que ruma à perfeição ideal. A falta do trabalho é uma utopia, pois vós, trabalhadores, não passais de infames exploradores dos bem intencionados empregadores, quando pretendeis espoliá-los do excessivo lucro.]


(imagem da net)


Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.


[A indiferença e apatia dos homens não só geram mas também têm um nome ─ hecatombe.
O sol só brilhará se as nuvens negras e revoltadas o deixarem. As cores só brilharão se existir luz que lhes evidencie os contrastes. Os homens só serão senhores se tiverem servos, mas apenas serão homens se forem tratados como iguais. Não vale a pena adular fantoches e bater-lhes palmas, pois as mãos que hoje as batem, amanhã lançar-lhes-ão pedras de raiva e vingança Nessa altura todos se importarão comigo, contigo e, imagine-se, até consigo próprio. Todavia… poderá ser tarde demais!]

Para rematar esta divagação deixarei mais este doce do mesmo autor:
Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam muitos dias, e são muito bons;
Há homens que lutam muitos anos, e são melhores;
Mas há os que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis!