domingo, outubro 21, 2012

Pobres e Ricos...a indiferença

                                                                       (imagem da net)

Fiquei deveras sensibilizado com o sentido de justiça social de José Mujica, descrito neste artigo de Anselmo Borges, no DN de 20/10/12:

«A gente nem quer acreditar, quando lê, em Isabel Gómez Acebo e no Courier International, o exemplo impressionante do presidente do Uruguai, José Mujica. Após a eleição, continua a viver na sua pequena casa, numa zona da classe média, nos arredores de Montevideu. Tem um salário de 12500 dólares mensais, mas dá 90%, vivendo com 1250 (que lhe basta, pois muitos concidadãos vivem com menos). A mulher, a senadora Lucía Topolansky, também dá a maior parte do seu salário. Como transporte oficial utiliza um Chevrolet Corsa. Durante o Inverno, a residência oficial servirá de abrigo aos sem tecto. Mandou vender a residência de Verão do presidente, e o resultado da venda destina-se, entre outros usos, à construção de uma escola agrária para jovens sem posses.
Na reunião do Rio+20, pronunciou um discurso especial. Aconselhou a uma mudança de vida, pois foi para sermos felizes que viemos ao mundo. Ora, na sociedade actual, vivemos completamente obcecados com o consumismo: trabalhamos para consumir sempre mais... tendo de pedir empréstimos que temos de devolver, e esquecemo-nos da felicidade. É este o destino da vida humana? Terminou, estimulando à luta pela conservação do meio ambiente, porque "é o primeiro elemento que contribui para a felicidade"».




(imagem da net)

Aqui, e não só, o filme é irrealista e impensável. Já imaginaram os nossos políticos, incluindo os milionariamente reformados, tomarem uma atitude similar? Para já não falarmos dos excelentíssimos e diamantinamente reformados ex-gestores do sector bancário, como esse “desgraçado” do Jardim Gonçalves que, num mês, aufere valores vertiginosamente anómalos para um País que se encontra a cair de miserável, o nosso POOR-TUGAL=(POBRE-TUGAL), parafraseando “The Economist” (vide http://www.economist.com/news/europe/21564902-yet-another-austerity-budget-raises-concerns-about-future-growth ). Cerca de 170.000 euros por mês, é um escândalo! Este dinheiro mina, aceleradamente, a sustentabilidade da segurança social, pois já não são os fundos da banca que lhe pagam a pensão, nem sequer qualquer instituição privada. Para estes espécimes é que o Estado deveria falir, ou então deveria haver uma forma de os eliminar, para se evitarem os incomportáveis saques. Já não me espanta a indiferença e tolerância do poder político, perante estes casos, pois além doutros, que têm semelhantes pensões, estes políticos querem pertencer ao mesmo clube diamantino. Por isso pretendem, com a máxima rapidez, privatizar as empresas públicas, para se candidatarem a gestores privados… adivinha-se.

Sei que já muito se falou de gorduras e sua lipólise, no entanto parece que o besunto não derrete, neste País, escandalosamente heterogéneo na sua contextura “física”, com dismorfias em excesso. Os políticos dizem que já pouco resta de massa gorda para cortar. O povo, numerosamente mais relevante, afirma e grita que as gorduras estão por cortar, apesar de muitas outras, ocultas em locais inacessíveis.
Fala-se de milhares de automóveis estatais que deveriam, pura e simplesmente ser eliminados em tudo que é instituição ao serviço do Estado, desde autarquias, ministérios, fundações, empresas públicas, etc. Não consumiriam combustível nem oficina e não gastariam condutores, com imobilidade de 70% a 80% do seu dia de serviço; não pagariam seguradoras nem IUC. Desconheço quanto se pouparia num ano, mas evitar-se-ia aumento de alguns impostos ou cortes de ordenados e pensões.
Reduzir e tabelar, com justiça e equidade social, o valor de remunerações da cambada de gestores e pseudo-gestores. Quantos milhões não se poupariam. Para quê tanta canzoada nas múltiplas gestões de empresas estatais? Há que eliminar a maioria dos adjuntos e não executivos, reduzindo-os ao mínimo necessário, para uma boa e eficiente gestão. Sei que “os amigos” e “boys” dos partidos são muitos, mas o povo é quantitativamente mais e com maiores necessidades.
Porque se demora a retirar aos políticos e aos partidos as vergonhosas “subvenções”. Deveria ser retirado esse valor a quem o recebe por ter exercido um acto político que deveria ser de pura cidadania. Nada de prémios vitalícios imerecidos e atribuídos por míseros anos de exercício. Uma vergonha! Para os partidos, nem mais um cêntimo de “subvenções”. É um roubo ao povo e o Estado não deveria subsidiá-los.
Sei que isto é demasiado repetitivo e badalado, mas acredito que os políticos, cada vez mais, têm necessidade que lhes zurzam os ouvidos e até muito mais que isso…mas a lei é dura!
Acabarei apenas com uma observação altamente evidente: a paz interina que o Governo vive, não é tão sadia quanto pretendem fazer transparecer. É uma PAZ PODRE! Cairá de putrefacta.


quarta-feira, outubro 10, 2012

O mentiroso...e vozes de burros

(imagem da net)
Hoje não vou falar das actuais atribulações de Pedro, o pegureiro. As incertezas ainda não lhe afastaram a quase libidinosa vontade de serigaitar, enquanto beija a sua flauta de Pã.
Vou falar da sua grande qualidade, cada vez mais notória, da arte de ludíbrio. Zombeteiro sempre foi, creio que mesmo ao nascer terá escarnecido da arte de bem-nascer.
Já garoto de fralda, zombava do pó de talco vulgar e exigia esfregação mais cremosa, quiçá “fraldine” ou “lauroderme”. Quando gatinhava, procurava mais imitar a ferocidade animal que a brandura das ovelhas. Era quase inata a tendência para a superioridade e sobranceria.
Tirando os seus dotes de cantadeiro, que haveria mais tarde de aperfeiçoar, sempre primou pela arte da logração. Mas desconhecia que ninguém enganaria, sem que viesse a ser enganado.
Ainda infante, de sacola às costas, pegava na fisga e atirava aos pardalitos, mas, por vezes a pedrita desviava do alvo, quem sabe se por matreirice, e lá acertava num colega. Queixando-se o maltratado, logo Pedro se defendia: “Foi ele que se meteu à frente!” Os colegas já sabiam, com dom Pedro, nada de inimizades… tinha poder e fisgas. Alguns dos penduras até o desculpavam e beneficiavam dumas tainadas no seu quintalejo, desde que o bajulassem e defendessem. Tornava-se um verdadeiro pastor e já controlava os que o rodeavam.
Na sua adolescência, manteve o rumo e inscreveu-se no grupo dos dominadores e seus aprendizes. Conheceu artilheiros, como ele, já não de fisgas, mas com manuais de “Boa arte de cavalgar e pastorear em toda a selva”.
Frequentou simpósios e “workshops”, congressos e seminários, para se tornar um verdadeiro manipulador e dominador das reses. Tudo valia na marcha rumo ao vértice da pirâmide. Mentiras, seriam acidentes de percurso, formas de sobrevivência, eficácia no desenrasque. Era necessário dominar os animais, enganando-os com falsas promessas e desvios de atenção. Importante era o vértice da pirâmide. Dali poderia, sem tergiversações, vigiar e orientar qualquer rebanho ou manada. Era um verdadeiro técnico em forma e estava apto, com distinção, a ser empossado para a gestão de qualquer causa, no mundo da pastorícia.
Assim, entre o trautear dos seus gorjeios e as mentiras, tão puras como verdades, o nosso Pedro, o pegureiro, chegou a rei das pradarias e pastagens, depois de muito queimar os neurónios, na prazenteira “Boa arte de cavalgar e pastorear em toda a selva”.

(imagem da net)

Contactou e convidou o seu inseparável amigo Micas, o comparsa de todas as estroinices desde menino, já moço. Este, já mais habituado às deambulações por píncaros e valados, e às vozes e berros alheios, ensinar-lhe-ia as técnicas do desprezo, da subjugação e do desinteresse. Seguiria o lema da “ovelha que berra, bocado que perde”.

Duma coisa lhe ficou a certeza: atingir o cume da pirâmide, até nem foi difícil. Contudo, agora, naquela montanha onde apascentava o seu rebanho, perante a bruma dos tempos, ficava-lhe uma incerteza: “como  poderei manter-me, sem cair, no cume da pirâmide?”

Consultado, o Micas, impado e do alto da sua sábia ignorância, logo lhe disse: “ó pá, afronta os animais, espezinha-os, engana-os… como bem sabes”. Pedro, atento, mas absorto, limitou-se a grunhir: “Hum! Isso mesmo!

Claro que não ouvindo a voz do vento, nem a inquietação dos animais, a incerteza de Pedro não teria resposta. Vozes de burro seriam melhor conselheiro!
  




terça-feira, outubro 02, 2012

A educação de Pedro e... a realidade.

(imagem da net)

A educação de Pedro iniciou-se, quiçá, para lá das corcovas, a sul do Atlas. Foi embrião e nascituro alambazado de melífluos privilégios. A sua infância decorreu na rebeldia e sonho da savana. Por motivos familiares regressou às continentais pastagens e tornou-se um iniciado na aprendizagem do pastoreio onde procurou adquirir conhecimentos, mas os prazeres desviaram-no para longos devaneios.
Outros pastores, matreiros e demasiado ocupados na conquista de pecúlio, procuravam, nos encontros fortuitos, incutir-lhe ideais de boa gestão de rebanhos.
Já moço, enamorou-se duma ovelha e galantemente trauteava solenes “mémés”, numa doce melopeia de paixão e narcisismo. Deliciava-se a flautear enquanto outros efectuavam a limpeza dos bebedouros e aprendiam a fazer arranjos no redil e nas vedações. Para quê a prática, se uma leitura fugaz dos manuais de teoria lhe iria colmatar a santa ignorância. Não faltariam outros pastores que lhe tosquiariam as ovelhas e as ordenhariam. Se fosse para um assado, vá lá, até se daria ao trabalho de sacrificar, ele mesmo, um dos animais. Encher estômago soa a bela música.

(imagem da net)
Tarde, tardiamente, sentiu novo apelo de aprendizagem, pois acenaram-lhe com possibilidades de apascentar noutras paisagens e colher maiores lucros e, acima de tudo, maior prestígio. Aconselhou-se com alguns veteranos, besuntados de poder e dinheiro fácil. Inscreveu-se na escola privada, mais a jeito e ao sabor dos seus conselheiros e, a breve trecho, atingiu os seus objectivos. Já poderia ocupar-se de vários pastos e lançar-se nas novas técnicas de desenvolvimento pecuário. Os amigos que calcorrearam idênticos trilhos, procuravam adulá-lo e conceder-lhe algum preito pela sua importante façanha, mais não fosse, para poderem compartilhar novas amizades colaterais. Estas poderiam guindá-los a novos posicionamentos na hierarquia pastoril.

Assim, passou-se o tempo da flauteada musicalidade e teve que se candidatar a mais altos voos. Afinal os seus mestres gabaram-lhe abundantes virtudes e parcos defeitos. Ali estava o verdadeiro pastor! Um homem que bebeu as mais puras e cristalinas águas do conhecimento de liderança animal e atingiu o apogeu da arte de bem pastorear. Procurou experiências baseadas na eficácia do “Princípio de Peter” e, cautelosamente e à socapa, introduziu na contracapa da sua carteira pessoal, um pequeno cartão com o seu novo lema de trabalho, escrito a letras douradas: "In a hierarchy, every employee tends to rise to his level of incompetence". Religiosamente o seguiria, acoplado às novas teorias neoliberais que absorveu na sua escola privada, à luz dos conselhos de mentes estereotipadas.

Não foi preciso muito tempo e Pedro guindou-se para além dos limites que tinha previsto. Afinal o seu valor era imensurável, o seu conhecimento de economia animal e territorial extravasava sobremaneira tudo quanto era humanamente possível. Bem, um deus não seria ele, mas poderia talvez equiparar-se, sem quaisquer veleidades, a um autêntico imperador. Chegou inclusive a pretender mudar o seu lema, num camaleonismo pretensioso, para : “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificaremos o teu império”.

Fosse como fosse, Pedro chegou onde pretendia. Subiu na hierarquia pastoril, depois de algumas contendas com outros pastores que lhe obstaculizaram a marcha triunfante rumo às melhores pastagens do território.
Não foi custosa a jornada rumo ao vértice da pirâmide. Bastou prometer mundos e fundos que apesar de impossíveis, a maioria das suas ovelhas e colegas de profissão, não entenderiam. Utilizaria anacrónicos silogismos e as conclusões chegariam à feição das suas pretensões e com refinados retoques de saloia sabedoria.

(imagem da net)
Hoje, Pedro continua na montanha, nos píncaros da sua estrutura, e teima aguardar os frutos das suas anacrónicas teorias, algo secundado pelos ditos e escritos de alguns dos seus anquilosados mestres. Mas os tempos não correm de feição. Afinal as teorias não estão a surtir eficácia. Parece haver inquinação no sistema, mas a sua relutância, e de alguns seguidores, levam-no à indiferença, e continua fechado na sua “torre de marfim”.

Os lobos continuam na expectativa de satisfazer a sua voracidade. As ovelhas continuam submissas, mas desconfiadas, face à indiferença do seu amo e ao progressivo definhar do pasto. Os cães continuam fiéis, mas a parcimónia vai-lhes aguçando a fome e afiando os dentes.
Pedro, apesar de não escutar a mensagem do vento que passa, começa a sentir-se, não o alicerce do império, mas o pântano de futuras desgraças.