quarta-feira, outubro 10, 2012

O mentiroso...e vozes de burros

(imagem da net)
Hoje não vou falar das actuais atribulações de Pedro, o pegureiro. As incertezas ainda não lhe afastaram a quase libidinosa vontade de serigaitar, enquanto beija a sua flauta de Pã.
Vou falar da sua grande qualidade, cada vez mais notória, da arte de ludíbrio. Zombeteiro sempre foi, creio que mesmo ao nascer terá escarnecido da arte de bem-nascer.
Já garoto de fralda, zombava do pó de talco vulgar e exigia esfregação mais cremosa, quiçá “fraldine” ou “lauroderme”. Quando gatinhava, procurava mais imitar a ferocidade animal que a brandura das ovelhas. Era quase inata a tendência para a superioridade e sobranceria.
Tirando os seus dotes de cantadeiro, que haveria mais tarde de aperfeiçoar, sempre primou pela arte da logração. Mas desconhecia que ninguém enganaria, sem que viesse a ser enganado.
Ainda infante, de sacola às costas, pegava na fisga e atirava aos pardalitos, mas, por vezes a pedrita desviava do alvo, quem sabe se por matreirice, e lá acertava num colega. Queixando-se o maltratado, logo Pedro se defendia: “Foi ele que se meteu à frente!” Os colegas já sabiam, com dom Pedro, nada de inimizades… tinha poder e fisgas. Alguns dos penduras até o desculpavam e beneficiavam dumas tainadas no seu quintalejo, desde que o bajulassem e defendessem. Tornava-se um verdadeiro pastor e já controlava os que o rodeavam.
Na sua adolescência, manteve o rumo e inscreveu-se no grupo dos dominadores e seus aprendizes. Conheceu artilheiros, como ele, já não de fisgas, mas com manuais de “Boa arte de cavalgar e pastorear em toda a selva”.
Frequentou simpósios e “workshops”, congressos e seminários, para se tornar um verdadeiro manipulador e dominador das reses. Tudo valia na marcha rumo ao vértice da pirâmide. Mentiras, seriam acidentes de percurso, formas de sobrevivência, eficácia no desenrasque. Era necessário dominar os animais, enganando-os com falsas promessas e desvios de atenção. Importante era o vértice da pirâmide. Dali poderia, sem tergiversações, vigiar e orientar qualquer rebanho ou manada. Era um verdadeiro técnico em forma e estava apto, com distinção, a ser empossado para a gestão de qualquer causa, no mundo da pastorícia.
Assim, entre o trautear dos seus gorjeios e as mentiras, tão puras como verdades, o nosso Pedro, o pegureiro, chegou a rei das pradarias e pastagens, depois de muito queimar os neurónios, na prazenteira “Boa arte de cavalgar e pastorear em toda a selva”.

(imagem da net)

Contactou e convidou o seu inseparável amigo Micas, o comparsa de todas as estroinices desde menino, já moço. Este, já mais habituado às deambulações por píncaros e valados, e às vozes e berros alheios, ensinar-lhe-ia as técnicas do desprezo, da subjugação e do desinteresse. Seguiria o lema da “ovelha que berra, bocado que perde”.

Duma coisa lhe ficou a certeza: atingir o cume da pirâmide, até nem foi difícil. Contudo, agora, naquela montanha onde apascentava o seu rebanho, perante a bruma dos tempos, ficava-lhe uma incerteza: “como  poderei manter-me, sem cair, no cume da pirâmide?”

Consultado, o Micas, impado e do alto da sua sábia ignorância, logo lhe disse: “ó pá, afronta os animais, espezinha-os, engana-os… como bem sabes”. Pedro, atento, mas absorto, limitou-se a grunhir: “Hum! Isso mesmo!

Claro que não ouvindo a voz do vento, nem a inquietação dos animais, a incerteza de Pedro não teria resposta. Vozes de burro seriam melhor conselheiro!
  




2 comentários:

Maria disse...

Se todos os espezinhados abanassem a pirâmide, ele acabaria por cair.
Espezinhados! Abanem a pirâmide, já!
Maria

dbo disse...

Cara Maria, desculpe-me a morosidade, mas outros afazeres me ocuparam.
Obrigado pelo incentivo pois parece que a ouviram. Um vértice basal e insular já abanou e também os sacudiu com veemência... a partir de hoje talvez novos abanões vão surgindo na base da pirâmide. Oxalá Pedro caia mas fique obnubilado por tempo incerto.
Muita saúde, Maria.