quinta-feira, junho 07, 2012

Conjecturando ou... com jeito "urrando"






«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;  um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;  um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (…)

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente  inverosímeis no Limoeiro (…)

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, - como da roda duma lotaria.
A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara  ao ponto de fazer dela saca-rolhas; (…)
Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)»

(Guerra Junqueiro, Pátria, 1896)

Sei que este excerto de bela prosa lusitana tem corrido, quiçá, centenas de blogues, mas repeti-lo nunca será demais, pelo menos neste nosso tempo de subserviência colectiva, em que as mensagens de alerta devem acompanhar os ventos que se pretendem de nova mudança.

Às vezes, dou comigo toureando o alter-ego ao espelho e, conjecturando, mais concretamente, com jeito urrando, espero respostas que não respeitam questões.
Há coisa que não entendi, nem conseguirei entender por muito bons explicadores que tenha.

1 - Porque será que nem o anjinho do primeiro-ministro consegue explicar o porquê de extorquir, apenas aos funcionários públicos e pensionistas, com inexplicáveis excepções dentro deste grupo, os dois subsídios (férias e 13º mês) numa atitude altamente injusta, desrespeitando o princípio de igualdade dos cidadãos perante a lei e a Constituição da República. Além de imoral, aquela desculpa rasca dos funcionários públicos ganharem, em média, um pouco mais que os outros trabalhadores, apenas poderá ter uma resposta: estes últimos, na generalidade, é que ganham muito pouco, porque os funcionários públicos nem ganham muito, salvo raríssimas excepções, mas não tantas como nos privados. Não se pode tomar a parte pelo todo, além de que a desculpa será, no mínimo balofa e vazia como a cabeça de quem a proferiu.
Convém lembrar que há muitos funcionários públicos que formam casal e vão ter prejuízos enormes, essencialmente se forem quadros técnicos com cerca de trinta, e mais, anos de serviço e em topo de carreira. Posso dizer que é o meu caso e da minha esposa, mas não me lamento só por mim. Por que motivo, ao cometerem o injusto roubo, não pensaram neste duplo saque a uma só família e não deixaram intacto, pelo menos, um dos subsídios? O mal já seria menor, embora sempre indesculpável, além de ilegal e, creio, inconstitucional. E querem manter esta extorsão para além do seu tempo de governação! Ladrões, será o termo.

2 - Estes dias fui chamado, num hospital público onde presto, uma vez por semana, serviços médicos adicionais, no âmbito de oncologia médica, para me informarem das novas normas de pagamento, desses serviços, conforme decisão ministerial. Até aqui pagavam 25 euros ilíquidos, por doente, a que retiravam a “multa” mensal de “penalização”, face à remuneração oficial na minha instituição hospitalar principal, além doutros descontos para IRS. Normalmente, em três horas, conseguia observar e tratar cerca de 10-12 doentes oncológicos, alguns graves. Agora as normas superiores querem obrigar (é o termo) os médicos prestadores de serviços (mesmo noutras áreas) a receber apenas 30 euros ilíquidos, por hora, a que seriam deduzidos os mesmos valores acima citados (“multa” + IRS). Tal faria uma diferença que nem será bom fazer as contas, que deixo ao vosso critério.
Claro que nenhum médico aceita isto, pois três horas de serviço, com as deduções obrigatórias, ficariam pagas por pouco mais de 70 euros. Comparei-me de imediato, num trabalho altamente diferenciado e de utilidade para a saúde nacional, com os cronistas, “free-lancers”, como o Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, ou similares, que só por dizerem umas larachas na TV recebem, pelo mesmo tempo cerca de 2500 euros (10.000 euros em 4 semanas). Já, sem falar dum qualquer cantor pimba que, em duas horas de pinotes e cançonetas, embolsa uns cinco mil ou mais euros.  
Conclusão: até parece que para termos um país sadio e forte, se deverá ter Medicina de borla, mas o lazer e entretenimento devem ser pagos a peso de ouro. Realmente, somos um país de governantes altamente inteligentes e promotores do bem-estar do seu povo. Morra o povo e viva o folclore!

Hoje deixo-me por aqui, mas voltarei, com jeito, urrando contra um sistema obsoleto, corrupto, mentiroso e promotor das maiores desgraças de um povo que se pretende livre e tratado com dignidade.