quarta-feira, outubro 30, 2013

Inter-textualizando Bertolt Brecht... mensagem aos mais incautos


Hoje é um daqueles dias que me apetece recordar  Bertolt Brecht, cada vez mais actual para a ignomínia que vivemos nesta amostra de país. Assim, retomei o seu poema "INTERTEXTO" e lembrei-me de  intercalar entre cada terceto uma breve divagação pessoal, passo a passo, na expectativa de transmitir alguma mensagem aos mais incautos.

(imagem da net)

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso,
Eu não era negro


[No nosso quotidiano, perante milhentos de factos e antifactos, assim nos portamos. Ninguém se desvitimize só porque tem esta ou aquela coloração… como sabemos, as manchas aparecem no melhor pano… e qualquer tecido é rasgável, com ou sem violência.
De que cor são as primeiras vítimas dos selváticos atropelos de governantes míopes e mentalmente insanes? Obviamente a miopia não os deixa compreender as cores, seja da pele, da roupa, ou das palavras soltas com revolta. Apenas vêem a bandeira descolorida do seu partido, o monolitismo anacrónico das suas ideias, a baça redoma que os rodeia e lhes embota olhar e raciocínio e, acima de tudo, a mais bela e adorada das suas cores ─ a do dinheiro. Aprisionaram a cor da verdade e pintaram-na de mentira… só os covardes fogem à verdade e da verdade.]




(imagem da net)
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário


[Será urgente dizimar bocas famintas e quem as alimenta. A força do trabalho já não basta para satisfazer a voracidade de políticos maquiavélicos, ávidos de espectáculo sem arena. Basta sentirem o cheiro da fome e ouvirem as lamentações do sofrimento. Mais um, menos um, que importa, robotiza-se o homem e humaniza-se o robô. Esprema-se o homem que do sangue emanarão frutos dourados. Se houver silêncio no massacre, melhor será a colheita.] 




(imagem da net)
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável


[Aos resistentes e revoltados que reclamam e bradam liberdade, oferecem-lhes grades e algemas, para que saibam que o calor que vitaliza a terra tem senhores e justiceiros, ávidos de divina potestade. Miséria e miseráveis a verdadeira simbiose que alimenta o vício dos plutocratas. Afastem-se os malefícios da miséria que poderão inquinar o prestígio da riqueza.]


(imagem da net)

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei


[Mensagem do contraditório:
Malditos sejam os párias que vivem da caridadezinha e se arrastam por dormitórios estelares, semeando esterco pelas ruas e vergonha na dupla face dos políticos. Emigrai bando de espantalhos ambulantes, pois não passais de odiosa mácula na textura de um país que ruma à perfeição ideal. A falta do trabalho é uma utopia, pois vós, trabalhadores, não passais de infames exploradores dos bem intencionados empregadores, quando pretendeis espoliá-los do excessivo lucro.]


(imagem da net)


Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.


[A indiferença e apatia dos homens não só geram mas também têm um nome ─ hecatombe.
O sol só brilhará se as nuvens negras e revoltadas o deixarem. As cores só brilharão se existir luz que lhes evidencie os contrastes. Os homens só serão senhores se tiverem servos, mas apenas serão homens se forem tratados como iguais. Não vale a pena adular fantoches e bater-lhes palmas, pois as mãos que hoje as batem, amanhã lançar-lhes-ão pedras de raiva e vingança Nessa altura todos se importarão comigo, contigo e, imagine-se, até consigo próprio. Todavia… poderá ser tarde demais!]

Para rematar esta divagação deixarei mais este doce do mesmo autor:
Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam muitos dias, e são muito bons;
Há homens que lutam muitos anos, e são melhores;
Mas há os que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis!