terça-feira, dezembro 31, 2013

(imagem da net )
LIBERDADE

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...
      
                   (Fernando Pessoa)

(imagem da net)


Este Não-Futuro que a Gente Vive

Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros. 

(Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)")



                                              (imagem da net)

Sempre o Futuro, Sempre! e o Presente

Sempre o futuro, sempre! e o presente 
Nunca! Que seja esta hora em que se existe 
De incerteza e de dor sempre a mais triste,  
E só farte o desejo um bem ausente!  

Ai! que importa o futuro, se inclemente 
Essa hora, em que a esperança nos consiste, 
Chega... é presente... e só á dor assiste?... 
Assim, qual é a esperança que não mente? 

Desventura ou delírio?... O que procuro,  
Se me foge, é miragem enganosa,  
Se me espera, pior, espectro impuro... 

Assim a vida passa vagarosa:  
O presente, a aspirar sempre ao futuro:  
O futuro, uma sombra mentirosa.  

(Antero de Quental, in 'Sonetos')


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Hoje, no fim de uma jornada obrigatória, deixo palavras alheias, de sonho e esperança, para transmitir parte do que me vai na alma e na mente. Não vivo, nem nunca vivi deprimido, no entanto os meus augúrios não serão os melhores. Nestes momentos adoraria estar enganado, mas não tenho hábito de sonhar acordado nem pretendo evidenciar-me com sibilismo catastrófico.
Apesar de tudo continuo a acreditar no futuro...que será uma realidade de muitos mas, nem para todos uma chama de felicidade



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