domingo, setembro 18, 2005

Fragmentos...de factos e anti-factos (3)

Quando um cidadão anónimo regressa de umas pacatas férias, a ausência de informação temporária, apesar de ter estado tão perto e no país vizinho, deixa-o deveras espantado. Como será possível que os acontecimentos das últimas três semanas sejam um autêntico repositório de tudo aquilo que não se pretendia nem se augurava, uma autêntica repetição de factos já passados e até censurados pelos actuais detentores do poder político? Afinal existe motivo para se concluir que, mais pincelada, menos borrão, todos agem da mesma forma, assentes nos mesmos interesses.
Sempre pensei que a atitude moral e rígida do Eng.º Sócrates, fosse para agir de forma a que todos fossem pagadores de uma crise que quase só políticos anteriores (entre os quais ele próprio) criaram e alimentaram. No entanto, contrariamente ao voluntarismo inicial que mostrava, concluo (como muitos) que afinal eram apenas promessas e palavras ocas, na maioria dos casos. Como sói dizer-se, a montanha lá vai continuando a parir ratos...e às vezes é cada ratazana!

No que concerne ao rescaldo da anormal quantidade de incêndios durante este Verão, apesar de haver uma maioria de fogos postos, não são procurados os verdadeiros, repito verdadeiros, causadores de tamanha destruição do nosso património florestal e de muitas vidas (incluindo humanas e animais da nossa fauna), para já não falar de lares destruidos e bens familiares desfeitos em cinzas.. Prendem-se, temporariamente, alguns pirómanos suspeitos, mas nada mais se faz, esquecendo-se que, em grande parte destes incêndios, há subjacentes interesses de pessoas e empresas em que ninguém parece querer mexer, ou, nem sequer, indagar.
O prejuízo foi enorme, mas creio que tudo vai passar ao esquecimento, como sempre, e no próximo ano, com ou sem meios mais sofisticados, vamos ter mais do mesmo...estamos habituados.

Mário Soares acabou por ser candidato. Não posso, nem devo censurá-lo na plenitude, pois afinal foi mais ousado que outros para se colocar na área de influência do partido socialista. No entanto sabemos que numerosos militantes e simpatizantes socialistas não morrerão de amores pela sua reeleição. De receosa, e quiçá cautelosa, disponibilidade em disponibilidade, Alegre não teve a ousadia, até hoje, de se lançar na praça das candidaturas, talvez para não ferir a disciplina partidária e táctica de Sócrates, ou, até, por não ter a certeza de ser capaz de confrontar essa tão arreigada disciplina partidária que o poderá transformar num renegado do “clube da rosa”.
Cavaco, que Soares catalogou como carente de “cultura humanística” e de “falta de perfil” para ser Presidente da República, apesar de o elogiar como homem, acabou por se manter agachado por detrás do seu eterno “tabu” e, numa jogada tipo “prognósticos só no fim”, reserva-se para o período pós resultados das autárquicas...verdadeiro jogador! Será que esta atitude entra na sua falta de perfil...ou será falta de coragem perante ausência de eventual contexto político actual? O resultado da queda dos socialistas (que se adivinha nestas autárquicas) talvez possa ser o trampolim da sua candidatura, mas que se acautele o Professor porque o eleitorado português é sempre imprevisível, e o “tabu” poderá eternizar-se.

“Passo a passo, devagarinho, para se notar pouco, o Governo e a maioria do PS estão a tomar de assalto todos os lugares-chave que constituem o verdadeiro poder” dixit Luis Delgado, in Diário de Notícias, a 16/09/05.
Certíssimo e incontestável. Todavia nada que os anteriores detentores do poder político, mai-los seus antecessores, etc., não tenham, como todos sabemos, feito, perante a impotência de quem lá os colocou e nada recebeu...a não ser promessas incumpridas.
Pessoalmente, com alguma ingenuidade, acreditei que Sócrates não fosse repetir tanto esta distribuição de benesses pelos seus apoiantes no poder, mas realmente tenho a evidência que o clientelismo partidário continua a ser uma avassaladora praga do nosso sistema político, sempre em nome da confiança política e da necessidade de homogeneizar e optimizar a eficiência do sistema vigente. Creio que existem efectivamente lugares de necessária confiança, mas não tantos! Reafirmo, que se todos somos portugueses e queremos (quererão todos?) o desenvolvimento e progresso do País, porque motivo desconfiar da governação de um social-democrata em qualquer ministério dum governo socialista, se for um gestor sério, eficiente, acima de tudo, e se limitar a cumprir o programa do mesmo Governo, sem boicotes e com os olhos postos no futuro do nosso País. Concerteza a sua conduta e eficácia seriam fiscalizadas, tal como a de outro qualquer governante, pois todos deverão responder pelo seu desempenho nas tarefas governamentais. Teremos é que, sem tecnocracia doentia, colocar bons técnicos em todas as áreas dos ministérios chave do País, caso contrário continuaremos pelas veredas da injustiça social, corrupção e falta de seriedade, acabando por desaguar, como será previsível, numa labiríntica bancarrota sem porta de saída...e, daqui aos caos e lutas fratricidas, faltará apenas a espessura de um cabelo.

“Então não me cumprimenta? Extraordinário! Que grande ordinário!”, dixit Carmona Rodrigues, após debate com Manuel Carrilho, in SIC Notícias, a 15/09/05.
Eis realmente comportamentos políticos, ordinários no fim e durante debate. Um, permita-se a expressão, recorda e chama ao debate a história da “merda”, com que tenta sabujar a imagem do outro. “Merda” que já tinha sido resolvida em Tribunal, e a favor do ordinário que, para não sujar de merda a mão de quem o sujou, preferiu mandá-lo “à merda”. Qual dos dois o mais ordinário? Logicamente que as opiniões se dividirão conforme as simpatias políticas e até pessoais, pelos dois intervenientes, no entanto concluirei...a verdadeira merda e ordinarice foi o debate que, felizmente, não se repetirá nesta fase eleitoral.

Para terminar não queria deixar de abordar aquilo que muitos consideram um autêntico contra-senso: os Magistrados vão fazer greve. Um órgão de soberania vai agir de forma autenticamente impensável, aproveitando, ainda por cima, o período do feriado de uma quarta-feira, feriado nacional. Oportunismo? Terão razões lógicas para tal atitude já conotada de corporativista?
Acredito que estejam “ofendidos” pela perda de regalias (direitos adquiridos?) que a maioria não tem, nunca teve, nem terá. Creio que as férias judiciais nunca seriam razão bastante para esta atitude, pelo que as benesses que perderão são acrescidas a esse facto, tais como aumento da idade da reforma e passagem ao regime de ADSE. Nada que outros funcionários públicos, menores, não tenham sofrido também, mas com menor alarido. Acredito que nem todos os magistrados sejam apologistas de tal greve, assim como acredito que tenham razão para se queixarem, mas neste aspecto, também muitos outros funcionários públicos, menores e quadros técnicos superiores, terão razões para indignação, essencialmente quando os políticos continuarão a ter benesses e alcavalas que não serão suspensas já.

É, afinal, a contradição e falta de seriedade política do Governo de Sócrates, que dizia que todos seriam penalizados, mas não é bem assim, pois estes malandros que se encontram no poder, ainda usufruirão das benesses de antanho, sendo que as perdas serão para os que vierem. No funcionalismo público não está a ser assim, senhor Eng.º Sócrates. Será, então, esta a sua visão de equidade e justiça? Assim estamos deveras mal, e para pior caminhamos.

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