sábado, outubro 21, 2006

Despenalização do aborto... referendo para quê?


A pergunta que o Parlamento aprovou quinta-feira com vista a um novo referendo é :
"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?".
A última decisão de convocar uma consulta popular caberá agora ao Presidente da República, Cavaco Silva, que, na campanha eleitoral para Belém, adiantou que, como "posição de princípio", daria seguimento a qualquer pedido de convocação de referendo aprovado pela Assembleia da República.

São sobejamente conhecidas as várias posições parlamentares sobre a questão já anteriormente referendada e sempre recusada.
É clara, e por demais reconhecida, a religiosidade ancestral e anquilosada do nosso povo eivado de uma fé Católica doentia e alimentada por séculos de medos e ameaças, sequelas de uma Inquisição abominável. Há um subconsciente nacional impregnado de misticismos e espiritualidade doentia, no que concerne a essa feroz catolicidade.
Ninguém terá dúvidas que o aborto é sempre um acto abominável e censurável, onde quer que se esteja, e seja qual for a fase evolutiva da gestação.Todos conhecemos o princípio elementar ético e filosófico de que só quem dá a vida tem o direito de a tirar. É óbvio e linear, não sendo necessário ter demasiados conhecimentos para o saber.
Mediante os media ninguém, hoje, porá em causa as mortes "ad libitum" e sem qualquer pudor que se provocam em nome da defesa das democracias e fim do terrorismo mundial. Só não se apodam de "aborto" porque os que são mortos já não se encontram "in-utero", apesar de muitas grávidas serem vítimas das guerras em nome de tudo e de nada.
Porventura todos os que condenam o "aborto" considerarão relevantes estas perdas de seres humanos, na sua maioria já nascidos e crescidos? Tal facto não será tão "chaga" quanto o aborto?
Ou dar-se-á o caso que para estes casos a moralidade é peneirada e nunca vista à luz da deontologia e da ética universais?
Se afirmativo, todos os que cometeram genocídios, mortes nas guerras (Iraque, Vietname, Darfur, Angola, Guiné, etc., etc...), e assassinatos por motivos não belicosos, etc., serão, ignominiosamente, dignos de um nome igual ao dos que provocam o "aborto". Destruir uma vida é sempre praticar um crime, independentemente da idade da pessoa destruída e do País em que o acto é praticado. Acima de tudo convirá frisar que tão criminoso é quem mata, como quem manda matar.
Que dignidade terá Bush, quando "mata", sem que haja "referendo" internacional para tal facto, e até desrespeita as resoluções da ONU? E quem diz Bush, diz toda essa plêiade de "assassinos" que muitos apoiam, e aos quais se concede dúbio aval para a carnificina.
Que credibilidade e autoridade teremos para usar e defender dois pesos e duas medidas. Tão crime é aborto "in-utero" como mortandade criminosa "ex-utero", ou seja, em guerras e assassinatos por questões económicas e de imposição de governos e comportamentos sociais.

Finalizando só gostaria de deixar aberta uma simples questão:
Será que a consciência de uma mulher que aborta (seja qual for o motivo) ficará mais pesada que a de um estadista que manda "matar" os seus filhos da Pátria (soldados) e os seus adversários ou inimigos políticos?
É bom que se pondere a questão de forma estandardizada e padronizada, sem subterfúgios e sem apoio em teses de catolicismo doentio e balofo.
"A Deus o que é de Deus, a César o que é de César", Jesus "dixit".

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