domingo, fevereiro 04, 2007

SIM e NÃO... Responder à questão e não ao seu envolvimento.

Sendo o actual referendo sobre a IVG tema de vanguarda, vou hoje aqui transcrever um post que publico noutro meu blog ( http://sol.sapo.pt/blogs/domisol/default.aspx ) de servidor diferente. É que os leitores de um e de outro, não serão certamente os mesmos, pelo que entendo oportuna a dupla publicação.

Se me perguntarem se quero comer um peixe, responderei se "sim" ou "não", e não vou questionar se algum pescador morreu na pesca desse peixe, ou se a mesma pesca é fruto de tanto e penoso sofrimento, quer no acto em si, quer nos salários e condições de vida dos pescadores. Se na mesma pergunta me questionarem se quero o peixe pescado por um pescador "ignorante e com Tuberculose ou Sida" ou por um "saudável", talvez chame nomes feios a quem mo pergunte, pois para o caso não me parece que seja importante em relação ao que pretendo comer. Na questão objectiva fala-se da minha "vontade ou não" (apetite) de comer um peixe”.

Como já repararam, pois o facto está na berlinda e enche páginas de jornais e revistas, apregoa-se em rádios, televisões, conferências (e até sessões religiosas), a questão acima pretende ser um paralelo com a questão colocada para a "despenalização de interrupção voluntária da gravidez se realizada... nas primeiras dez semanas". É óbvio que a primeira parte da questão é mesmo essa, o verdadeiro objectivo de "
descriminalizar o acto" de aborto até àquele período de gestação fetal. Sem qualquer dúvida interpretativa, ali não se pergunta se pretendemos "liberalizar o aborto cometido até às 10 semanas".

A palavra
liberalizar implica um certo sentido de libertinagem social, neste caso, de irresponsabilidade e generalização do acto de "abortar", em si mesmo. Creio que não deveremos tomar a generalidade pelos casos objectivos e parciais, de forma a pensarmos que se vai verificar um autêntico" boom" de abortos, por "dá cá aquela palha", como se todas as mulheres em idade fértil, só porque a maioria da consciência colectiva nacional lhes permitia, legalmente, optar por "aborto", sem criminalização, começassem a "abortar por desporto", transformando o seu útero num necrotério permanente e dando cabo da sua própria saúde. Será que essas mulheres serão anormais e irresponsáveis? Haverá realmente quem pense que abortar é um verdadeiro desporto, que se pratica "livremente" (entenda-se "em libertinagem"), tentando lançar lama e vergonha nos rostos das mulheres em idade fértil?

Abortar é sofrer física e psiquicamente, fazer outros sofrer, para além do estigma da perda do feto que poderia transformar-se num ser humano de grandioso valor para a sociedade e humanidade. Todavia procurem-se nas listagens de abortantes voluntárias, até hoje, quantas dessas gestações eram desejadas. Podem apontar nos vossos canhenhos que
NENHUMA GRAVIDEZ DESEJADA LEVA AO ABORTO VOLUNTÁRIO. Quem pensar o contrário anda simplesmente enganado. Quem deseja a sua gravidez leva-a até ao fim. Claro que algumas das abortantes até desejariam chegar ao fim da gravidez, mas outras circunstâncias adversas as levam à quebra do seu forte desejo. E serão estas circunstâncias adversas que as levam ao actual "crime" da prática abortiva.

E quem as ajuda a levar o seu desejo (quando existe) até ao fim? Serão os que tanto apregoam o NÃO à descriminalização? Podem crer que não acredito, pois hoje andam, na sua maioria, cheios de força e entusiasmo a travar-se de razões da sua escolha, mas amanhã esse entusiasmo vai desaparecer do coração de quase todos eles, embora pudessem realmente continuar a lutar para que as gravidezes indesejadas fossem reduzidas. Acho que não sou injusto ao dizer isto, pois há oito anos atrás ganhou o NÃO, e tudo ficou na mesma ou até pior. E que fizeram de notório os que nessa altura lutaram pela sua opção "NÃO"? Alguém os viu, em número e actos dignos de se ver? Acho que não.
Mesmo agora, se o NÃO ganhar, será que vão fazer essa luta social e informativa que até agora tão poucos fizeram e fazem... mesmo com ajuda dos do SIM? Esqueçam, pois as mulheres continuarão a ser olhadas de viés, com dardos de reprovação e vergonha, caso sintam "necessidade" de cometer aborto. Foi sempre mais fácil criticar e castigar do que ajudar, pois o egoísmo leva ao desinteresse e este ao esquecimento.

Porquê a opção pertencer à mulher?
Todos sabemos que só ela poderá decidir se quer ou não levar a termo a sua gravidez, pois mesmo que ninguém a ajude nos seus desígnios ela acabará por abortar, mesmo com perigo de vida, por muito que isso custe aos outros, incluindo o pai da futura criança e todos os seus familiares e amigos. É inevitável, pois só ela decidirá se quer ou não quer o filho, sempre que este seja indesejável. Logo, teremos que admitir que a questão colocada, com opção da mulher, está correcta. Aliás, nunca será demais repetir que a totalidade de abortos correspondem a gravidezes indesejadas, eivadas de “pecado” ou “fortes impossibilidades” de as consumar.

Há dias ouvi alguém dizer que a mulher não “peca” quando lhe retiram do corpo parte ou totalidade de um qualquer dos seus orgãos (apêndice ileocecal, vesícula biliar, etc.), porque não lhe são alheios e fazem parte do seu próprio organismo. Contudo dizem que o feto até às dez semanas não faz parte do seu corpo, pois será já uma segunda identidade. Tem algo de verdade, mas não corresponde totalmente à verdade. Porquê?
O embrião às dez semanas tem 6,1 a 9 cm de tamanho e a maioria dos orgãos estão formados, em amadurecimento, excepto o cérebro e a espinal medula. Não tem viabilidade, pois não consegue, por si só, sem o corpo da mãe, sobreviver. Quer isto dizer que se a mãe morrer acidentalmente até esta fase fetal, o embrião, como inviável que é, morrerá também. Tal significa que é ainda um apêndice da própria mãe e sem qualquer autonomia. Para que tivesse viabilidade fora do útero materno, teria que ter minimamente 24 a 25 semanas, caso contrário MORRERÁ SEMPRE que A MÃE MORRER, tal como a vesícula biliar, apêndice ileocecal e demais orgãos corporais da sua mãe. Eis a grande verdade que NINGUÉM poderá negar ou escamotear.
Aliás, ainda recentemente Mário Sousa, investigador e professor de Biologia Celular no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto, disse
:”... até às 24 semanas, o feto é um anexo sem autonomia, sem capacidade de sobrevida e sem consciência, pelo que a primazia deve ser dada à mulher...”.
Trata-se pois de um ser em transformação, sem consciência, sem alma, sem viabilidade possível. Ainda está “descerebrado”, não podendo ser considerado indivíduo humano, com cérebro funcional, coisa que nos diferencia dos restantes seres. Só a partir da 24ª semana surgem a percepção dolorosa e função cerebral... está cientificamente provado. Não deveremos esquecer que o feto se move nessa fase por acto reflexo, não consciente, como vemos mexer outros seres vivos, não racionais.
Porventura já se viu, como muitos dizem e com razão, a nível religioso, proceder-se ao baptismo ou funeral de um feto, mesmo até às 24 semanas? Já que a Igreja tanto preza, e bem, a vida, porque não fala com racionalidade e conhecimento de causa, sendo, pelo contrário, o maior motor de resistência à questão da despenalização, com informações a raiar o terror e o libelo acusatório às “pobres mulheres”. Afinal esquece que levando as mulheres ao aborto sem condições de segurança (pois disso é que se trata no referendo) acaba por apoiar a sua possível morte por falta dessas condições, pelo que, a sermos racionais, deduzimos que a Igreja e seus seguidores nesta causa, apoiam a cultura da morte das mulheres, em detrimento da do embrião. Onde está pois a lógica e a moralidade?

Estamos de acordo que a realizar-se um aborto, o mesmo seja feito com assistência médica e segurança clínica e higiénica. Logo, o ideal serão os hospitais, ou clínicas autorizadas para o facto. Discute-se se com dinheiro dos nossos impostos, mas eu questiono: não vivem os toxicodependentes, com ou sem SIDA, Hepatite C, ou Tuberculose, e a maioria das comunidades ciganas, para já não falar dos “penduras” da segurança social, à custa dos nossos impostos? E, já agora, não são os nossos impostos que pagam as mordomias exageradas de todos os governantes e gestores públicos? Esqueceram-se disso, ou não convém falar?

Dentro do conceito de Vida/Morte, será que um embrião, até às dez semanas de gestação, tem direito ao mesmo Estatuto de protecção Jurídica e Ética que um ser humano, ou seja, a sua mãe? Pelo acima descrito, creio que nesse campo, haverá concerteza diferenças indiscutíveis, que obviamente favorecerão a Mãe.

Pretendi, à luz da razão e da justiça, emitir alguns dados polémicos, mas que me parecem indiscutíveis na sua maioria. Acho que NINGUÉM é defensor da MORTE, embora alguns deixem, injusta e irracionalmente, transparecer isso na sua campanha à actual “descriminalização da IVG” sob certos condicionalismos.
Não podemos, como é óbvio, estar todos do mesmo lado da barricada, face à nossa diversidade e diferentes formas de pensar e agir. Todavia não nos cabe o direito de vilipendiar e estigmatizar terceiros, só porque não pensam como nós. O nosso entendimento deverá ser feito de discussão sadia, com adversidade , mas sem inimizade, caso contrário alimentaremos o caos entre a humanidade e, consequentemente a sua auto-destruição.
Uma coisa é certa, quer os defensores do NÃO, quer os do SIM, deverão lutar para que sejam criadas futuramente as melhores condições que favoreçam o mínimo recurso possível ao aborto, procurando criar uma consciencialização de todas as pessoas, e não só das mulheres férteis, para a grandiosidade que é o acto de maternidade. Lutar contra a “libertinagem” de comportamentos sexuais, que me parecem ser uma das primeiras barreiras a vencer.

Sem comentários: