sexta-feira, abril 25, 2014

Hoje, mais que nunca... 25 de Abril "for ever"

                                                 (imagem da net)

Apesar de prolongada ausência neste recanto, hoje, fossem que horas fossem, não poderia deixar de passar em branco os 40 anos do dia da nossa verdadeira libertação, por muito que outros apontem outras datas,  elas também importantes, concordo. Mas esta tem um significado diferente e pôs termo a quase 50 anos de ditadura repressiva, algo anacrónica na Europa de então.

À data vivia os meus 21 anos de idade e estava a acabar a primeira metade do meu curso médico. Na minha faculdade, então H.E.S.João, andávamos em guerra com a polícia, a GNR e alguns bufos pidescos mal disfarçados, disputando algumas escaramuças à base de graníticos paralelos arrancados do pavimento nas imediações hospitalares, e a sempre irritante guerra das palavras e panfletos, para além de umas greves incomodativas para os dirigentes da época. A nossa micro-guerra subversiva inquietava o poder e desestabilizava as "autoridades" que pululavam pelos corredores da faculdade e não permitiam ajuntamentos de mais de três pessoas em conversa. Medo de quê? Não tínhamos armas nem minávamos a débil economia de então.
Tinha escapado à incorporação militar de 1973, pelo facto de ser estudante universitário. O regime pretendia formar médicos para depois os ter de borla, carne para canhão, na guerra do "Ultramar", como muitos que lá bateram com os costados, alguns com mais que uma comissão de serviço obrigatório.

Uma das grandes desilusões dos saudosistas e bem instalados seria a inevitabilidade da descolonização que se aproximava, com perdas de benesses para muitos, mas que acabaria com muitas mortes desnecessárias, cada vez em maior número, de filhos da pátria que lá nada tinham, de seu, para defender. Muitos dos então “retornados”, ainda hoje se sentem ressabiados com essa descolonização que, na verdade, também não foi bem conduzida mas por múltiplos factores e causas incluindo a impreparação bilateral da época e a avidez de muitos autóctones e estrangeiros. Na Europa algumas potências como a França e Inglaterra já se tinham libertado das suas colónias enquanto os governantes do nosso minúsculo país, abusando da escravização do seu povo, teimavam em não pôr cobro a quase quinhentos anos de colonização miserável e pouco profícua para os portugueses. Foram cerca de quinhentos anos em que Portugal nem sequer ensinou a sua língua à maioria dos colonizados e, das riquezas desses territórios, só uns quantos beneficiaram. Foram quinhentos anos de muito pouco proveito e muitas vidas perdidas.
Custou imenso a muita gente ver o nosso país reduzido à dimensão de cinco séculos antes. Ficamos limitados ao pequeno rectângulo ocidental, pré-descobertas. Talvez a nossa pequenez nos pudesse despertar e orgulhar da grandiosidade dos feitos dos nossos antepassados, mas a vaidade e a cobiça de muitos seria atingida e ferida de morte.

A excessiva e desumana opressão debilitava o povo, mas incentivava-o à revolta e libertação. Os que militarmente se expunham, vezes sem conta, aos perigos de morte inglória e por  obnóxias causas, começavam a magicar racionalmente nas razões de tanta persistência e teimosia dos nossos governantes aconchegados e resguardados no seu conforto da metrópole. Era necessário acordar e actuar contra essa teimosia e opressão. Quem melhor o poderia fazer se não os próprios militares. Assim, consciencializados da realidade correram o risco e…
                                                     (imagem da net)

Naquela dealbar de 25 de Abril, em 1974, as armas foram ninhos de cravos que o povo colheu para os libertadores. O sangue foi parco, os gritos foram globalmente de alegria e não de dor, mas os nervos foram de aço, para que tudo assim fosse.
O dia foi de libertação e os 40 anos até hoje decorridos, mostraram que somos um povo preparado para o futuro, apesar de muitos contratempos e de muito oportunismo, essencialmente de más práticas políticas, corrupção inusitada e abusiva e da agiotagem dos mercados internacionais. Onde existe um homem livre logo aparece alguém que o pretende explorar, fazendo jus ao velho lema “homo homini lupus”.

Lamento sobremaneira que os actuais governantes, eleitos com base em falsas promessas e pérfidas acusações, não cumpram com lealdade tudo quanto prometeram, o que implica autêntica ilegitimidade de poder. Pais que geram filho e o maltratam, com atropelos constantes, não podem ter legitimidade sobre esse filho. Assim, este governo já não tem legitimidade sobre a maioria que o elegeu, e as próprias sondagens mostram a repulsa que geraram com seus actos de mentira, perfídias e deslealdade. Trata-se, neste momento, de um núcleo duro empenhado em recuar ao 24 de Abril de 1974, não só em direitos cívicos mas também em valores remuneratórios e sócio-económicos. E não voltam a colonizar as antigas possessões porque lhes é impossível, mas vontadinha não lhes faltará. No entanto, como vamos assistindo no dia a dia, lá seguem vendendo Portugal a retalho, numa autêntica sinfonia de submissão e vassalagem aos mercados e aos usurários da agiotagem internacional.

Tudo isto implica que devem ser submetidos a demissão mais rápida possível, antes que desmantelem o resto de valores e o orgulho lusitano que ainda possuímos. Haja um outro 25 de Abril e defenestremos os Vasconcelos deste país.
                                             (imagem da net)

1 comentário:

Anónimo disse...

Caro médico, concidadão, irmão,
não me poderia sentir mais identificado com as suas palavras que com tanta clareza e lucidez ilustram um percurso e exprimem tão profundamente aquilo que tantos de nós sentimos na presente situação.
Descobri-o acidentalmente e depois de o ler não poderia partir sem lhe deixar um abraço anónimo e dizer-lhe que gostei realmente de o conhecer virtualmente.
(Anónimo de Vale de Cambra)