terça-feira, agosto 02, 2005

Soares...um Alegre não Manuel

Sempre adorei poesia de Manuel Alegre, essencialmente nos tempos da intervenção política pré-vinte-cinco-de-Abril. Chorava-se de ódio contra o sistema faccioso e fascista, e declamavam-se as palavras e armas, clamando aos ventos passantes as novas deste País.

Sentia na poesia de Manuel Alegre esforços e laivos de contestação e luta, as memórias do exílio e a temáticada guerra colonial:
Ó minha pátria morena
meu país de trevo e sal
sou marinheiro e não esqueço
que nasci em Portugal.
Passei os olhos pelas suas obras iniciais: Praça da Canção (1965, a sua primeira obra); O Canto e as Armas (1967); Um Barco para Ítaca (1971), e depois outras obras, mas cujo eco não me era tão querido, face a um país em decadência. É claro que num contexto político actual, estas poesias já não concitam ideias e sentimentos dessa minha juventude de conceitos desalinhados. Mas ainda me fervem nos neurónios e fazem-me reviver ousadias daqueles tempos.
Ora não é que este poeta, hoje um político de monta (mas não tanto!) nas fileiras do PS, não se disponibiliza para a lista dos perfilados à Presidência da República? Fica-lhe bem tal disponibilidade, mas nas desgraças e tempo que passa, não sei se será oportuno para ele tal facto. No seu lugar já não aceitaria tal proposta, mesmo que ela partisse do seu PS. Acho que poucos dos políticos socialistas que fazem da política um emprego lucrativo (mais quando se larga a efectividade) o apoiariam cordialmente e com emoção necessária a eventos deste cariz e pesado simbolismo. Não é que o Manuel Alegre não mereça ser um poeta Presidente...para nós até seria motivo de orgulho, mas assim, desta forma, com um outro candidato a candidato a intrometer-se...Deus proteja o poeta!
É claro que no fundo do meu portuguesismo (já foi mais intenso) não critico o Dr. Mário Soares, por aceitar um autêntico empurrão dos socráticos para avançar, pela terceira vez, para Belém, mas...mas, tal não lhe ficará muito bem, apesar de inédito na nova República. A velhice é um posto, muito mais quando a lucidez prevalece. Não me parece que o homem enferme de Alzheimer, essencialmente quando se analisam as suas crónicas e opiniões dos últimos tempos. Só quem o detesta (como o Portas!) poderá tirar tal ilação. Penso que Soares ainda terá sensatez e saúde suficiente para, pelo menos mais um mandato...e se não concluir, gastem-se mais uns euros em novas eleições antecipadas...o povo está habituado a pagar isto tudo, mai-las mordomias dessa corja toda.
Manuel Alegre não reunirá consensos dentro do PS, Soares parece-me um recurso "in extremis" dos socialistas que pretendem manter uma hegemonia rosa. Todavia, atentemos que Cavaco não será fácil de roer e, como muitos pensam, talvez Sócrates possa conviver politicamente melhor com Cavaco que com Soares.
Soares poderá ser boa e eficaz alternativa ao poeta Alegre, mas não me parece ser a melhor solução, embora a escassez de recursos impere nas hostes socialistas...e isto é o que faz a não renovação de quadros...os "caras" são sempre os mesmos dos últimos trinta anos de esbanjamento de dinheiros nacionais.
Alguém terá que ser o candidato, mas se o poeta, dignamente, renunciar, terá que relembrar a letra e a música que lhe e me ficaram concerteza no coração:
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

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