terça-feira, abril 02, 2013

Do Mito à realidade... a maldade humana

                                                                (imagem da net)

Li, algures uma história de origem árabe, que, se bem me recordo, falava, em sentido figurado, da origem da maldade humana que praticamente todos já saboreámos.
Remontava ao tempo de Adão, então um jovem que trabalhava nos seus campos, enquanto Eva, a sempre jovem e bela mãe da humanidade, se distraía pela casa, nas suas lides domésticas. Enquanto arrumava a casa, às duas por três, apercebeu-se dos gemidos plangentes de uma criança. Abrindo a porta, viu na soleira um belo menino, dentro duma cestinha confortável. Sendo uma sentimentalista, no sentido feminino, Eva tomou-o nos braços e procurou sossegá-lo de todas as formas possíveis.
Chegado das lides rurais, Adão reconheceu na criança algo de diabólico que Eva não pressentiu, apesar da sua maior sensibilidade. Foi traída pelo instinto maternal. Na realidade aquela criança era um filho de Iblis, o principal diabo do Islão, criatura feita de fogo e que se desentendeu e desobedeceu a Alá. Foi então expulso da sua presença e condenado a vaguear pela Terra, lado a lado com Adão e Eva, após os ter iludido a comer o fruto proibido (neste papel Iblis era referido como Shaitan). Sendo uma criatura de fogo não aceitava conviver com as humanas que eram feitas de barro, daí tentar a todo o custo dominá-las e apoderar-se do seu corpo e espírito.
Mas voltando à história, Adão, num rompante, retirou a criança dos braços de Eva e foi lançá-la no rio, onde esperou que o seu corpo se afundasse de vez.
No dia seguinte, regressaram às mesmas lides. Enquanto Adão trabalhava no campo, Iblis voltou e, chamou pelo filho que emergindo do rio lhe respondeu: “estou aqui”.
Pegou no filho e voltou a colocá-lo à porta da casa de Eva. Quando Adão voltou do campo, vendo ali, novamente, a criatura que o horripilava, pegou nela e, desta feita lançou-a no fogo, transformando-a em cinzas.
Na manhã seguinte Iblis regressa e volta a chamar pelo filho que ressuscita das cinzas, qual Fénix renascida.
Quando Adão regressou do trabalho voltou a ver a diabólica criaturinha que bem pensara ter matado anteriormente, mas na realidade ali estava, de novo, de corpo inteiro. Num assomo de génio, virou-se para Eva e disse-lhe:” só temos uma forma de nos libertarmos deste maldito inimigo. É matá-lo, cozinhá-lo e comê-lo.”
Nem hesitaram. Mãos à obra e lá prepararam o petisco. Não sei se soube a pouco, mas deverá ter passado melhor que o fruto proibido.
Na manhã do dia seguinte o pai da criaturazinha reapareceu à cena e chamou o filho: “meu filho, onde estás? ” Ouvem-se então duas vozes, saídas das entranhas de Adão e Eva, respondendo:”estou aqui e bastante confortável.” Responde-lhe o pai: “ Ainda bem, pois era mesmo esse o meu grande desejo.”
Moral da história: foi desta forma que todos os seres humanos, herdeiros de Adão e Eva, começaram a ter de conviver com o demónio que têm dentro de si.

Obviamente esta historieta mostra aspectos caricatos da humanidade. Já não vou falar das teorias do incesto nem das tentações viperinas, mas sim duma espécie de princípio posteriormente abordado no lema “homo homini lupus” (o homem é lobo do homem) que conduz à antropofagia. Sei que não passa de uma simbologia, mas na realidade o nosso quotidiano mostra esse simbolismo, mesmo sem recorrer à verdadeira antropofagia que deixou resquícios neste século, para além da selvajaria de outrora. Não é que a mitologia árabe coloca Adão e Eva como os primeiros canibais? Tal facto configura, sob ponto de vista corânico, um inevitável fatalismo atávico. Naturalmente haverá muitas formas dos homens “se comerem” uns aos outros, mas na verdade com ou sem vinganças, o homem serve-se frio e a frio.


1 comentário:

Um Jeito Manso disse...

Até arrepia, dbo, até arrepia.

Teremos todos demónios dentro de nós? Todos? Eu também...? Não creio.

Acho que aqui também funciona aquilo da média: uns têm dois, outros têm zero. Por isso, a média dá um. É isso, espero...

Mas que eu conheço alguns que estão cheiinhos deles, lá isso conheço.