sexta-feira, abril 19, 2013

Amor e vingança… confidências e cumplicidade


                                                                    (imagem da net)

Olhei-o de soslaio enquanto entrava no consultório. Arrastava a sombra da morte nas passadas lentas e descompassadas. Homem dos seus cinquenta e poucos amarrotados anos de vida, desgastada em vicissitudes e infortúnio. Apostaria que naquele corpo habitariam mais uns quinze anos. Aspecto marasmático, em cútis de desistente da vida.
Sentado na minha frente qual condenado à espera do veredicto, não me olhava nos olhos e parecia buscar e seguir formigas no soalho. Três anos atrás fora gastrectomizado “a um cancro maligno”, fez questão de contar a sua acompanhante, magricelas e algo descuidada. No início aceitou ou ignorou a sua doença arvorando-se esperançoso. Todavia, pouco a pouco, tomava sumiço e estiolava, a olhos vistos.

Foi internado e indagou-se o caso. Num esmiuçar de imagens, colheitas de sangue e expectoração, concluiu-se: o homem tem metástases pulmonares e hepáticas.
Assim, com tal desdita, me apareceu e sujeitava-se a uma simples sentença clínica decidida em consulta prévia de grupo oncológico. Inicialmente pensou-se em radioterapia, mas face à sementeira granular dos pulmões, só a quimioterapia seria uma solução paliativa. Por pouco tempo, é claro, mas quanto bastasse para algumas atitudes e resoluções.
Aceitou o quimioterápico sacrifício e prontificou-se a alimentar as suas esperanças falidas e os desejos afectivos da esposa. Maldisse a sua vida de boémio, fumador inveterado e coleccionador de bebedeiras. Pouco ajudou a família e pataca ganha pataca gasta. No entanto parecia não ter remorsos. A mulher era limpa e vivaça, cozinhava bem para ricos e pobres. Poderia safar-se nas limpezas domésticas. Ele tinha dois grandes objectivos que incansavelmente repetia: o amor e a vingança.

Amor-próprio, muito pouco. Diz que amava a mulher, agora que sentia o fio da lâmina, mesmo depois de muito a ter maltratado. Na altura, os vapores do vinho subiam mais alto e rebaixava-se com atitudes menos dignas, por vezes roçando a violência. A esposa, submissa, produto de doutrinas religiosas anquilosadas e doentias, aceitava as inexplicáveis punições. Desculpava-se com a sua educação, que já fora alimentada a toque de chibata e berrata.

Num dos seus universais gestos de afectividade serôdia, aceitou visitar, em Andorra, a filha mais velha que quase fora escorraçada de casa à pancada por ter engravidado e abortado pouco depois. Não teria sido pelo neto, filho de algum vagabundo, mas pelo que considerou ser ignomínia familiar. Numa noite chegara à cabeceira da cama da rapariga, ainda grávida, e metera-lhe a tesoura nas lindas tranças que se desprenderam dos cabelos fartos e encaracolados. Houve gritos e intempéries emocionais. Poucos dias depois a jovem fugira de casa com o homem malcasado que a engravidara. Primeiro para Espanha, mas depois de abortamento espontâneo, rumou para Andorra. Jamais falara ao pai desnaturado, mas sabedora do seu infortúnio actual, acabou por reconsiderar as cinéreas quezílias e pediu-lhe que a fosse visitar. Vivia com o mesmo homem de quem já tinha outro filho e gostaria que o pai conhecesse a neta.

Depois de ter cumprido, com algum rigor e sacrifício, a via-sacra da quimioterapia, acabou por melhorar satisfatoriamente e ganhou peso, floresceu física e psiquicamente. Solicitou pausa para visitar a filha e posteriormente cumprir os seus dois grandes objectivos. Concedi-lhe cerca de dois meses.

Lembro-me, passado mês e meio, de ver a esposa passar pelo sóbrio corredor do serviço de urgência, vestindo de negro. Aproximei-me e perguntei-lhe pelo marido. Morrera, ou antes, suicidara-se. Nem chorou, nem explicou. Pediu desculpa e continuou em direcção à morgue. O cadáver ainda lá estava, à espera de autópsia, devido a morte violenta.

                                                                (imagem da net)

Cerca de meio ano depois, a secretária da unidade de oncologia diz-me que tem uma senhora, esposa de um doente já falecido, que me procurava. Pela porta do consultório entra-me a viúva, acompanhada duma filha que até ali nunca eu tinha visto. Apresentou-se como a que vivia em Andorra. Viera ao funeral do pai e agora voltara para ultimar assuntos importantes. Ofereceram-me um embrulho simples e muito bem rematado, dizendo que era uma lembrança do falecido, algo que já havia conversado comigo e que pedira à esposa que me fosse entregue um dia, se morresse.

Palavra puxa palavra, sem pretender remexer nas cinzas, perguntei como é que ele se fora suicidar, se até andava muito bem e mais esperançoso no futuro, apesar do prognóstico reservado. A mulher relembrou-me os dois grandes objectivos do marido: amar e odiar. Fez questão de realçar que o marido foi vítima do ódio e não do amor. Só ela o sabia. Confidências e cumplicidades.

O seu grande sonho era ser rico e deixar a família segura e suficientemente endinheirada. Nos dias atribulados da sua vida, sempre se sentiu oprimido pelo patrão que nadava em fartura e diversão. Sempre se achou subjugado e escravizado por esse patrão e jurou um dia, etilizado ou não, que haveria de dar à sua família o lucro do seu trabalho real, nem que tivesse de passar sobre o cadáver de quem o explorou. Dizia, entre os amigos, “eu dei muita nota a ganhar, a esse sacana, mas um dia vou sacar-lha. O que é meu é meu, sai-me do corpo”.

Parece que cumpriu. Poucos dias após regresso de Andorra, engendrou um diabólico esquema e conseguiu assaltar a rica mansão do seu ex-patrão. Não conseguiu matá-lo porque ninguém estava em casa, mas a sua ideia era a vingança e quiçá reaver muito do que lhe dera de lucro. Entendia que muito desse lucro também deveria ser seu.

Alguns dias depois, os seus antigos desabafos acabaram por traí-lo e trazer suspeitas através dum ex-colega que o vira rondar a mansão assaltada. Lambe-botas do patrão acabou por levantar suspeitas. No dia seguinte à denúncia, a polícia dirigiu-se à sua casa para o interrogar.
Do quintal, onde se encontrava, viu algum aparato policial e, sub-repticiamente, refugiou-se no seu quarto trancando a porta. Enquanto a polícia falava com a esposa ouviu-se um disparo…

O valor do roubo fora bastante elevado, em jóias e dinheiro, mas sumira em poço sem fundo, por ignoto encantamento. A polícia andou toda a semana em buscas, mas nada se encontrou…até hoje. A própria esposa e filhos diziam desconhecer a existência do produto do saque. Não sei se por estratégia ou desconhecimento. A verdade é que a casa e periferia foram vasculhadas ao milímetro. Nada.

Hoje a esposa e restante família está em Andorra, algures numa aldeola, onde parece que vivem desafogadamente, na fartura e diversão tal qual vivera o patrão do falecido. O amor surtira efeitos positivos.

O meu embrulho cuidadoso tinha um objecto curioso. A arma do crime, um belo revólver que me havia prometido e já teria sido do seu avô. Nunca o vendera. Apenas o utilizara na fatídica hora e tempos depois fora reentregue à esposa, pela polícia, uma vez que era objecto de culto e colecção familiar.
Quando remexo nesse revólver, parece-me ouvir aquele doente falando dos dois objectivos que nunca contara, a não ser à mulher que durante vários anos tanto maltratara…

Bem longe, no âmago do seu silêncio, a esposa vive numa perfeita simbiose de confidências e cumplicidade…


2 comentários:

Um Jeito Manso disse...

Gostei muito desta história. A vivência de um médico é sempre riquíssima do ponto de vista humano e felizes dos que têm a sorte de escrever tão bem.

Conte mais... está bem?

Obrigada.

dbo disse...

Só hoje lhe respondo, cara UJM, mas entre realidade e alguma ficção, são longas e pungentes as histórias e memórias de quem pretende mitigar o sofrimento alheio.
Por detrás de cada história narrada existe uma realidade camuflada, mesmo que muito esmerilada.
Felicidades.