sábado, abril 23, 2005

Da vida à morte...decisão consciente

A vida é um bem que ninguém, de bom senso, coloca em perigo. Nem a própria loucura dos suicidas me parece um acto consciente e, muito menos, sensato, pois tem subjacente estados de alma caóticos e influências nefastas e devastadoras dum ego destruído, voluntária ou involuntariamente. A morte aproxima-se de nós inevitavelmente, numa compassada cadência, ao sabor do ignoto tempo. Cada segundo uma esperança, cada dia passado um sonho realizado.
Mas que vale a vida se mal vivida? E que conceito teremos do que é uma vida bem vivida? Sonham-se boas vidas, mas, escalpelizadas, não passaram de vidas mal vividas...atropelos, usurpações, escravatura, ignomínias, enfim, uma infindável lista de itens responsáveis por pseudo-boas-vidas. Outras, más vidas, foram vividas da melhor forma, embora muitas vezes no fio de lâminas de fazedores de desgraças, estes com vidas, muitas vezes, não melhores que as dos que procuraram subjugar.
Se a vida é a maior valia da humanidade, porquê tanto contra-senso, tanta aberração comportamental, tanto alarido político e religioso sobre a mesma? Que importa, para a maioria da humanidade, a definição de vida, a sua caracterização, onde começa e onde acaba essa própria vida? Parece mais um problema para distrair cérebros ávidos de ciência e geradores de conflitos, embora na sua essência não o seja. Toda a discussão tem o seu lugar e tempo próprios.
Discute-se quem comanda a vida, e presume-se que tem razão a canção de António Gedeão: “O sonho comanda a vida”. Então não deveremos desfazer os sonhos de quem vive, e muito menos dos que vão diluindo a vida, com outros sonhos, até ao desfazer de todos os sonhos...a morte, lógica ausência de vida.
Procuram, desde os meandros religiosos aos políticos, numa sociedade desgastada e agastada, decidir da vida e da morte de cada ser vivente, não só humano. Concílios, conferências, mesas redondas, encontros...tudo serve de campo decisório, para se julgar a vida e a morte. Em nome de todos e de ninguém...em favor de alguns e prejuízo de muitos mais...sem que alguém lhes tenha passado procuração para tão alta decisão.
Criminaliza-se quem comete aborto e rouba a vida do feto intra-uterino, mesmo que a razão abortiva ultrapasse os valores da consciência humana. Não se procuram essas razões e colocam-se as mulheres em posições ignominiosas como se prazer e bem estar lhes proporcionasse tamanho sacrifício abortivo. Acham esses pensadores de filosofias preconceituosas e seguidistas que, quem sofre na pele o aborto, se vai sentir feliz, livre de alguns remorsos, capaz de repetir por prazer nova cena ...nem pensem nisso! O aborto nunca foi nem será motivo de felicidade e bem-estar para quem o faz, para quem o efectiva e para quem, por múltiplas e ignotas razões, o pretende e nele participa. Não é só a mulher que aborta a desejosa de tal facto, na maioria das vezes, pois por detrás da decisão estão interesses de terceiros, homens, maridos, amantes, pais, irmãos...fugas de escândalos, de misérias ocultas, de amores falhados...enfim, de mil razões que não deverão ser julgadas nem punidas por interesses e intenções bacocas e em nome de religiosidade perversa e fundamentalista, ou politiquices de submissão obsessiva.
Ninguém deverá impor as suas ideias em nome da fé, qualquer que esta seja, e muito menos em defesa de determinados princípios políticos, eivados de conservadorismo radical e baseados em dogmas ancestrais e anacrónicos. O respeito pela vida, na sua essência, passa pelo respeito das pessoas que já representam vidas activas, valores indiscutíveis da própria essência existencial.
Sem pretender fazer julgamentos de quem quer que seja, gostaria de encontrar uma explicação lógica para se avaliar quem é o maior criminoso: o que promove a morte de um feto que ainda não comungou o contacto da natureza agreste, ou aquele que envia para a frente de batalha milhares de jovens, já conhecedores dos prazeres terrestres, sabendo que vão ser, muitos deles, mortos em defesa de nada e de ninguém a não ser interesses de quem os manda. Mais concretamente, interrogo: Não será Bush mais criminoso que uma mulher que aborta? Magiquem, vejam prós e contras e, em consciência, sem influências religiosas e políticas doentias, decidam a intensidade dos crimes nestas situações. E agora, porque será “pecado” matar o feto, e não é “pecado” condenar à morte milhares de jovens soldados que não defendem nada de seu, a não ser a própria vida. Já nem quero falar das penas de morte institucionalizadas em alguns países ditos democráticos e respeitadores dos valores éticos e morais. Que valem esses valores? O valor que cada um lhe atribuir, em consciência e sentimento de justiça social.

Não queria acabar este problema de vida e morte sem focar a eutanásia. Aceito que não se induza a morte a um doente vegetativo que apresenta autonomia e sustentabilidade vital sem apetrechos complementares (vulgo, máquinas), mas entendo que, quem não consegue, per si, sobreviver sem esses complementos da modernidade tecnológica, deverá, se for assentimento da família, ser desligado do cordão umbilical de suporte e falecer com dignidade e de acordo com a lei da natureza, em que tudo tem o seu efémero tempo de passagem. Chamar pecado a este acto de dignidade humana é que será um verdadeiro pecado. Da mesma forma se deverá apodar o acto de prolongar a vida irrecuperável de um doente em estadio terminal, com meios técnicos de suporte, mas com enorme sofrimento do mesmo, já que tal não passa de distanásia. O sofrimento, qualquer que seja a sua feição, destrói o homem, pelo que urge de forma racional e consciente, erradicá-lo quando se torna irreversível, apesar de hoje os cuidados paliativos conseguirem controlar muito do sofrimento humano. O grande problema das sociedades é que a dor de uns não é a dor de outros, e a empatia do sofrimento esbarra em preconceitos, tabus de conduta político-religiosa e no egoísmo generalizado das sociedades consumistas, exploradoras e indiferentes aos verdadeiros valores humanos.

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